Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

CONTOS URBANOS: O bilhete de um pseudo-canalha

Sentou-se num canto qualquer do café. Não, mentira. Escolheu minuciosamente uma mesa perto da janela. A janela era grande, tipo vitrine, daquelas que se observa tudo lá fora. O vidro tava meio embaçado, meio sujo...Sei lá.

Acomodou-se. Pôs a bolsa ao seu lado, de dentro dela tirou um caderno velho, com orelhas, meio amassado e uma caneta. Folheou até achar alguma folha em branco. Encontrou. Dobrou o caderno. Colocou a caneta atrás da orelha direita, ajeitou os óculos e olhou ao redor. Fez sinal e chamou a pequena garçonete:

-Boa noite
-Boa noite, o que a senhora deseja?
-Senhora? Eu tenho 22 anos...Seja um pouco mais gentil, ok?
-Okay, desculpa senhora
-Ahhh, vamos tentar de novo

(A garçonete sorriu, um sorriso sem graça...Mas sorriu)

-Boa noite
-Boa noite, posso ajudar?
-Tá vendo, ficou bem mais bonito agora...Pode sim. Eu gostaria de um copo de whisky com duas pedras de gelo e depois um fondue...Pequeno, por favor.
-Deseja mais alguma coisa?
-Não, creio que não...Por enquanto, é só.

Ficou ali parada por uns cinco minutos, observando atentamente a vida lá fora. Como quem observa um aquário. A garçonete voltou, trazendo o pedido da jovem moça. E eu fiquei observando as pernas da garçonete gostosa. Sei lá, ela era gostosa sim, mas alguma coisa nela, me broxava...Acho que era aquela porra de vestido xadrez.

Voltando...

A garçonete trouxe o pedido, ela pôs o copo no canto esquerdo-central da mesa e só agora havia reparado que ali havia um cinzeiro. Estava sujo. Incomodou-se um pouco com a situação, mas não disse nada, apenas afastou-o com uma das mãos (parecia estar com um pouco de nojo). Tirou a caneta de trás da orelha e pôs-se a escrever. Bebia e escrevia. Escrevia e bebia. Bebia para escrever e escrevia pra tentar esquecer. Esquecer o quê ou quem....Eu não sei. Sei apenas que ela tentava esquecer algo, estava explícito em seus grandes olhos castanhos. Por algumas vezes, quase chorou. Conteve-se e bebeu mais um gole. Acabou por pedir uma outra dose. E debulhava-se em palavras...Pobre da caneta.

Parou por alguns instantes, ajeitou os cabelos longos, prendeu-os num tipo de coque. Ficou meio bagunçado, devo admitir. Mas aquele batom rubro em sua boca, jamais a deixaria sequer, chegar perto de ser feia.

Voltou a escrever. Confesso que estava interessado nela, mas confesso que interessou-me ainda mais o que escrevia com tanto afinco. Mandei um bilhete, junto com outra dose de whisky. Estava escrito:

"Posso saber o que tanto escreves?"

Ela tomou a outra dose, agora um pouco mais rápido. Fechou o caderno. Guardou-o dentro da bolsa. Soltou os cabelos e pôs-se a responder meu bilhete, eis o que continha nele:

-Caso seja um psicólogo não. Não pode saber sobre o que escrevo ou me acharás complexada, como todos os outros profissionais que conheci. Caso não seja, me ligue e talvez você possa virar uma das páginas do meu caderno. Alice (2785-6484). Um beijo.

Saiu do café, pegou um táxi e se foi.

E eu? Eu fiquei ali, parado, com um sorriso sacana no rosto, apenas me decidindo se ligaria ou não.
Tamires Alci
Enviado por Tamires Alci em 13/01/2018
Código do texto: T6225223
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original ("Você deve citar a autoria de Tamires Alci"). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Tamires Alci
Nova Iguaçu - Rio de Janeiro - Brasil, 25 anos
90 textos (1637 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/07/18 03:17)
Tamires Alci