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O enterro

    Tio Pedro nunca quis se casar. Dizia que gerava despesa. E vindo os filhos, os quais viriam com certeza, nunca se poderia sair do atoleiro. Trabalhou a vida inteira numa fábrica grande, mexia com uma prensa hidráulica. Gastava somente o necessário, e nisso tinha o rigor dos sovinas. Enriqueceu trabalhando e fazendo usura. Seu almoço era dado pela firma, cardápio variado durante a semana; o jantar, esse não tinha jeito, feito por ele mesmo no domingo para atender a demanda da semana inteira: arroz, repolho e, às vezes, ovo no lugar de carne moída. Faltando quinze dias para a aposentadoria, com a qual contava como se fosse o maior dos miseráveis do mundo, um infarto fulminante veio resgatar sua alma.
    O caixão ficou lacrado durante o velório; ninguém explicou o motivo. Apareceram duas sobrinhas, religiosas. Uma vizinha viúva e prestativa chorou. O vigia noturno da fábrica esteve presente, e tentou – a todo custo – animá-la. Não havia mais ninguém na despedida ao defunto, de maneira que nenhum outro choro foi derramado. Quando o caixão descia à sepultura, a coisa mais marcante foi o aparecimento de um cão de rua com focinho de tamanduá. O animal se enroscava nos presentes e ria, com o rabo fino e comprido, o riso dos cães. Tio Pedro passou pela vida. Não fumou, não bebeu, não xingou, não gritou, não casou… Apenas sonhou em ganhar cada vez mais dinheiro. “É!... Ninguém sabe o que ele trazia no peito!”, frase única do amigo vigia (benzendo-se), dita como sermão aos presentes. Todos o olharam confusos, esperando que prosseguisse, esperando por algo mais comprido. Entretanto nem mais uma palavra chegou ao defunto. A vizinha chorona gostou das palavras, tanto que saiu enlaçada pelo vigia. Ia mais feliz, sem lágrimas. Saindo do cemitério, na virada do portão, uma palavrinha canalha do vigia rendeu a ele um tapinha fingido no ombro. Ela ainda se virou, dando a última olhadela na direção dos coveiros, sentiu remorso porque não conseguiu sustentar a hipocrisia; um beliscão a fez esboçar um sorriso e o rosto logo ficou vermelho.
    Foi assim aquele enterro.
Sales Ambé
Enviado por Sales Ambé em 29/01/2018
Reeditado em 15/02/2018
Código do texto: T6239539
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Sales Ambé
Barra do Piraí - Rio de Janeiro - Brasil, 45 anos
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Sales Ambé