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na escola da VIDA

 Pedro percebeu a atenção que eu concentrava no seu baseado e estendeu-o para mim.
“Quer um trago?”
“É maconha?”, perguntei já com a resposta na ponta do nariz.
“É sim. Quer fumar?”
Agradeci a sua "influêntica”  gentileza e recusei.
“Você não sabe o que está perdendo”, declarou Pedro. Ele pôs o baseado entre os lábios e aspirou a fumaça até um intenso brilho de brasa relampejar na ponta.  Em seguida tragou.
Equivalente a ansiedade que me puxava da volta para casa, havia dentro de mim uma força de vontade me prendia ali. Os pensamentos de desconfiança me deixaram sem ideias do que falar. Eu disfarçava o olhar, olhando sem emoção para os lados enquanto o meu universo estava sendo habitado unicamente por Pedro.
“Você é a favor da legalização da maconha?”, perguntou-me o rapaz.
“Eu seria a favor se os usuários tivessem uma predisposição em fazer o uso consciente da droga”, retruquei.
A partir daí sucedeu um breve debate. Pedro argumentava a favor da legalização. Porém, o seu erro era usar somente do seu voluptuoso mundo das experiências empíricas como premissas. Já eu, sabia que usar argumentos baseados em estudos científicos era a forma mais prudente de contestá-lo, só que o problema, era que eu não tinha conhecimento dos mesmos.
Depois de encerrarmos o debate indiretamente e sem consenso de ambos, ele me ofereceu um trago e novamente recusei.
Toda vez que ele tragava, o jato de fumaça se dissipava na minha roupa. Aquele cheiro me era agradável. O que não era; era o meu medo de chegar em casa e o odor despertar pensamentos revoltantes na minha mãe.
Dentro de mim, desejos ocultos lutavam contra o meu lado moralista. Desci da bicicleta e pus a me sentar ao lado de Pedro.
“O que andas pensando sobre a vida?”, ele me perguntou.
 “Nada de interessante!” exclamei em murmúrio.
“Coisas desinteressantes também me interessa.  Me conta.”
Se já me era difícil falar sobre os meus sentimentos com os meus amigos, imagina com alguém quem eu ainda nem considerava íntimo.
 Por fim disse-lhe:
“Tudo dentro de mim vem me incomodando.  É como se os desejos que me leva a seguir adiante   não fosse uma manifestação oriunda da minha essência, mas um produto derivado de coisas que foram colocadas dentro de mim. Você me entende?
Ele me olhou um pouco surpreso por alguns instantes e retrucou:
 “Você é muito maduro!”
“Sério?!”, exclamei com uma frágil exaltação.
“Claro que sim! Quantos jovens, ou pior: quantos adultos e até mesmo senhores vivem suas vidas como cegos de si mesmo! Buscam atingir aquilo que chamam de metas, objetivos, sonhos e quando conseguem, a tal recompensa nada lhes agregam na alma senão um efêmero bem concreto a vestir-lhes o corpo. Insistem em lutar para satisfazer desejos que lhes foram   impostos e por puro medo tornam-se escravos deles.”, ele deu um trago e continuou. “Regredimos para o sopé da humanidade. Exceto as tribos das florestas, agora todos nascem cegos e imersos na escuridão. Porém, só poucos conseguem conquistar a visão. E dessa ínfima parte que consegue, apenas pouquíssimos vivem tempo o suficiente para apreciarem toda a dimensão do seu universo interior.”
   Uma quietude meditativa apoderou-se de mim. Tudo que ele falou fazia o maior sentido. Foi ali que percebi que à frente dos meus olhos não estava a incerteza – a síntese da vida. Mas uma vida planejada, calculada, arquitetada, mas por quem?
De repente fui tomado por um sentimento de revolta.  Bati duas vezes no ombro de Pedro e apontei para o baseado, expressando com gestos a minha intenção. Ele o pôs sob os meus dedos e sem retenção gravei-lo nos lábios e aspirei a fumaça.
 Traguei, e junto com a fumaça, foi-se todo o peso que havia dentro de mim. Me senti levíssimo como um beija flor a flutuar. Tudo a minha volta ficou mais intenso. As cores atingiram o ápice de seu fulgor; os sons, tornaram-se mais limpos e claros; os cheiros, agora mais perfumosos e penetrantes, e os movimentos, elevado para um nível harmônico e angelical. A versão límpida da realidade havia se revelado. Eu, que até então nunca experenciara fumar maconha na minha vida, agora sentia os meus cinco sentidos captar com avidez a esplendorosa constituição cósmica do universo.
Por alguns instantes permanecemos ali, um ao lado do outro, sem dizer uma palavra, dois seres cada qual explorando seu próprio mundo. Até que Pedro voltou a falar.
“Sabe o que eu penso? Que nossas realidades talvez não seja tão diferentes uma da outra. O que te faz sentir vivo?
“O que me faz sentir vivo?”, redargui ensimesmado e aumentei o volume dos meus pensamentos. “O que me faz sentir vivo é tudo aquilo que elimina a possibilidade da minha alma viajar para o passado ou para o futuro. E você?”
Pedro balançou os seus pés em compasso com a sutileza de suas indecifráveis abstrações.  Olhou para os prédios e por alguns instantes acompanhei seu olhar. Vi que   no horizonte não havia mais a pureza de uma obra totalmente construída pela natureza, como se vê da orla das praias ou do topo das montanhas. Agora o horizonte estava poluído por prédios, nuvens de fumaça e helicópteros. O acesso ao desconhecido fora dificultado pelas artificialidades do ser humano.
Olhei para Pedro e eis que ao meu lado ele repousava com um sorriso silencioso, emanando de si uma energia opulenta de candura. O meu novo amigo começou a falar lentamente quase em   murmúrio.
“Fazer arte é o que me faz sentir vivo.”
“Com que arte que você trabalha?”, perguntei.
|” Com música. A minha mente é como um escritório bagunçado, repleto de papéis espalhados pelo chão.   Mas toda vez que dedilho meu violão, a comando dos acordes os papeis começam a flutuar e voltam para o seu devido lugar. A minha mente fica limpa, organizada e agradável. Fazer faxina no meu escritório é o que me faz sentir vivo.
 Se a mente dele era como um escritório bagunçado, a minha só podia ser como o topo de uma montanha africana coberta por estercos de babuíno. Somente uma forte ventania para limpar aquela merda toda.
O surgimento dessa metáfora me deixou angustiado, deu-me a entender que eu estava sendo sonso e hipócrita com ele. Dei-me conta que tinha cometido o maior erro da minha vida.
Tentei corrigi com vergonha:
“A verdade é que eu não sei o que me faz sentir vivo.”
 Eu queria que ele me compreendesse com serenidade. No entanto, a sua linguagem corporal denotava uma certa repulsa a minha revelação. Face contorcida   e nos seus ombros, o peso de um empático desânimo. Após um tempo, Pedro proferiu o conselho mais importante da minha vida:
“Se tu ainda não sabe o que  te  faz sentir vivo, então busque saber. E depois que encontrar, se concentre em gastar sua energia apenas em função da resposta.”
Wilson Martin
Enviado por Wilson Martin em 14/01/2019
Reeditado em 02/06/2019
Código do texto: T6551065
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Wilson Martin
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Wilson Martin