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O parque

Entrei no ônibus amarelo, pequeno e que finalmente tinha porta usb do lado do banco, pra conectar um carregador. Me sentei naquele lado que forma uma fila de bancos únicos. O sol já não estava alto e tornei a me perder em meus pensamentos, olhando pela janela.
No meio do trajeto, uma mulher entrou com uma criança pequena que me pareceu ter uns 3 ou 4 anos. Sentaram nas poltronas da minha linha. A criança era falante, vi que a mulher era sua mãe e interagia carinhosamente com a filha.
Poucos minutos depois, passamos em frente a um parque que tem por aqui. Não é grande, mas é um parque infantil tradicional da cidade e tem dois brinquedos que me assustam até hoje, pela altura. O parque estava aberto e ouvia-se da rua os gritos empolgados dos moleques que lá brincavam.

-Olha, mamãe! - A menina apontou para o primeiro brinquedo que dava para ver da rua - O que é aquilo?

-É um brinquedo, filha.

Os olhos da criança estavam vidrados e ela começou a pular apontando para o brinquedo.

-Eu quero ir, vamos lá também mamãe!

-Não filha, hoje não dá.

-Por favor, por favor! Me leva!

-Agora não!

Aquilo cortou meu coração. A menina pedia com muita vontade, estendeu as palmas das mãos sobre o vidro,  olhando pela janela. Sabe, aquele parque nem era lá aquelas coisas, mas vi que aquilo era muito do desejo daquela garotinha. E eu entendo, porque na idade dela também achava o máximo. Mas a mãe disse claramente que no momento não podia, e ela com certeza tinha seus motivos. Mesmo assim, aquela criança não parava de insistir e foi ficando cada vez mais agitada. Começou a chorar, pedindo desesperadamente para que a mãe a deixasse ir, que queria, queria, queria. Ela não se conformava, mas a culpa não era dela, pois era só uma criança.
Foi aí que aquilo me incomodou, porque me vi no choro daquela menina que custou a se acalmar... me vi chorando por aquele amor. Vi aquele desespero, que de uma coisa triste passou pra exagerada, sem juízo. Apesar de estar completamente fora do meu controle, por não ser mais uma criança eu deveria ter uma postura diferente. A vida me mostrou que eu estou sendo como aquela criança. O brinquedo, é como a minha amada que partiu e a mãe, que é quem dita as regras, é essa distância de sobrenome tempo. Não quero mais insistir nisso. Gostei daquele parque, é verdade... mas mereço encontrar outro melhor, um que me faça sorrir.

-Hoje não dá pra ir no parque, filha.

Ok, entendi o recado. E ao repousar no colo da mãe, aquele pingo de gente também entendeu.
Deverah
Enviado por Deverah em 11/07/2018
Código do texto: T6386990
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Deverah
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 25 anos
24 textos (926 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/11/18 08:46)
Deverah