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MEMÓRIAS DE UM ANDARILHO SOBRE RODAS

Há vinte e um anos estou nesta cadeira de rodas. Foi numa tarde de 02 de agosto de 1982 que teve início outra etapa em minha vida. Quando se aproxima o dia 02 de agosto, eu sempre lembro. Lembro que eu ia entrar de férias no meu trabalho.
Já havia feito mil planos para curtir uns dias no litoral catarinense. Bagagem quase pronta: barraca, repelente, saco de dormir, lanterna, comida enlatada, revistas do Conan. Coisinhas que se levam para um acampamento.
Mas ao invés dos cuidados com os últimos preparativos para a viagem, veio o parecer médico. E junto com o diagnóstico, a mielite transversa. Uma inflamação na medula que me afetaria a mobilidade das pernas para sempre.
A primeira coisa que me veio na cabeça foi minha marcha. Será que ainda vou andar? Será que as pessoas vão me aceitar como deficiente? Fiquei por algum tempo perdido em minha confusão mental. Não queria aceitar aquela nova vida.
Estava preocupado com a vida que eu levava antes. Eu tinha uma vida normal. Naquela época eu saía namorando muito (para não dizer todas). E de uma hora para outra, sem aviso prévio, minha vida boêmia acabou. Eu levei quase um ano para abrir a porta e sair de novo. Não queria ver ninguém. Também não queria que sentissem pena do mulambo no qual me tornei
De uma coisa não posso me queixar (ao menos isso): do apoio de meus familiares. De fato, eles foram muito legais. Ajudaram-me naquela fase de enclausuramento.
Os amigos sumiram todos. Só um ficou. Foi a primeira vez que fiquei sem amigos. Mas depois eles voltaram numa boa e não mudou nada. Também não fiquei com raiva, não. Na época, fiquei triste. Talvez o afastamento tenha acontecido por eles não saberem como me ajudar. Também é difícil para quem está de fora, de repente ter de entender o universo da deficiência.
Mas meu amigo (o que ficou), nossa senhora! Foi uma pessoa maravilhosa, segurou com firmeza minhas crises de mau humor. Ah, quase havia me esquecido, teve outro amigo, meu cunhado, e que ficou ao meu lado. Só não posso afirmar com certeza se ele teria me dado uma força se não existisse o parentesco. Ainda hoje tenho dúvida, sim.
As pessoas se afastam de pessoas com deficiência não somente por causa de medo, mas também pelo desconhecimento. Elas acham que vão pegar a deficiência, que é algo contagioso. Por exemplo, se eu levantar de uma cadeira e passar para o sofá, tem gente que não senta na cadeira achando que lá ficou um vírus, uma bactéria.
A maioria das pessoas, ainda que nem sempre manifeste tal opinião, acredita que os deficientes deveriam ser confinados em instituições para seu próprio bem.
Isso, a meu ver, acontece com qualquer deficiente. E se a mulher estiver grávida, então! Há mulheres grávidas que pensam se chegar perto de um deficiente é capaz do seu filho absorver aquela doença. É uma forma de preconceito. Ignorância pura.
Lembro-me que antes, quando era mais jovem, tinha amigos deficientes. Minha melhor amiga na escola era cadeirante. Havia um outro amigo que usava bengala. Ele jogava até futebol, apesar de puxar uma perna.
Particularmente nunca tive nenhum tipo de problema de ser afetado, de chegar e ficar me afastando. Ficava perto.  Achava normal uma pessoa numa cadeira de rodas e não ficava pensando: - ah, meu Deus, olhe! Coitadinho!
Porém não sei se meu pensamento era tão puro como estou contando agora. Não sei se meu viver, se essa coisa que estou vivendo agora (minha nova vida de deficiente) afetou minha maneira de encarar a vida, de olhar as pessoas. São apenas cenas que ainda lembro.
Apaguei muita coisa da minha memória. Algumas eu lembro. Se alguém perguntar para mim: - como era sua vida antes de 82? Lembro de algumas coisas. Mas se eu parar aqui e tentar lembrar, vem o texto (as falas, o barulho das vozes). Porém as imagens não vêm.
Eu não quero lembrar daquela pessoa que andava. Isso vai me causar tristeza. Aí tudo que eu conquistei talvez se perca, entendeu? Eu sou outra pessoa... Gustavo, como é que é? Gustavo AD (antes da deficiência) e Gustavo DD (depois da deficiência). São dois sobrenomes completamente distintos.
Às vezes penso: o que a deficiência representa para mim?  Vou usar aqui uma metáfora: uma morte. Uma morte porque a pessoa é obrigada a deixar de ser. Você não
existe mais. Passa a ser outra pessoa, renasce como um desconhecido. É morrer e renascer ao mesmo tempo. Aquele Gustavo que andava morreu. Hoje ele é Gustavo deficiente, ou ainda, um portador de necessidades especiais. Uma morte. Sair de uma vida e morrer depois. Existe a reencarnação na teoria kardecista. É morrer e renascer em outro lugar, de outra forma, com outra personalidade.
Minha personalidade deve ter sofrido uma série de mudanças. Sim, sou outra pessoa. Nasci como outro ser, apesar de ter a mesma massa biológica, o mesmo o corpo. Porém, algumas coisas são eternas, não tem jeito. A essência da pessoa está ali, quiçá refugiada em algum lugar. O que muda são as máscaras que terei de utilizar como esse novo sujeito (a gente vive de máscaras). Então eu começo a ter de utilizar outras máscaras.
As máscaras que utilizava antes para determinadas situações foram descartadas. Não tem mais sentido utilizá-las no meu novo Eu. Para algumas coisas até as conservo. Mas outras são criadas, como por exemplo, a da síndrome do coitadinho.
Usei essa máscara até aprender a não me ver como coitadinho. Mas de vez em quando gosto de colocá-la novamente para as pessoas me notarem. Então entra em cena a personagem do pobre coitado. Raramente não há alguém que não note, ou ainda, que não fique com dó. É uma maneira de o deficiente ficar com pena dele mesmo.
Na verdade, é ele que está com pena dele mesmo. De vez em quando eu me pego interpretando essa personagem. Daí eu brigo comigo mesmo: – Ah, para com isso! Talvez seja o medo de ser visto como pequeno, como incapaz, um molambo qualquer.
O deficiente quer fazer tudo ao mesmo tempo, acha que tem de aprender inglês, matemática, física quântica, jogar xadrez. Começa a ler para poder entender tudo, para ter o mundo, para ter de entender o mundo. Ele tem de entender o mundo para não perder nada, e não ficar sozinho.
Por outro lado, não sei dizer se o grande lance é a solidão. Está na solidão quem é solitário. E solitária é a pessoa que assume isso. Independente de você estar com um monte de gente na rua, você pode se sentir só. Eu me sinto. É como se eu passasse pelas pessoas e as atravessasse. A maioria das pessoas (deficientes ou não) já sentiu ou sente essa solidão.
Imagine então essa cena: Gustavo chega num bar, sozinho, para e procura uma mesa. O garçom vem, lhe atende, conversa, bate até papo, entendeu? Profissionais que são obrigados a lidar com público atendem melhor a pessoa com deficiência.
Agora as pessoas dificilmente quando me vêem chegar ao bar vão sentar na minha mesa, conversar comigo, jogar conversa fora. Raramente as pessoas se aproximam do Gustavo deficiente. É nossa velha e conhecida discriminação. Então há dois grupos de pessoas: aquelas que discriminam e, portanto, acreditam que o deficiente é um fardo pesado para a sociedade; também existem aquelas que são completamente indiferentes. Porém, tanto o primeiro quanto o segundo grupo partilham de um pensamento comum: o deficiente deveria ficar preferencialmente em sua casa, ou detido numa instituição especial.
Às vezes aparece um religioso. Não que eu seja contra qualquer religião, mas me chateia! A pessoa acha que vai me fazer voltar a andar. Não acho legal isso. Eu acho que a pessoa pode conversar sobre religião, sem tentar me empurrá-la goela abaixo. Houve que se aproximou de mim e falou: - não, você sofre porque quer. É verdade! Não é preciso pôr a culpa em Deus. Ele não dá tudo. Você tem de saber como se virar. Ele te dá algumas ferramentas para você se virar nesse mundo.
De vez em quando você conversa com Ele. Daí Ele lhe relembra como utilizar aquelas ferramentas, adaptar outros planos. Não é que Ele vai fazer tudo por você. O milagre quem faz é você.
E aí pode chegar alguém e perguntar-me: - você acredita em Deus? Acredito. Tem a história Dele escrita na Bíblia. Um Cara especial que fez e ensinou muitas coisas. Mas aí vem uma pessoa e coloca a coisa de um jeito meio estranho. Aquela conversa de que Ele está lhe punindo, que você está assim ou assado por vontade Dele. Creio que não há necessidade de transformar Deus em algo dogmático, quase intocável.
E por falar em intocável, gostaria de falar um pouco sobre meus sonhos. Aliás, tenho um sonho que sempre se repete: sonho andando. Nunca sonho de cadeira de rodas ou bengala, nem nada. Sempre estou andando, correndo, saindo com as pessoas e às vezes com amigos.
Outro dia sonhei que estava levantando de manhã cedo e perguntei: - cadê minha cadeira? Não vi a cadeira. Eu levantei e comecei a andar da porta do quarto para a cama e vice-versa. Uma euforia muito louca. Acordei Beatriz (minha esposa) aos berros:
- Olha lá, estou andando! Beatriz olha aqui!
Ela me falou: – você está sem a cadeira!
E eu ainda gritando: – mas eu estou andando, andando (parecia uma criança).
Ela disse: – então senta.
– Não, se eu sentar não vou levantar mais! Não, não, não! Eu vou ficar andando para sempre! Quero voltar a ser um andarilho sobre as próprias pernas. E continuava andando de forma incansável. No sonho, eu não podia parar, pois se sentasse, poderia voltar tudo de novo (a cadeira de rodas, minhas pernas paralisadas e, sobretudo, andar sobre rodas). Um sonho e nada mais.
A gente acaba se adaptando às limitações. Adapta-se ao que restou em você e ao que ficou ao seu lado. Penso que me adaptei à deficiência. Por outro lado, se eu voltasse a andar, o que iria fazer? Começar tudo de novo?  Iria passar por um novo processo de readaptação, aprender a andar de novo, nascer de novo como outro Ser. Ter de entender o mundo como um andarilho novamente.
Nesse novo cenário, como é que as pessoas me veriam? Ou ainda, o remake da cena do coitadinho. - Será que vou perder as pessoas conquistadas durante minha vida sobre uma cadeira de rodas? Há muitas falas e imagens dentro da minha cabeça.
Não pensei que fosse possível reviver essas memórias de minhas duas vidas deitado sobre este divã. Em princípio, achei que não conseguiria falar tanta coisa a respeito de mim, de meus medos, de meus anseios e de meus rancores. Não posso negar que muitas cenas passaram por minha cabeça. Cenas do Gustavo antes da deficiência. Cenas do Gustavo deficiente. Mas valeu a pena ter ficado face a face comigo. Creio que foi bom assistir ao filme de minhas memórias não muito felizes, porém não tão tristes.
Falei a respeito do que me tornei. Revivi meus dramas. Lamentei pelas perdas. Agora prefiro voltar para minha cadeira e seguir como um andarilho sobre duas rodas. Não pretendo mais falar sobre meu passado de recordações. Talvez seja melhor pensar no amanhã como mais um dia de combate e de sobrevivência. Em uma palavra: viver, pois ainda estou vivo.
Hera Franklin
Enviado por Hera Franklin em 14/02/2020
Código do texto: T6866239
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Hera Franklin
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Hera Franklin