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MEU AMOR! MINHA VIDA! QUANTA SAUDADE!

Cursei faculdade no tempo que os cursos ainda eram anuais. A turma que iniciava, exceto os que ficavam pelo meio do caminho, ia do primeiro ao último ano da faculdade junta. Assim se formava uma turma, um grupo mais coeso, como afinidade entre si. A revolução de 64, a partir dos anos setenta, com raras exceções e a nossa faculdade foi uma delas, acabou com essa periodicidade dos cursos superiores, que passaram a ser controlados por disciplina, como permanece até hoje.  Maneira encontrada pelos militares para, justamente, quebrar a afinidade entre os estudantes de cursos superiores, e conseqüentemente, evitar movimentos contrários ao regime militar. Mas isso não nos importa muito no momento, pois a narrativa a seguir nada tem de protesto político, mas de pitoresco.
Nós, eu e mais outros colegas fizemos o curso todos juntos. Alguns nós já se conheciam desde os tempos de cursinho. E quando entramos na faculdade fizemos um grupinho que variou muito pouco no transcorrer do curso.  Três de nós seguimos juntos desde o cursinho até a conclusão do curso: eu, Benito e Arlito – conhecido por Tribobó, por ser daquela região ali perto de Niterói. Ou melhor, nem era de lá, mas de Colubandê, bem perto. Com ele até hoje mantenho contato, mesmo eu estando no Ceará e ele em Salvador. Quanto ao Benito, nunca mais o vi depois de terminado o curso, embora numa ocasião tenha, por telefone, conversado com ele. Mas ficou nisso.
Benito ficou assim conhecido, por sua semelhança física com o cantor Benito de Paulo. A única diferença era o bigode, um pouco diferente. No mais tudo igual; visual idêntico. Ninguém na faculdade o conhecia por seu verdadeiro nome. Acho que nem mesmo os professores. Portanto, pouca gente sabia que era José Maria Cardoso da Silva.
À turma, com disse composta por mim, Benito, Arlito, somaram-se ainda Arlindo, Sônia e Francisco José, esse dois últimos também remanescentes do cursinho. Entretanto, no segundo ano eles saíram por conta de desavenças do Antonio José com o Arlito, tendo a Sônia se solidarizado com ele e nós, eu e Benito, com o Arlito, que na realidade tinha razão. A discussão entre eles foi gerada por conta de uma namorada do Arlito, cujos detalhes não interessam agora. Com a saída dos dois, entrou o Wagner, e assim o grupo permaneceu até o fim, sendo que vez ou outra, dependendo de trabalhos e interesses nos estudos outros colegas também participavam de nossa equipe.
Os integrantes do nosso grupo sempre se comportaram de maneira solidária uns com os outros. Nas dificuldades de provas, procurávamos ajudar uns aos outros e aquele que estivem melhor numa matéria passava cola para que precisasse. Funcionou durante todo o curso. Éramos expertos em colar. Tínhamos uma boa experiência no assunto. Durante os quatro anos da faculdade, dessa turma nenhum repetiu uma matéria ou perdeu o ano. Éramos, podemos dizer assim, os quatro mosqueteiros em número maior. Enquanto eles eram quatros, nós éramos, dependendo, cinco ou seis.
Embora ajudássemos sempre uns aos outros, não havia esse negócio de um se escorar no outro e deixar de cumprir suas obrigações. Ocorria apenas que um tinha mais facilidade do que o outro e no aperto nos ajudávamos mutuamente. Sempre estudávamos e cumpríamos com nossas obrigações. Os trabalhos em equipe eram feitos em equipe. Nada de um fazer e os demais assinarem. No período de provas todos iam à luta: estudar.
Na época tínhamos aulas quatro vezes por semana. De segunda a sábado, sendo que dois dias, entre segunda e sexta, eram de folgas. Ocasiões que aproveitávamos para estudar, botar as matérias em dias. Nos reuníamos  sempre na própria faculdade, por ser um local mais central o que facilitava nossos encontro. Por ser o Rio de Janeiro uma cidade enorme, já na época e todos morarem distantes um dos outros, era a melhor solução, pois um vinha de Jacarepaguá, outro do bairro de Fátima, no Sampaio, de Colubandê, da Tijuca, enfim de diversos bairros. Além, disso havia espaço disponível na faculdade.
Antes de continuar, gostaria apenas de dar uma explicação técnica àqueles que não estudaram e não entendem de Contabilidade. Toda empresa em geral necessita de controlar seu patrimônio. Esse controle é feito por meio de registros contábeis, técnica que nos permite, a qualquer tempo, levantar o patrimônio da empresa e apurar, em determinado período, geralmente de um ano, seus resultados: se lucro ou se prejuízo. Esse determinado período para apuração de resultados é estabelecido por lei.
Para leigos em assuntos contábeis, de imediato, surgirá a pergunta, mas se a empresa existir há mais anos os resultados serão somente de um ano? Não. Acontece que após a apuração do resultado anual, o que for apurado: lucro ou prejuízo será incorporado ao patrimônio da empresa, ou seja, quando a empresa foi criada, seus donos colocaram um capital nela. Apurado lucro ou prejuízo, após um ano, este lucro ou prejuízo será somado ou diminuído do capital. No ano seguinte procede-se novamente da mesma forma e assim sucessivamente enquanto ela existir. Em termos gerais é mais ou menos isso.
Entretanto, para se apurar os resultados e controlar o patrimônio, além dos registros contábeis, as empresas são obrigadas a emitir os seguintes relatórios: balanço patrimonial, conhecido no meio contábil só por balanço; demonstração do resultado do exercício; demonstrativo da origem e aplicações de recursos; e demonstrativo das mutações do patrimônio líquido. Aqui não estou generalizando apenas para efeitos elucidativo, pois na prática existem algumas empresas que não têm obrigatoriedade de emitir tais demonstrativos. Mas também não nos interessa divagar sobre Contabilidade, apenas dar uma informação para entendimento do caso em si. Dos demonstrativos que citei apenas o balanço patrimonial, popularmente conhecido por balanço, nos interessa, para entendimento do caso.
Pois bem, certo dia já no terceiro ou quarto ano, não me recordo bem, estávamos estudando numa sala lá mesmo na faculdade, nos preparando para uma prova, eu, Arlito, Benito, Arlindo e Wagner sentados bem lá no fundo da sala de maneira que o barulho do corredor nos perturbasse menos.
De repente, entra uma garota, e logo atrás vem um sujeito, nem tão perto nem tão longe, mas o suficiente para se ficar esperto e notar que estavam juntos. A garota, não me lembrava dela, depois fiquei sabendo que fizera o pré-vestibular conosco, isso há um quatro anos, e não havia passado no vestibular, aprovação conseguida dois ou três anos depois. Como a turma do pré-vestibular era muito numerosa, e sempre em qualquer lugar temos nossas afinidades, inclusive minha amizade com Benito e Arlito remota da faculdade, embora tenhamo-nos conhecido antes, no curso pré-vestibular, de alguns ex-colegas de cursinho, que somente entraram na faculdade bem depois de nós, não lembrava mais.  E essa garota era um destes casos.
Mas quando a garota entrou, Benito, sempre muito galanteador, não se conteve. A euforia foi grande. De imediato se levantou e se encaminhou ao encontro dela. Ele tinha uma mania de levantar as calças pelos cós, usando os dois braços, sem segurá-la com a mão, e fazendo se gesto tradicional se encaminhou ao encontro dela, que gentilmente estendeu-lhe a mão, mas ele não se dando por satisfeito tentou beijá-la, e ao mesmo tempo exclamou:
- Meu amor! Minha vida! Quanta saudade! E quanto mais ela se esquivava, mais ele tentava beijá-la e não se dava conta que ela estava tentando evitar uma situação embaraçosa. Entretanto, vendo que não tinha mais como contê-lo, somente se esquivado, disse:
- Benito, conhece meu marido?
Quando ela falou isso, e ele viu o sujeito atrás dela, um guarda-roupa, forte, alto, com um metro e oitenta e tanto, ficou branco. Da cor de cal. Titubeou, mas a muito custo conseguiu estender a mão e dizer: muito prazer. Porém, o clima ficou tenso.
Do lugar onde me encontrava, fiquei sem saber o que fazer, só observando, à espera do desenrolar dos acontecimentos. Entretanto, o Arlito prevendo uma possível confusão, levantou-se, foi ao encontro do cara e tentou contornar a situação. Como já o conhecia, sabia inclusive que naquele dia o Guarda-roupa estava fazendo prova de Contabilidade, Arlito estendeu a mão e puxou conversa.
- E aí cara, tudo bem?
- Tudo. Respondeu o sujeito secamente, mostrando que não estava querendo papo.
- Mas o Arlito, que sempre foi um cara de boa conversa, expansivo, não se preocupou com a rispidez do sujeito e continuou: terminou a prova?
- Quem sabe, sabe.
- Que foi que caiu? Um balanço?
- Tu querias que caísse uma árvore, porra?
O papo se encerrou ali mesmo, com aquele clima pesado.Nós, eu e os outros dois colegas, para evitarmos problemas, fomos saindo de fininha, do que se aproveitaram os dois:  Benito e Arlito para nos acompanharem.
Lá fora, depois de passada a tensão, demos umas boas risadas e sempre que comentávamos o assunto com o Benito ele respondia:
-  Rapaz, esquece essa tristeza.
HENRIQUE  CÉSAR PINHEIRO
FORTALEZA, SETEMBRO/2007
Henrique César
Enviado por Henrique César em 17/09/2007
Código do texto: T656979

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Sobre o autor
Henrique César
Fortaleza - Ceará - Brasil, 65 anos
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