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À ESPERA DE VOVÓ

Deitado na cama, ele folheia sem muito interesse uma revista de variedades. Vez ou outra fixa o olhar vermelho na porta entreaberta. A respiração apressada denuncia-lhe a ansiedade.

Põe a revista de lado e suspira. Vem-lhe à mente a notícia que o pai lhe dera. Tudo aquilo não devia passar de um grande pesadelo. Como poderia aceitar que a avó estava morta? Deveria ser uma brincadeira de mau gosto. Sua avó, a querida amiga? Não seria um engano do Correio na hora de expedir o telegrama?

Notou a fisionomia pálida do pai ao ler a notícia. Percebeu que não era boa coisa, quando ele sussurrou, os olhos lacrimejantes:

– Mamãe morreu!

Pai e mãe não conseguiram conter as lágrimas, que brotaram instantaneamente e escorriam pelas faces transtornadas.

– Vovó morreu! – exclamou, perturbado com a notícia. Correu para o quarto, onde estava enclausurado há uma semana.

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Aos quinze anos, era um adolescente típico, de temperamento difícil. Com os pais, eram comuns as brigas e discussões. Nas poucas vezes em que conversavam, terminavam quase sempre brigando. Por isso, recolhia-se ao quarto, sua inexpugnável fortaleza particular.
Mais que um quarto, aquilo parecia um depósito. A bagunça era total. Ali tinha de tudo: brinquedos, livros, roupas espalhadas por todos os cantos. O pai lhe dava de tudo (suborno?). Olhava para tudo aquilo, sentia-se desinteressado, preferia os discos de Carmen Miranda que a avó lhe dera no último aniversário.

A avó, avançada em idade, exibia invejável disposição. Por detrás do porte aristocrático e das maneiras rígidas impostas pela tradição familiar, percebia-se nela uma mulher de bem com a vida. Sua voz macia porém enérgica acalmava os ânimos em casa. Promovida a concórdia entre as partes conflitantes, a avó levava-o até o quarto, tentava convencê-lo do amor dos pais. Ele dava de costas, os pais só sabiam adverti-lo disso ou daquilo. Ah, mas não, a avô o entendia. Era a única no mundo que o compreendia.

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Difícil aceitar a dura realidade. Não conseguia admitir de forma alguma a tragédia. Como perder para sempre sua melhor amiga? E os projetos que fizeram da última vez que ela o visitara, mês retrasado? Sim, os projetos.  Nas férias de julho visitariam a Caverna do Diabo. Seus olhos se arregalaram quando a avó, mapa nas mãos, lhe contara que era das maiores cavernas existentes na Terra, quem sabe a mais bela dentre todas.

Amiga dos livros, aventureira, ela lhe transmitia seus conhecimentos espeleológicos. Fora ela – e não qualquer professora – que lhe explicara que a caverna fora descoberta em 1886 pelo naturalista teuto-brasileiro Krone, esforçado sábio autodidata que dedicara toda a vida ao estudo de grutas, sambaquis, peixes e pássaros do Vale do Ribeira, figura muito respeitada nos meios científicos da época. Mas ele se aborreceu ao lembrar disso. Para que a descoberta, se jamais iria conhecê-la? Morta está a avó.

Enquanto olhava para a porta, lembrou-se do dia anterior à morte da avó, quando telefonara para Santos. A ligação estava péssima; ainda assim conseguiu falar alguns minutos com ela. Era um dia especial, a avó completava oitenta anos; ele sentiu muito, mas não pôde compartilhar dessa alegria ao seu lado.

Quanto mais o tempo passava, mais ele fixava os olhos na porta. Sua cabeça estava confusa. Esforçava-se, é certo, mas não conseguia esconder a ansiedade.

A claridade do luar penetrava por uma fresta da janela. Levantou-se e fechou-a. Acendeu a luz do quarto, aquele luar o incomodava. Foi até a porta, abriu-a, esticou o pescoço, espiou o corredor. Ninguém. Voltou para a cama aborrecido.

Uma forte dor de cabeça começou a importuná-lo. De tão forte, ele quase desmaiou; mas deu tempo de chegar até o leito, onde se atirou feito uma pedra. Passados alguns minutos, a dor diminuiu de intensidade, pôde abrir os olhos.

O relógio da parede acusava dez horas.

Aquela espera exaustiva estava deixando-o à beira de um ataque de nervos. Mas apesar da longa vigília e do cansaço, tinha certeza que sua espera não era em vão.

A qualquer momento – sim, a qualquer momento! –, a avó entraria pela porta. Ali, eles poderiam conversar como antes – sim, como antes!

Quem sabe não pudessem até mesmo visitar a Caverna do Diabo naquele final de semana?
Roberto Fortes
Enviado por Roberto Fortes em 24/08/2007
Código do texto: T622313

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Sobre o autor
Roberto Fortes
Iguape - São Paulo - Brasil
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