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       Chegou o meu dia. Um dia tinha que acontecer, diriam os mais pessimistas.

       Uma vez mais o fato ocorreu no salão de cabeleireiro e nada pude fazer. Na saída, bem na porta do salão,  o indíviduo chegou sorrateiro, nem sei de onde ele apareceu. Sempre tomo o devido cuidado, mas minha alegria pela viagem que se aproximava me deixou mais vulnerável. 

      Sento-me no carro e quando acabo de por a chave no contato ele abre a porta e eu num instinto puro dei um grito, que dizia ele te-lo assustado. Ele me pede para ficar calmo e diz que vai se sentar no banco do passageiro. O medo, o puro pavor com cheiro de morte se senta ao meu lado e diz para que me acalme. Todo meu corpo treme, a cabeça começa a bolar planos mirabolantes de como sair daquela situação. Ele me manda dirigir com calma e que me dirija até a praça, onde um dia,  uma mulher me ouve falar com a boca cheia de pão de mel e distorce o que eu havia dito. Ele me pede que não faça nenhuma bobagem, afinal o revolver está cheio de balas e ele não hesitaria em usa-lo. Se eu mantivesse a calma tudo acabaria bem.

     Paramos em uma pequena praça a espera do comparsa. Ficamos parados naquela praça ínfima, ao lado da Avenida Zelina, por pelo menos cinco minutos antes que o comparsa chegasse. Tudo já estava combinado. O segundo bandido seria o encarregado dos saques.

      Não prolangarei o teu e  o meu martírio, mas foram quatro horas de puro pavor, com ameaças contínuas se o dinheiro não fosse sacado a contento. Passou-se de tudo pela minha cabeça, tentar fugir, pregar-lhe a caneta nos olhos,  como seria se ele decidisse me apagar ali mesmo? Pensei na minha mãezinha que completa 83 anos na semana que vem. Pensei nas minhas filhas, o tempo todo,  pensei nelas e dizia ao meliante que ele poderia fazer o que quisesse, mas que não me privasse de ve-las após essa noite. Lembrei de minha esposa, lembrei de tanta gente amada, que foi isso que me fez  acalmar e não cometer nenhuma loucura.

       Em todo aquele tempo parado, nenhum carro da polícia apareceu, absolutamente nenhum. Eu torcia para que isso não ocorresse, afinal isso poderia deixar o assaltante mais nervoso.

      Pensei nas coisas que não havia dito, no que não havia feito, as imagens das pessoas vinham a minha cabeça, como uma apresentação em power point, porém sem nenhum recurso que deixasse aquela situação um pouco mais leve. Ele me disse que aquilo ocorreu porque eu "marquei bobeira" na saída do salão. Ele tinha a razão, distrai-me com a felicidade que me abraçava naquele momento, apesar de que o dia no trabalho fora estenuante, estressante, cheio de problemas. 

      O importante agora é dimimuir o impacto psicológico, visto que o financeiro pode ser recuperado com o tempo, Não dormi ainda, mas estou vivo, sem nenhuma sequela física e isso é o que importa. De que adianta ter uma vida estruturada, programada, se tudo isso pode acabar em um minuto? 

     Este fato ainda vai render um texto mais elaborado, agora só quero poder tomar um café e agradecer a Deus por ter me dado mais uma chance de dizer o que não disse, de ajudar a quem ainda não ajudei e principalmente acreditar que tudo na vida passa, com ou sem o nosso aval. Quando o assaltante me liberou, apertei a mão dele e lhe agradeci por me deixar vivo. Pode algo ser mais insólito que agradecer a quem quis  levar o mais importante para mim? Minha vida.

Um beijo a todos  





JOSÉ MIGUEL DELGADO
Enviado por JOSÉ MIGUEL DELGADO em 05/10/2007
Reeditado em 05/10/2007
Código do texto: T681327

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Sobre o autor
JOSÉ MIGUEL DELGADO
São Caetano do Sul - São Paulo - Brasil, 57 anos
224 textos (35438 leituras)
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JOSÉ MIGUEL DELGADO