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UM GRANDE ENGANO (parte 3)

Edna levou quinze minutos de táxi até chegar ao motel. A raiva a consumia. Sua vontade era invadir o lugar, obrigar a recepcionista dizer qual o quarto onde o cretino estava e entrar lá quebrando tudo. Mas ela conseguiu se controlar. Agarrada ao bastão, sentou no meio fio da calçada bem em frente ao motel. Esperaria pacientemente o carro de Vladimir sair e então sim, daria o flagra. Havia nela uma crueldade que poucas vezes sentira na vida. Já sentira vontade de matar na vida, mas era besteira, uma raiva passageira que podia se resolver com palavrões ditos em alto volume para extravasar.
Mas agora era diferente. A ira de Edna era quase palpável. Parecia se condensar no ar que respirava. Se tivesse que ficar a tarde inteira na frente daquele motel dos infernos assim seria. Não sairia de lá antes de quebrar o carro do Vladimir, a Soraia e o próprio. Nem que tivesse que passar o resto dos seus dias na cadeia. Com certeza sua irmã trataria de criar Gabi. E sua filhinha querida certamente iria entender os motivos que a levaram a cometer aquele ato. Um ato consciente, diga–se de passagem.
A noite começava a cair e nada do Vladimir desovar lá de dentro. Cansada de ficar sentada, Edna levantou para esticar as pernas sem nunca largar do bastão. À medida que o tempo passava, mais Edna se enfurecia, imaginando as cenas de amor e sexo selvagem que se desenrolavam lá dentro. O máximo de tempo que a transa dela com o Vladimir durava ultimamente eram quinze minutos, tudo muito burocrático e sem novidade. Mas com a Soraia não! A performance de ambos devia estar sendo coisa de cinema. Incrível.
– Vou te matar, desgraçado – rosnou ela de olho em um carro que saía lentamente do estacionamento do motel. Não era ele. Edna novamente sentou na calçada. As pernas pesavam. Mas ela não iria abandonar o posto, não depois daquele tempo todo plantada ali.
Uma mulher de minissaia apontou na esquina caminhando sensual. Ela vinha rebolando, com os cabelos longos soltos nas costas, como se estivesse em uma passarela. Edna a olhou com alguma curiosidade. Era bem parecida com a Soraia. Talvez fosse a irmã da vadia, por que não? Será que era puta também?
Mas quando a mulher se aproximou, Edna deu um salto e ficou em pé outra vez. Era Soraia! Nossa, era Soraia quem vinha caminhando na direção dela jogando os cabelos para trás, sabendo ser alvo dos olhares dos motoristas que passavam pela rua naquele entardecer.
– Se não é você quem está lá dentro, com quem Vladimir está?
Soraia, que vinha distraída pela calçada, teve um sobressalto ao escutar aquela voz. De repente se viu parada frente à Edna e a um bastão de beisebol. A mulher estava com uma cara de louca. E aquele bastão piorava tudo.
– Oi? Você está falando comigo?
Soraia bem que queria seguir em frente, mas também ficou curiosa. Algum babado forte estava rolando e ela não podia deixar aquilo passar.
– O Vladimir.
– Ah... seu marido? – Soraia se fez de sonsa. Sabia muito bem quem era o Vladimir. O cara mais gato da vizinhança. Adoraria ter um caso com ele. – Aconteceu alguma coisa?
Edna apontou para o motel com o bastão.
– Ele está lá dentro. Acompanhado. Pensei que fosse de você.
“Quem me dera.”
– Comigo? – Soraia apertou a bolsa ao encontro do peito. – Mas por que logo eu? Tem tanta mulher por aí.
– Por causa do despacho que você largou quase na frente da minha casa – acusou Edna. – Pensa que eu não sei?
– Despacho? – Soraia chegou a recuar. – Nossa, vizinha. Não fiz trabalho para roubar homem nenhum. Só para sua informação, eu não preciso destas coisas para conquistar um cara, viu?
Edna engoliu em seco. Olhou para a fachada do motel e depois tornou a olhar para Soraia.
– Mas se não é você, com quem ele está?
– Se você que é a mulher dele não sabe, por que eu teria que saber? Eu, hein... E este bastão? Pra que é?
Naquele momento um carro preto começou a sair vagarosamente do estacionamento do motel. Edna sentiu o coração acelerar. Era ele, o ordinário do seu marido. Ah, agora ele iria ter o que merecia.
A vergonha e a morte.
Edna empunhou o bastão e avançou para frente do carro. Soraia se alvoroçou.
– Ei, sua doida! O que você pretende fazer?
O carro parou quase em cima da Edna, bem no meio da rua. Uma forte paulada trincou o vidro.
– Saia do carro, seu desgraçado. Seja homem! Morra como um homem, não se esconda feito um rato!
Soraia tentou intervir:
– Edna, pare com isto! Você vai ser presa!
O motor do carro apagou. Edna foi para a porta do lado do motorista e desferiu outra violenta porrada com o bastão na lataria.
– Sai, Vladimir! Quero olhar bem para sua cara antes de acabar com você!
A porta do carro foi aberta bem devagar. Edna esperava o marido com o bastão em punho, no alto da cabeça, pronto para descer sobre ele. Uma pequena fila de carros já se formava na rua.
– Edna, pare com isto – a voz de Vladimir era de terror. Ele sabia do que Edna era capaz. – Eu posso explicar tudo.
– Explicar o quê, seu miserável! – Edna sapateou pronta para desferir o bastão sobre ele. – Quem é a vagabunda que você está comendo? Se não é a Soraia é quem?
Vladimir olhou, pálido, para Soraia que a tudo observava com vontade de rir. Ela mesma tratou de perguntar:
– Quem é Vladimir? Estou com brotoeja de tanta curiosidade.
A porta do carona abriu lentamente ao mesmo tempo que buzinas começavam a ser ouvidas. Edna desviou seu olhar para aquele lado. Uma cabeça loira surgiu com o mesmo olhar espantado de Vladimir. O bastão caiu aos pés dela.
– Mas quem é esta criatura, Vladimir?
– Eu... bem... Este é o Guto. Guto, Edna. Edna, Guto.
Fez–se um silêncio entre os quatro somente quebrado pelas buzinas e xingamentos dos outros motoristas.
– Você é gay, Vladimir?
Foi Soraia quem fez a pergunta. Ele olhou, tenso, para a esposa, e disse outra vez:
– Tenho uma explicação para isto, meu amor.
– Então explique–se – ela pôs as mãos na cintura, espantada com aquilo. – Você é viado desde quando? Desde que casamos? Ou só descobriu depois de velho?
– Foi apenas uma experiência, Edna. E não curti. Foi... foi isso. Pare de filmar, Soraia! – berrou Vladimir ao perceber a vizinha de celular em punho. – Eu posso processar você, sabia?
Mas já era tarde demais. O vídeo de Edna tomando satisfação de Vladimir em frente ao motel já havia sido passado para todos os contatos de Soraia. Naquele momento a polícia chegou.
– Pode prender estes dois – Edna apontou para o marido e o amante. – Acabei de saber que fui trocada por outro homem. Isto não é motivo para prisão? Pois devia. Com o chifre que levei não vou passar pela porta de casa tão cedo.
– Minha senhora – o policial tentou ser educado. – Trair ainda não é motivo para prisão. Porém, fazer arruaça no meio da rua e trancar o trânsito pode render uma visita à delegacia. Este bastão é seu?

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 21/07/2018
Código do texto: T6396033
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
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Patrícia da Fonseca