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CADA LOUCO COM SUA MANIA

Cada Louco com a sua Mania

Durante a paralisação dos caminhoneiros, a busca por combustíveis se tornou inevitável e um programa obrigatório para o brasileiro autêntico, ou seja, aquele que só pensa no seu próprio umbigo. Como sou adepto da contrariedade, neguei-me a pagar o preço abusivo praticado pelos donos de postos que adoram extorquir seus clientes. Desta forma, deixei o carro empoeirando na garagem e fui ao trabalho servindo-me do também precário transporte coletivo. Sentei-me, antecipadamente num ponto de ônibus, coincidentemente, localizado ao lado de um destes postos que assaltam o consumidor à mão desarmada.
Aguardava pelo ônibus que me levaria ao meu destino, quando passei a analisar a agitação que se formava no famigerado posto de combustíveis, com uma fila de veículos que contornava o quarteirão, ladeada por pessoas irritadas, impacientes e profusamente ávidas pelos derivados do petróleo e da cana-de-açúcar. Entre tantos carros, rostos e vozes, chamou-me a atenção uma senhora, que tinha sobre o painel de um modelo automotivo luxuoso, um despreocupado e indiferente gato – como realmente costumam ser os felinos.
Até aí, nada demais, pois é muito comum as pessoas andarem com seus animais de estimação em seus carros, sejam cães, gatos, aves e até répteis, como cobras e lagartos. Mas como dizia, o gato permanecia inerte, enquanto aquela mulher, já de meia idade, tagarelava sem parar, num diálogo interminável com o bichano. Como estava calor e os vidros estavam abertos, concentrei-me naquela cena, abstraí-me dos ruídos a minha volta e passei a codificar o que ela dizia ao siamês.
- Essa é a situação a que chegamos, Major! Quase duas horas nessa fila e nada! Esse país não é sério!
O gato, intuitivamente, coçou a orelha.
- Isso mesmo, Major! Temos que ficar com a pulga atrás da orelha sempre. Afinal, quem está ganhando com toda essa baderna? Ganhando eu não sei, mas perdendo está o povo, como sempre!
Em seguida o bicho bocejou preguiçosamente.
- Se eu estou com sono? Opa se estou, Major! Dá até vontade de dormir nessa maldita fila!
Percebi então, que dona se comunicava intensamente com o felino matizado, que nem de longe lembrava o fantasmagórico Pluto, de Poe ou o de botas, de Perrault. Contudo, constatei que não havia diálogo, mas sim, um monólogo exótico, unilateral, protagonizado apenas pela senhora. Talvez, mesmo não apresentando tantos anos, fossem os sintomas da senilidade ou caduquice da idosa. O modo como ela conversava com o gato, lembrava um agradável papo entre dois humanos racionais e gozando perfeitamente de suas faculdades mentais. Não me contive e continuei observando.
- Quase duas horas nessa fila e nada, Major. Estou ficando com fome!
Major – esse era o nome dele - displicentemente, passou a lamber as patas, iniciando o famoso banho de gato.
- Não adianta lavar as mãos que não tenho ração aqui para te dar, Major. Em casa também está o estoque da sua ração, culpa também dessa greve! Se quiser, vá comprar alguma coisa na loja para você comer!
O gato ronronou.
- Hum... Nem me fale, Major! Nos preços que estão as coisas! Este país está cada dia pior!
Não podia acreditar no que via. A dona do bicho estava alheia ao que acontecia a sua volta, totalmente entretida, trocando altas ideias com o Major. Parecia que o tal Major estava na reserva e de saco cheio de tanto blá blá blá. Pensei comigo que os gestos do gato eram característicos ao animal e não respostas elaboradas como a mulher imaginava serem. Por pouco não interrompi o falatório e perguntei se ela se sentia bem, se precisava de ajuda ou se já eram os reflexos da busca insana por gasolina. Concluí que a humanidade está humanizando os bichos e animalizando os homens.
De repente, o bichano se levantou, sua cauda se eriçou e ficou se agitando de um lado para o outro. Num salto preciso através da janela, ele alcançou rapidamente o chão e saiu em disparada por algum motivo – certamente viu algo que lhe interessava, como um rato – pois partiu em direção a loja de conveniência. A idosa colocou a cabeça para fora e disse:
- Major, se for comprar algo, aproveite e traga uma água pra mim. Ah, com gás, por favor!
Foi o cúmulo da sandice. Resignei-me com aquilo que meus olhos e ouvidos registravam. Não queria acreditar em tamanho desequilíbrio mental. Consternado, voltei o foco ao meu objetivo inicial, pois durante todo o tempo em que observava, confuso, uma mulher falando com um gato, não passou por ali um ônibus sequer. Não demorei muito a entender que a greve causara falta de óleo diesel e que o transporte público também fora afetado.
Tomei então o rumo de casa, afinal, não teria como chegar ao trabalho e pelo celular acompanhava as notícias do caos que tomavam as cidades pouco a pouco, inclusive com falta de abastecimento de gêneros alimentícios. O que tinha de fazer, se quisesse realmente contribuir com o movimento dos caminheiros parados, era mesmo ficar em casa e esperar a vida voltar ao normal, inclusive para aquela mulher que encontrara no posto.
Mal cheguei ao portão, fui recebido pelo Rex, - meu fiel escudeiro - um disciplinado cão pastor. Ainda no quintal comecei a contar a ele o que presenciara no ponto enquanto aguardava o ônibus. Entramos, sentamo-nos ao sofá, um de frente para o outro. A cada passagem que eu contava, soltávamos muitas risadas com o comportamento absurdo daquela senhora. O Rex, de tanto rir, escapavam-lhe lágrimas pelo focinho. Ele jurava, com todas as palavras, não acreditar no meu relato. Rimos tanto que ele se abanava com o rabo. Vai entender os humanos? Tem cada gente estranha nesse mundo, né?!
Sérgio Silva
Enviado por Sérgio Silva em 08/06/2018
Reeditado em 08/06/2018
Código do texto: T6359091
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Sérgio Silva
Araraquara - São Paulo - Brasil, 45 anos
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Sérgio Silva