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O PRETENDENTE DE MINAS

Era tarde da noite quando Júlia voltou para casa. Entrou apressada no quarto, fechou a porta em silêncio e se lançou sobre a cama acolchoada, onde logo adormeceu profundamente. O pai, que não dormira a noite toda, ficara no leito, lendo, cigarro à boca, sem conseguir conciliar no sono. A chegada da filha não fora o bastante para dissipar a preocupação que se lhe apoderava.

Não fora a primeira vez que Júlia saíra para passear e voltara às tantas da madrugada. Fizera isso várias, muitas e muitas vezes. Segundo se justificava ao pai, o nariz empinado, precisava viver a sua vida, tinha dezessete anos e achava o maior despropósito deixar a diversão em segundo plano e voltar cedo para casa. Gostava de sair e ficar na rua durante toda a madrugada, com o namorado, que estudava arquitetura, ou na casa de alguma amiga. Preferia a liberdade de estar fora de casa a ficar trancada nela, junto com o pai, que ela detestava.

A mãe morrera quando Júlia tinha apenas cinco anos. É certo que não fora para a menina um choque notável; pouco sentira a sua falta já que a tenra idade não lhe permitia compreender a noção de perda. Para o pai, no entanto, fora o começo do fim. De simples e pacato escriturário de banco, passou em pouco tempo a alcoólatra; levava uma vida desregrada, e parecia gostar disso, tendo largado há anos o emprego e vivendo com algum dinheiro que a mãe lhe mandava de Minas.

Desde aquela época, o relacionamento entre Júlia e o pai nunca fora harmônico. Diversas tentativas foram encetadas para fazerem as pazes. Tudo em vão; parecia impossível uni-los. Detestavam-se mutuamente. Não se toleravam de forma alguma. E viviam sob o mesmo teto, sem trocar sequer uma palavra.

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Júlia e Márcio marcaram um encontro para as cinco da tarde. Júlia, ainda no quarto, enquanto se arrumava, ficou a pensar sem muito interesse na conveniência de ir ou não se encontrar com o namorado. De manhã, na hora do café, a empregada murmurou ao ouvido do pai que a mãe dele telefonara e viria hoje fazer uma visita. Júlia não escutou o resto do recado, mais foi o bastante para ficar aborrecida.

A avó morava em Minas. Era uma respeitável senhora setentona, de maneiras rígidas e porte aristocrático. Não se pode dizer que gostasse da neta. Achava-a ligeiramente bonita, e não passava disso. Visitava uma vez por ano o filho para se certificar que ainda estava vivo. Gostava dele – pois era seu filho –, mas sentia certo incômodo pelo estado deprimente em que se encontrava. Cheirava à álcool, não se vestia decentemente e, ainda por cima, tinha o péssimo habito de gritar. Isso ela não tolerava.

Júlia penteou com vagar os cabelos compridos, jogou-os sobre os ombros e foi até o guarda-roupas escolher uma calça. Arrumou-se o melhor que pôde e rapidamente saiu do quarto. Quando descia pelas escadas escutou lá em baixo algumas vozes e uma delas lhe pareceu familiar. A avó chegara.

Sentados em volta da mesa, esperavam que a empregada servisse o café. A avó puxou um assunto trivial com Júlia que, distante, limitava-se a balançar a cabeça, concordando. Concordava com tudo o que a avó dizia, mesmo com o que achava que deveria discordar. O pai, as olheiras profundas, bebia um drinque que acabara de preparar. A empregada chegou com a bandeja de café, serviu a todos e logo se retirou.

– Seu pai me contou que você está namorando um estudante de arquitetura, Júlia, é verdade?

– Sim, vovó. Mas não se preocupe, ele é uma ótima pessoa, faz até estágio numa firma muito conhecida.

– Não quero me intrometer em sua vida, Júlia, você tem todo o direito de escolher seus próprios namorados sem dar satisfação a quem quer que seja. – A avó ficou pensativa por uns instantes e finalmente prosseguiu: – Você sabe que o Reinaldo está em Minas te esperando, não sabe?

– Eu e o Reinaldo somos apenas bons amigos, vovó, a senhora sabe disso.

– Ele gosta muito de você, minha filha. Quando vim para São Paulo, antes de embarcar no avião, ele, que me acompanhou, mandou te dar lembranças. Perguntou se eu sabia quando você visitaria a gente lá em Minas.

– Por enquanto não dá, mesmo. Estou em época de provas e não posso sair de São Paulo assim sem mais nem menos, a senhora sabe.

– E nas férias de dezembro?

– Prometi a Márcio que iríamos juntos acampar no Litoral, não posso adiar esse compromisso.

– Nas férias de julho, quem sabe, você possa ir, não?

– Não sei, vovó, realmente não sei se poderia ir, se puder, eu vou, se não puder, não vou.

Trocaram um olhar e a avó maneou desgostosamente a cabeça grisalha, sem alterar o semblante impassível.

– Agora a senhora me dá licença, mas tenho que sair. Vou me encontrar com Márcio, já são quase cinco horas.

A avó não respondeu. Júlia saiu apressada e foi para a rua.

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Encontrou-se com Márcio meia hora depois. Trocaram um beijo rápido e foram até uma lanchonete conversar. Márcio parecia ansioso para dizer algo. Júlia percebeu isso.

– Fui convocado. Semana que vem tenho que ir.

Júlia ficou surpresa.

– Tão rápido assim?

– Meu pai quer que eu vá. Eu não quero, você sabe. Mas não posso contrariá-lo. Ele me comeria vivo. Afinal, não será tão ruim assim. Ficarei fora apenas um ano.

– Uma eternidade, para sermos mais exatos.

– Ora, nem tanto. Passa logo, você vai ver.

– Não me agrada nem um pouco saber que o meu namorado vai para o Exército. É tão revoltante…

– Passa logo, garanto.

– E como ficará o nosso relacionamento, você lá, durante um ano inteiro, longe de tudo, e eu aqui, em São Paulo, no meio de tanta gente, e se acontecer de esfriar, como é que fica?

– Tenho certeza que a distância nos aproximará mais ainda e, quem sabe, após deixar o Exército, a gente não possa se casar?

– Sabe que, às vezes, eu penso assim? Pelo menos ficaria livre de morar na mesma casa que meu pai. Só que também não posso esquecer dos meus estudos. Não quero ser apenas esposa e dona de casa. Quero ser alguém na vida. Já pensou, casar para viver na cozinha e no tanque, rodeados por filhos inquietos puxando a minha saia? Acho que não seria uma vida apropriada para mim…

– Nem quero isso! Minha intenção é te dar de tudo e também que você continue a estudar e arrume um bom emprego. Hoje em dia é essencial que o casal divida as despesas da casa. Quanto aos filhos, teremos muito tempo para pensar se vale a pena tê-los ou não. Tudo dará certo, você verá.

– Quem viver, verá! – rebateu Júlia, olhando para os pés, enquanto Márcio olhava para o céu, como se procurasse por algo.
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Márcio partiu para o Exército naquela semana, sem se despedir de Júlia. Achava melhor assim; detestava despedidas. Caso desse vontade, escreveria ou telefonaria para ela explicando, ela entenderia, tinha certeza, pois Júlia não era de perder tempo com briguinhas inconseqüentes. Dali a um ano, quem sabe, voltaria triunfal para os braços da namorada, talvez com o peito todo cheio de medalhas e com o nome reverenciado pelas Armas Nacionais, tal qual o avô, que fora pracinha na Itália e ganhara uma medalha e a fama de ser ex-combatente, a despeito da pensão miserável que recebia todo mês como gratificação pelos serviços prestados à Pátria.

De Márcio, Júlia nada mais soube, nem no final daquela semana, nem depois de um ano. Nenhuma carta. Nenhum telefonema. Nem um recado pelo pai. Sabia que estava no Exército, num quartel do interior de São Paulo. Mais nada. Se estava bem ou mal, se ainda lembrava que ela existia, de nada sabia.

É verdade que Márcio nunca despertara em Júlia aquele ardor que alguns mais afoitos chamam de amor – apesar de ela sentir forte atração por ele. Com efeito, Márcio era um belo rapaz, de indiscutível dotes físicos, em contraposição ao intelecto pouco cultivado. Mas era um bom rapaz, pelo menos uma agradável companhia para Júlia sair de casa e ficar longe do pai, bem mais interessante do que Reinaldo, moço todo certinho e apegado à tradições, com quem a avó queria lhe impor namoro.

Antes de Márcio, Júlia nunca tivera qualquer namorado, não se interessara por ninguém até conhecer o seu reservista de última hora. Talvez receasse que o seu eventual esposo, com o tempo, chegasse ao ponto onde o seu pai chegara, cuja única companhia era a inseparável garrafa de álcool. Esperava para si futuro melhor. Quem sabe, com o tempo, viesse a sentir uma atração mais forte pelo namorado, algo que pudesse chamar de amor ou algo parecido?

Por ora, via na união com Márcio mais uma forma de se ver livre do pai do que qualquer outra coisa. E Márcio parecia saber disso, pois dela, mesmo achando-a bonita e agradável, só achava interessantes os momentos que passavam na cama. Talvez até já tivesse arrumado alguma namorada por aqueles lados, nas escapadas que dava do quartel, quando de suas folgas.

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Um ano após a ida de Márcio para o Exército, o pai de Júlia faleceu, vitimado pela cirrose adiantada. Não se pode dizer que Júlia tenha sentido a perda do pai; nem se alterou quando a avó a abraçou e disse ao ouvido, como num amargo consolo, que esse era o destino de todos os bêbados. Márcio não compareceu ao funeral, apesar de ter sido informado pelos pais que o pretenso sogro partira desta para melhor. Júlia até esperava que assim fosse.

Quem sabe por isso a garota não tenha nem escrito para Márcio, ou lhe prestado qualquer satisfação, quando arrumou suas coisas e foi para Minas – onde Reinaldo a esperava de braços abertos.
Roberto Fortes
Enviado por Roberto Fortes em 10/09/2007
Código do texto: T646875

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Roberto Fortes
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