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O ARTISTA

Romualdo cursava o último semestre de jornalismo numa conceituada faculdade. Era dos melhores alunos, tirava as melhores notas, mas sabia que essa não era a sua vocação. Queria ter cursado artes plásticas, gostava especialmente de escultura – mas quem disse que o pai permitira? Dono de um diário de médio porte, que começava a se firmar na cidade, o pai sonhava em transferir ao filho o pequeno império jornalístico, e não admitia que o herdeiro sequer pensasse em renunciar à carreira já definida.

– Há quatro anos que curso jornalismo, sem sentir qualquer afinidade. Quero fazer o que eu gosto, pai.

– Ponha a cabeça no lugar e entenda que o seu futuro está na direção do nosso jornal. Além do mais, quantos artistas você conhece que vivem exclusivamente de arte? Pouquíssimos, com certeza. Você deve continuar o curso. Nas horas vagas, aí sim, exercite esse passatempo pelas artes.

– Não é passatempo, pai, a arte é minha vida! De que adianta ser jornalista, se não sinto o menor gosto em escrever, ou sair atrás de notícias? O que eu quero, mesmo, é ficar num atelier criando as formas que me vem à cabeça.

– Deixe disso, rapaz, que escultura é coisa pra Picasso ou Matisse.

– Esses eram pintores...

– Artista é a mesma coisa, em qualquer atividade a que se dedique: pintura, escultura, gravura – é sempre um morto de fome!

– É um artista, antes de tudo!

– Mas não deixa de ser um morto de fome! E vamos parar por aqui, que preciso voltar à redação para acompanhar o fechamento da edição de amanhã.

Enquanto o pai saía, Romualdo ficou perdido em pensamentos, perguntando-se o que faria dali por diante – desobedecer ao pai e seguir a verdadeira vocação, ou dedicar-se a uma profissão pela qual não sentia o menor gosto?

Não julgava errado o pai. Sabia que teria melhor futuro como jornalista, ainda mais porque herdaria o jornal. Como artista, talvez não ganhasse nem para o cigarro. Era uma decisão difícil – difícil, mas inadiável. Era o seu futuro que estava em jogo; e sabia que não podia decidir no par ou ímpar. Que faria, então?

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– Já fiz a minha escolha, pai. Serei escultor!

Ao contar ao pai a decisão, Romualdo parecia seguro; mas em seu íntimo sentia-se pior que uma gelatina. O pai nada respondeu; limitou-se a fazer uma expressão resignada e a dar-lhe as costas, como se dissesse: “Você é quem sabe!”.

Romualdo procurou manter o sangue-frio; e, posto que decidisse o seu caminho, era a hora de seguir em frente. Possuía algumas economias depositadas no banco, que guardara para o caso de fazer essa escolha.

Alugou uma quitinete, e nela instalou o atelier. A matéria-prima já vinha comprando há tempos; nas horas de folga, costumava esculpir alguma obra em seu quarto, mas nada que pudesse chamar de arte.

No primeiro mês, esculpiu algumas encomendas, cujos clientes foram encaminhados pelo diretor do museu de arte moderna, com quem tinha certa amizade. Combinou preços módicos, e comprometeu-se a entregar logo as encomendas – o aluguel venceria na semana seguinte, e a dispensa encontrava-se quase vazia.

Sentia que aquele começo não seria nada fácil; contudo, o prazer de estar fazendo um trabalho que o enchia de prazer, para ele era o suficiente.

No segundo mês, e no seguinte, ainda recebeu algumas encomendas, que deram para garantir o atelier e o estômago. Do quarto mês em diante, parece que se esqueceram dele.

Procurou o amigo diretor do museu, mas ele limitou-se a dizer que era culpa da crise, ninguém mais tem dinheiro para empregar em arte, mas isso passa, logo aparecerão novos clientes, não se pode perder a esperança, vida de artista é assim mesmo.

Romualdo achou melhor esperar.

Passava todo o dia esculpindo algumas pedras, que sobrara do estoque, ou moldando a argila que trouxera do sítio do pai. O que aprontava, empilhava num canto, e ali deixava, até que a poeira encarregava-se de dar um ar de abandono às obras.

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Um dia, após terminar outra estatueta, ficou admirando-a. Por fim, voltou os olhos para a pilha no canto. Sentiu algo esquisito, que a princípio não conseguiu definir (talvez frustração?). Quantos artistas, hoje imortais, não passaram pela mesma privação? Quem sabe ele não seria mais um desses gênios?

Um brilho inusitado dominou-lhe o olhar. Parecia exprimir certo contentamento por toda aquela situação, como se o prazer pela arte compensasse qualquer tipo de adversidade.

Logo, porém, o olhar modificou-se. Não demonstrava mais satisfação; expressava tristeza. Pensou na carreira de jornalista, e imaginou como seria se a tivesse seguido. Com certeza, não teria sido feliz. Mas uma coisa é certa – dinheiro não faltaria para pagar o aluguel e contentar o estômago.
Roberto Fortes
Enviado por Roberto Fortes em 23/08/2007
Código do texto: T620579

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Sobre o autor
Roberto Fortes
Iguape - São Paulo - Brasil
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Roberto Fortes