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EM TORNO DA MESA - OU SERIA TRUCOOO?

EM TORNO DA MESA

Quartel do Sacramento é uma comunidadezinha mineira situada próximo à Mata do Parque, parecida com muitas outras comunidadezinhas mineiras: Uma pracinha (na qual se encontram mais cães vadios que pessoas), uma escola, um campo de futebol (disputado pelas crianças e adultos), uma quadra esportiva (por motivos políticos está há anos, trancada sob sete chaves, nem inaugurada foi), uma Rua Principal (também chamada de Avenida) e uma igreja matriz.
O aparelho de som existente na igreja com seu alto-falante,  funciona como uma espécie de jornal local, através dele, os moradores são informados sobre todos os eventos: festas religiosas, escolares, comunitárias e, é claro, informa também os falecimentos.
Para cada tipo de informação o anunciante coloca antes uma música diferente como a preparar o espírito de quem irá ouvir sobre o tipo de notícia que irá anunciar.
Ouve-se uma música sacra para festas e encontros na igreja, uma popular para reuniões e festas escolares, outra para festas comunitárias tipo aniversário da cidade e Quartelense ausente e... a música mais tocada é blue navajo de zamfir para anunciar os falecimentos (morre muita gente naquele lugar!).

É apenas mais uma cidade do interior que passaria despercebida, se não tivesse lá suas particularidades como a de ser habitada apenas por crianças e velhos.
Passeando os olhos pela rua, não se encontra uma só pessoa que tenha entre vinte e cinqüenta anos, aparentemente, todos foram para cidades maiores em busca de oportunidade de trabalho ou estudo e deixaram seus filhos morando com os avós.
As crianças vivem com seus  avós desde o nascimento até concluírem o ensino médio – em torno dos dezessete anos – então também vão para outras cidades recomeçando o ciclo.
Notadamente vivem fora até completarem sessenta anos e aposentarem-se. Voltam em busca do sossego e da paz que a melhor idade merece.  Paz, esta, perturbada apenas pelos novos netos que vão nascendo e que eles têm de criar e educar como se filhos fossem.
Aí é que entram os engraçados episódios, que só acontecem em Quartel do Sacramento, dos quais dois despertam muita atenção e quase matam de rir quem os assiste!
Ambos começaram quando Seu Otávio – um senhor de aproximadamente 70 anos, baixo, calvo, solitário como as roupas encardidas que traja --  resolveu que debaixo da frondosa árvore, existente no passeio de sua casa, era o lugar ideal para se jogar truco.
O velho pegou uma roda de carro – de - bois para tampo (um tronco qualquer servia de pé) fincou-a no chão e em volta dela diversos bancos onde poderiam sentar-se diversas pessoas.
Os senhores – acima dos sessenta anos, de raças e credos diversos -começaram a chegar timidamente: de início eram apenas quatro, mas foi aumentando, aumentando.
Em poucos dias eram tantos velhos que se reuniam para jogar ali que nos banquinhos já não cabia mais ninguém.
Seu Otávio colocou mais um banco grande para fazer a rodada “de fora” – instantaneamente encheu - já sobra velho sentado ao meio-fio, outros carregam pequenos bancos ou tamboretes de casa, alguns, que gostam de uma caninha, até levam uma garrafa da “mardita” para beber enquanto esperam sua vez.
 Há para lá de setenta velhos reunidos naquele passeio e em volta daquela mesa, agora já chamativamente pintada de vermelho, parecendo festa da melhor idade que vai de domingo a domingo.
O jogo de truco passou a ser a principal atividade exercida em Quartel do Sacramento, qualquer outro evento deve necessariamente ser marcado para o período da manhã ou da noite, isto se quiserem a presença de alguma alma viva no tal evento.
Inclui nesta regra velar e enterrar um falecido, por mais amigo que esse defunto tenha sido em vida - às vezes a regra se atropela; teve uma semana na qual morreram cinco pessoas em quarenta e oito horas – uma marca que deixou preocupação em todos os participantes do truco.
Tacitamente, o horário de começar, todos os dias, gira em torno das quatorze horas (às seis da manhã já existe algum velho encolhido no banquinho para marcar lugar) e termina apenas quando escurece completamente.
Um dia destes, aconteceu que, a mesa dos velhos foi tomada pela garotada enciumada (os netos adolescentes entre doze e dezesseis anos), chegaram cedo, trouxeram na algibeira um encardido baralho e começaram a jogar burro e pif-paf.

Os velhos foram chegando e ficaram esperando, esperando. A molecada fingia não estar vendo e continuava seu jogo infantil.

Cansados de esperar, os dignos senhores que não queriam saber de briga, arrumaram uma mesinha portátil e trocaram de calçada: foram para o passeio da casa de seu Chico Váz e Dona Lúcia (O casal é uma ternura: ambos de pele clara como suas almas, andam sempre limpinhos, mesmo que os trajes sejam simples).

No dia seguinte, como quem desafia as autoridades, lá estava a molecada de novo! Novamente os aposentados trocaram de passeio.

Desta vez, Seu Otávio fez um cartaz com os seguintes dizeres: “PROPRIEDADE PARTICULAR! SÓ SENTE SE FOR CONVIDADO!”

 A meninada voltou, pelo terceiro dia consecutivo. Então, já apelando, o velho Otávio arrancou o tampo da mesa, guardou dentro de casa e agora só o coloca quando chegam "velhos” para jogar.

Resignadas, as crianças tiveram de aceitar a regra. Agora jogam apenas quando convidadas e se chegar algum idoso deve se levantar e ceder a vez.

Terminada essa peleja com a meninada, começou outra, desta feita mais difícil de solucionar.

Enquanto estavam ocupando o passeio de Seu Chico Váz, ele, que já passou dos noventa, está quase cego e surdo, decidiu que também iria participar do jogo todos os dias.

Vai para a mesa e leva junto a esposa Dona Lúcia( ela, uma senhora séria, serena e acima de tudo obediente ao marido), tão magros são, que dividem o mesmo banquinho.

Toda vez que as cartas são distribuídas Seu Chico volta-se para Dona Lúcia:

-  quais cartas tenho aqui?

Ela cochicha a resposta no ouvido dele e ele:

- fala mais alto  mulher!

Então ela grita!

Nem é necessário dizer que todos ficam sabendo imediatamente qual é o jogo dele.

Assim ele perde todas as partidas. Depois fala que perdeu por culpa da pobre mulher e que ela vai ter de jogar uma no lugar dele.

Ela pacientemente obedece!

Toma o lugar do marido à mesa, mas... antes mesmo que ela estude seu jogo, ele grita:

-TRUCOOOOOOOOOO

Os dois levam logo seis na cabeça!

Eles finalmente desistem de jogar, atravessam a rua indo para casa.
Nessa travessia ouve-se a seguinte discussão:

- Como é que pode? Você me fez perder todas!

- Eu não, você perdeu sozinho!

- Mas você tinha de prestar atenção nas cartas!

- Quem manda você gritar fora de hora?

O que resta do dia é para brigar por causa do jogo...

Ninguém sabe se brigam porque jogam ou se jogam porque brigam.

No dia seguinte, os idosos, recomeçam tudo.

Muitas vezes durante o jogo, por alguns longos e penosos segundos, os corpos de todos se arrepiam, eles ficam quase inertes; apenas os olhos se movimentam procurando entre si quem faltou ao truco naquele dia.

É que no “som da igreja” começou a soar a música BLUE NAVAJO tocada pelo flautista Zamfir...

******DONA LÚCIA
A senhora sabe que só escrevo sobre pessoas que gosto muito, muito mesmo! é minha forma de homenagear estas pessoas... só não voltei a visitá-la ainda porque como a senhora sabe: minha saúde está em frangalhos e eu me tornei prisioneira de minha casa... se e quando eu melhorar um pouco, pode deixar que estarei aí filando um cafezinho! - tenho encontrado com o Pedro (genro) e ele é que me dá notícias da senhora. Um grande beijo! Ah no outro site que participo está escrita a crônica "O ADEUS DE SR CHICO"
KYRIADALUA
Enviado por KYRIADALUA em 02/09/2007
Reeditado em 12/05/2009
Código do texto: T634850

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Sobre a autora
KYRIADALUA
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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