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Abandonei o rock and roll


Fui casado por 19 anos. Minha esposa já tinha alguns aninhos a mais que eu, mas ela sempre parecia tão jovem quanto aquelas garotas que postam fotos com flores em lugar dos mamilos no Instagram. Fui fiel a minha esposa por longos 10 anos. Nunca olhava para  os lados, nem mesmo procurava saber algum tipo de informação que me despertasse interesse nas outras. Eu era um homem que todas as esposas procuram, exceto por um simples detalhe: eu não fui casado com uma mulher. Eu fui casado com o rock and roll.

A melhor esposa  do mundo! Entregava tudo aquilo que qualquer ser pode querer numa vida: euforia, reflexão, consolação, paranoia, angústia. E ela me  entregava isso sempre com muito tesão. Todo homem se derrete quando sua esposa o seduz com muito tesão, mesmo que isso te deixe angustiado depois. Era isso que nós queríamos.

Era.

Comecei a flertar fora de casa depois desses 10 anos de pura fidelidade.

Eu olhei para os lados quando vi um piano, um contrabaixo e aqueles instrumentos de sopro que me causava muita raiva desde sempre. Kenny G me vinha a mente e apenas uma incontrolável vontade de inexistir era o que eu sentia.

Mas eu olhei para os lados. Finalmente eu olhei para os lados.

O flerte começou em 2010, criei uma empolgação silenciosa genuína e tal, mas eu sempre retornava para o conforto de ter tudo aquilo que  eu já sabia de cor que eu receberia. Voltar ao Porto seguro, meu conforto em permanecer lisérgico e sintético através das notas de minha experiente e sagaz esposa. Eu sabia que ela seduzia outros mais, contudo ainda me mantinha fiel, ainda que às vezes flertando timidamente em águas nunca antes navegadas por este que vos escreve.

O flerte obviamente é alimentado pela propriedade mais primitiva humana: a curiosidade. Eu sempre fui um curioso condicionado, uma espécie de girafa que explora sua savana de 780 m3 localizada entre muros nos altos do Jabaquara. Mas eu queria romper essa barreira, pelo menos enxergar por cima do muro como era o restante da savana do lado de lá.

Mas eu descobri que não existe só o bioma da savana. Existem centenas de outros tipos por aí e eu estava exatamente no dia do início do fim. O fim do meu casamento com o rock and roll.

Um dia qualquer de 2011 e lá estava eu sem a presença da minha esposa, entrando naquilo que me parecia um bar com certa elegância, mas uma elegância decadente não proposital como eram algumas antigas baladas do circuito augusta. O saxofone era soprado com intensidade, as  mãos do baterista se retorciam ao manejar as baquetas como Ian Curtis se retorcia ao manipular o microfone antes de tombar epileticamente, o teclado adaptado a um som penetrante de um piano moderninho todo aquele suor escorrendo por toda a entrega da banda e resposta imediata do público me sinalizaram algo: eu preciso conhecer está garota.

Saímos para fumar um cigarro e bebericar um Martini. Ela não gritava, tampouco parecia que pegaria fogo a qualquer segundo se bebesse vinho em garrafas de plástico. O primeiro encontro com o jazz fez eu me sentir cool pela primeira vez. Uau!

Aquilo parecia ser tão adulto!

Minha esposa me ridicularizaria certamente.

Nos cumprimentamos e ela me passou o contato de um cara chamado John coltraine. Juro que entendi cocaine, mas ela não usa cocaína (Clapton estava certo, ainda que ele tenha uma amante mais melancólica).

Eu estava me apaixonando, mas minha esposa me mostrava algumas coisas  e fazia uns truques que sempre  me faziam sentir culpa eum certo receio de começar algo paralelo. Embora eu me assegure  de que minha esposa nunca tenha tido qualquer vestígio dos meus flertes, parecia que  ela sabia de tudo. Parecia até  mesmo que ela pudesse ter feito a  mesma coisa que estou fazendo, só que num passado mais distante. Mas fico em divagações e me restabeleço no meu então já tradicional casamento.

Passaram alguns anos e perdi o contato com o jazz. Alguns resquícios  do passado e nada mais. Entretanto 2016 abre suas  cortinas para me apresentar a minha primeira amante da vida.

E começamos a sair  em dias aleatórios sempre que eu podia dar uma escapada. Minha esposa nunca foto rígida, pelo contrário  (embora de alguns anos para cá estranhamente alguns admiradores dela sejam absolutamente restritivos mentalmente) e dessa forma eu passei a ter uma vida dupla.

Esposa me acompanha durante o dia apenas no ônibus ou nos vagões deprimentes dos trens de São Paulo As noites, quando dava, eram especialmente reservadas para a amante. Não era algo banalizado, era um evento.

Uma certa noite eu estava sozinho e decidi entrar num bar aleatório pra tomar uma cerveja que pudesse resolver todos os  problemas da história da vida lactea. Eu fiquei em choque quando vi as duas juntas numa jam session! Fiquei absolutamente sem o que falar nem para a minha esposa tampouco para a amante.

As duas  me reconheceram! Não havia pra  onde correr. Então eu abandonei a cerveja e pedi vodka pura sem gelo. Pelo menos bebendo como um eslavo as coisas  pudessem ser esclarecidas, assim como a Rússia esclareceu coisas com a França e a Alemanha num espaço de 120 anos.

Elas estavam caminhando na minha direção então eu já estava bebendo copos completos de vodka de uma só vez quando um grupo de pessoas (homens e mulheres um pouco mais velhos que eu) interromperam as duas para diálogos acalorados. Eu já estava em chamas por  conta da vodka então eu não precisaria me acostumar com a ideia do calor.

Então escutei pedaços aleatórios de conversas unidirecionais num universo bilateral e aí tudo seria um grande quebra cabeça que eu estava disposto a montar.

E quando houve a dissipação de todo esse calor, minha esposa  com um sorriso sarcástico acabara de me dizer que eu não precisava mais ser fiel a  ela pois não havia mais um casamento, e eu não havia dito uma palavra! Parecia que todas aquelas pessoas  falavam por  mim. Parecia que todas aquelas pessoas conheciam a minha história. Parecia que todas aquelas pessoas eram fases diferentes da  minha própria existência!

Enquanto eu ainda estava em choque e encharcado de vodka minha amante veio na sequência, após  minha ex esposa desafinar algum instrumento como vingança, e me disse que não havia problemas. Não precisávamos nos  casar para selar um pacto. Mas que ela já havia cumprido aquilo que ela se  propusera a fazer anos e anos atrás.

Foi então quando me dei conta de que minha ex esposa fora amante de várias daquelas pessoas que eram casadas com o jazz, tudo numa grande história de apropriações e promessas de liberdade e sexo em fazendas, e então eu percebi que eu não estava traindo o rock and roll, mas que o jazz estava me resgatando de volta.
Rafael Wingert
Enviado por Rafael Wingert em 20/07/2018
Código do texto: T6395421
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Sobre o autor
Rafael Wingert
São Paulo - São Paulo - Brasil
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