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Na pacata cidade de Lustrana, no topo do morro, vivia Lucie. Uma mulher cuja vida foi-lhe bastante exigente. Logo cedo, antes de completar 12 anos, descobriu que não poderia mais viver em sua casa, o pai, alcoólatra a tratava como se fosse mulher. Todas as noites a procurava. A mãe, coitada, doente, jamais se levantou daquela cama. Onde morreu uns três meses depois que saiu de casa. Quando criou coragem, foi parar nas ruas. E para sobreviver, vendia cigarros picados para os peões que vinham do Brasil todo para a obra de extensão da Rodovia que ficava às margens. Não conseguindo pagar o aluguel, que já acumulava 4 meses, fez o primeiro programa. Um homem rico dono de lojas de materiais de construção. Ele era um tipo meia idade, com filhos pequenos, mulher farmacêutica. Gostou tanto da fruta que virou figurinha certa no pomar. Todas as terças e quintas. Lucie, embora tivesse outros homens, tinha se afeiçoado por ele. Ele a dava presentes. Pagava as contas e nunca prometeu nada. Ela, sonhadora, cria que ele a tiraria de lá. Numa dessas noites, estavam feito meninos apaixonados e acabaram na cama, sem nenhum escrúpulo ou medida, apenas foram. Alguns meses depois, estava ela com a barriga avantajada e os quadris enlarguecidos. A Casa das Meninas já não era a mesma e Lucie estava recrutando mais garotas para continuar as atividades. Juvêncio sumiu. Os boatos já corriam na cidade. E a menina nasceu! Olhos azuis, pele branca e um cabelo loiro que parecia um sol reluzente: Aleilma.  Se antes o pai era uma dúvida, agora era a certeza: as características não fugiam em nada. Aleilma vivia nas ruas, era alimentada por vizinhos, e já tinha 9 anos. O potencial pai, jamais negou a possibilidade de ser ela sua herdeira, mas nunca quis saber. Numa tarde, antes do café da, a irmã de Juvêncio, vendo Aleilma na rua, a cata e joga dentro do seu Jeep, leva pra casa, e sendo recebida aos gritos de louca, pelo marido e filhos, decide mesmo assim, cuidar dela. Daquele dia em diante, a vida seria uma luta. Ninguém aceitava sua decisão, mas o seu coração era mais forte. Foi hostilizada, taxada de louca, mas não ligou para a avaliação de terceiros. Comia cabeça abarrotada de piolhos, o corpo infestado de bichos de pé, uma sujeira inexplicável chegou ela. Estranha, não sabia o que era conviver. Parecia um bicho do mato. Comia só o que sobrava nos pratos da família, mesmo estando com um prato também. Parecia condicionada a ficar com os restos.
Doralice a tratava como filha. Deu-lhe uma cama entre as suas. Elas não aceitavam bem a presença da “prima”. Tinha uma cultura diferente: falava alto, se escondia debaixo da cama para dormir, falava à noite e era de poucas palavras. Ela, ao contrário, nutria pelas irmãs impostas, uma espécie de sentimento comparada às paixões por ídolos. Das gavetas de Meire partiam até as peças íntimas para uma mochila que a acompanhava em todos os lugares, inclusive na escola, uma municipal que ficava ao lado de uma favela. Doralice sentia a dor, da agora filha, então decidiu pedir ao marido que a adotasse em papel, assim teria direito a plano de saúde e desconto na escola particular. O marido, um ferroviário, trabalhou muito para juntar seus quinhentos, então o valorizava muito. Depois de brigas e mais brigas, ele se convenceu de que a criança não merecia tratamento diverso, e colocou Assis no seu nome. O tempo ia passando e Aleilma crescendo, os seis já estavam saltando às roupas, e sua “regra” chegou. Não contou a ninguém. Tinha vergonha. Passou a esconder-se em roupas pretas, largas. A família se reunia e lá estava ela, cuidando do entorno, não se entrosava, mesmo a mãe a convocando insistentemente. Com uma fama de namoradeira, já tinha pensado a tentado fugir até com o padeiro. Uma bronca, um xingo, e um castigo e lá estava ela de novo numa pseudônimo fuga. Até terminar o ensino médio. Quando decidiram levá-la, junto a um dos irmãos, para uma cidade universitária. Ela tinha muitas características de fuga em sua índole, mas uma coisa era muito agradável nela, o coração. Cuidou sistematicamente de sua avó emprestada que sofria de Alzhameyer. Dava banho, comida na boca, contava histórias. A sua pior lembrança, foi a morte em seus braços, antes da despedida a avó deu-lhe um beijo no rosto e acariciou o seu coração.
Já na cidade universitária, se viu deslumbrada. Ao invés de ir ao cursinho, passava horas a fio nos shopping’s, lanchonetes, barzinho, enquanto o irmão, que queria uma vida melhor estudava 18 horas por dia. Os desentendimentos começaram. Brigas ferrenhas noite e dia. Até que numa noite, ao voltar do cursinho, bem de frente ao apartamento que dividiam, estava ela semi nua, numa camionete Hilux prata, cuja placa, sempre vista no cursinho lembrava uma data especial, seu aniversário. Depois da cena, ele ficou na janela a observar do que ela seria capaz, mas antes de experimentar, ligou para mãe que rapidamente entrou em contato por telefone, e ela toda atrapalhada desceu do carro. Em silêncio entrou. Dia seguinte, nas primeiras horas Doralice chega acompanhada de Assis: - Vamos voltar pra cidade.
Ela foi a única filha, dentre os seis, que não logrou êxito nos estudos. Voltou pra cidade, tentou ser babá, mas não deu, tentou ser atendente, também não, até que o pai investiu numa loja. Mas ela retirava as mercadorias para presentear os namorados. Tentou fugir com o caminhoneiro, mas a mulher foi com ele, no dia. Tentou com o farmacêutico, mas ele desistiu na última hora, de malas prontas. Então fez um concurso público para auxiliar de serviços administrativos da sede da câmara e passou. Conheceu Marcel, se apaixonou de verdade e quis casar, pela primeira vez. A mãe montando o enxoval, descobriu no dia da primeira prova do vestido: estava grávida! Antecipou o casamento e pronto! Ao subir as escadas da igreja, ouviu triste a frase jogada pelo marido: “Agora ajoelha e agradece porque você se livrou”.
A vida foi sendo moldada. A jovem Aleilma estava correndo contra o tempo. Cuidando da filha, trabalhando e reclamando. Essa era a tônica de sua vida. Reclamava da escola, do marido, dos pais, do presidente. No dia do nascimento da primeira filha, o marido pediu a Doralice dinheiro para comprar flores. Não tinha um centavo. Aliás, nunca gostou muito de trabalho. Passava no máximo 1 ano em algum lugar. Era muito inteligente, tinha uma boa percepção, mas não aplicava suas teorias na própria vida. Foram se reconstruindo sobre escombros, cada vez que perdia o emprego e a morada da família ficava em risco, não tinham casa, nem carro. O SPC era um monstro. Numa destas, resolveu procurar o pai, a quem creditava grande respeito, e pediu ajuda. Ele, embora nunca quisesse fazer o exame de DNA, sempre afirmava: “e se não for, acabo com a vida dela pela segunda vez. A mãe já a matou uma.” Deu então, a ela um imóvel num vilarejo, mas como não era correto ao extremo, documento nunca se viu. Anos depois, ele resolveu fazer uma cirurgia para resolver um problema sexual que o afligia, e entre uma infecção e outra, morreu. Aleilma agora precisava provar que ganhou a casa do pai, bem como entrar para a sucessão do mesmo, foi então que decidiu exigir o DNA. E lá foram eles, certos de que as características não negariam a verdade. No dia do resultado ela foi chamada e diante dos irmãos ouviu: infelizmente você não é filha de Juvêncio. Podemos repetir as coletas mas 99,99 % de improbabilidade. Aleilma perdeu tudo. Até o caminho de casa. Aliás, que casa? Vendeu tudo às avessas e queimou o dinheiro no tempo. O processo vaga há anos, mais de 7, e ela continua pagando o aluguel, morando na rua dos Passos, de onde foi retirada pela tia (que não era), que se tornou mãe, mas ela, decidiu esquecer, porque na sua lembrança só Lucie era... Mãe!
Mônica Cordeiro
Enviado por Mônica Cordeiro em 11/05/2019
Reeditado em 11/05/2019
Código do texto: T6644610
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Sobre a autora
Mônica Cordeiro
Conselheiro Lafaiete - Minas Gerais - Brasil
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