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Bem próxima

 

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Antes de atravessar a rua parei para descobrir de qual lugar chegava aquela bela canção. Não distante. Aproximava-se e estava bem próxima. Tive inclusive vontade de sentar e deitar para esperar aquela suave melodia chegar completamente. Deitar na calçada fria, sentir o gosto de ser um chão, no meio da multidão, e ser pisoteado por cada nota daquela poesia a ser desenhada, na avenida principal, à minha direita. Pobre avenida, tão solitária. Solitária apenas por estar só, não por desprezo ou abandono, o que não seria possível. Todos eram submissos à sua autoridade, e cada meandro seu de asfalto era uma ordem. Onde era o fim? A rua, à minha frente, perpendicular á avenida foi quem colonizou aquele ambiente. Sim, certamente sim! ela estava soterrada pelo peso do asfalto. Antes, era contínua. Agora, parte de si não mais existe. Ela seria o alicerce da avenida ou apenas estava em baixo por ser tamanha a sua subalternidade? Não, a música não parou de aproximar-se. O semáforo, ainda vermelho, controlava o trânsito. Eu não podia passar. Então, eu deveria esperar. Esperar, esperar...esperar a música chegar. Esperar o rio passar...esperar o verde surgir. Bela canção, tão bem próxima, e eu não podia tocá-la. Antes pudesse eu vê-la. Não! Sentir não era suficiente; no entanto, necessário. Quem seria o maestro daquela canção? Quem me ofertaria tal melodia?

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Não lembro bem se já eram dez ou onze horas da noite. Entretanto, tenho quase certeza de que já eram onze, por que o último trem estava passando. Até desejei estar dentro dele, bem dentro dele, para então flutuar sobre aquela avenida e chegar à estação, à minha esquerda. Mas ele passou, passou...passou bem próximo, e eu quase não o percebi. Ele também não me viu, talvez por eu estar distante, bem distante, distante do mundo, do trem, da avenida e, principalmente, de mim mesmo. O trem passou e parou. Parou longe, e eu entendi, imediatamente, portanto, a letra daquela canção.

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A música continuou. Agora mais intensa, mais interessante. Tão romântica que invadiu o meu ser. Ela chegou e me encontrou solitário. Solitário apenas por eu estar só, não por desprezo ou abandono, no meio da avenida, agora bem próxima. Ela também estava lá, bem no centro em pé, como uma perfeita canção. Era ela! Como era linda! Bem próxima, e eu podia senti-la. Como eu podia...! Ela era a dona da canção, a própria canção. Era ela, com certeza! Foi ela quem desceu do trem. Eu podia vê-la. Os meus pés me conduziram até próximo dela. Ela estava tão bem vestida...! Finalmente, chegou! A minha canção chegou! Era ela. Toquei em suas mãos para confirmar a verdade. E era verdade! Como era verdade...! E eu estava feliz por isso. Muito feliz. Tão feliz que guardei para sempre aquela bela canção.
David Cid
Enviado por David Cid em 29/09/2007
Reeditado em 24/07/2008
Código do texto: T674058
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Sobre o autor
David Cid
Fortaleza - Ceará - Brasil, 31 anos
48 textos (3008 leituras)
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David Cid