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Cenas do bar - Vírus escaldado tem medo de chope gelado

Vírus escaldado tem medo de chope gelado.
Meu nome é Vladimir de La Mancha e até poucos dias atrás só tinha medo de dentista.
Agora tenho medo de vírus também.
Talvez não seja bem o vírus, mas essa coisa do isolamento. Embora solteiro e sem filhos, nunca fui sozinho. Tenho muitos amigos, alguns de infância, até um que é metido a escritor e não me deixa sozinho por nada. Ou quase nada. Hoje mandei um zape, ele viu e não respondeu. Então liguei, ô filho da puta, vem aqui me pegar, vamos assar uma carne, falar mal dos petistas, até deixo você falar mal do Bolsonaro, coisas assim, mas ele nem me deixou terminar, o maldito vírus, a necessidade de isolamento, ele disse antes de desligar e me pedir para não sair e rezar. E ele é ateu. Me deu medo.  Soquei álcool gel dos pés á cabeça. Foda viu, o cheiro do álcool me lembra chope...
A última vez que vi gente foi no sábado, no supermercado, fui lá fazer uma compra tipo estoque, acho que comprei demais, a pilha de papel higiênico tapando a entrada da despensa, as bananas já estão fedendo e não consigo achar os miojos.
Que chato isso, malditos chineses!
Se a pandemia passar logo, terei papel higiênico para vender até o final do ano.
Ontem me peguei com o dedo erguido e chamando o garçom e pedindo uma caneca de chope. Estava na sala e o presidente na tevê dizendo que nenhuma gripinha iria derrubá-lo.

Sujeito foda, macho pra caralho! O resto dos governantes cheios de mi mi mi e o presidente lá, as sobrancelhas hirtas, a boca riscada espumando, olho no olho, “vamos ver depois isso daí, não pode ter histeria, todo mundo trabalhando para a economia crescer”. Está certíssimo, se o bar estivesse aberto, eu ia para lá imediatamente após a fala do meu querido presidente.
Porra, eu não agüento mais isso, quatro dias trancado entre as paredes do meu apartamento.
Não quero ouvir mais nada sobre o vírus.
No começo, até me empolguei, assisti a tevê, inclusive na Globo comunista, peguei todas as dicas, até me conformei, mas já deu, não agüento mais olhar a cara do Mandeta, descobri até que ele tem os dentes de baixo tortos, porra, um sujeito que é médico, Ministro, custava usar aparelho?
O prédio está imerso num silêncio ensurdecedor. Ontem sai no corredor, corri feito um maluco, imitando a voz do Bonner, aquela voz de gente rica e bem educada; boa noite, boa noite, boa noite, porra, mas ninguém ligou.
Eu queria tanto a paz do balcão do bar, aquele barulhinho da máquina de chope sendo acionada, ptxiiiiii, e depois a caneca trincando, semi nua, uma tirinha só de espuma e o prazer a cada gole.
Duvido que o tal vírus resista a uma boca caneca de chope.
Onde foi que eu deixei o meu álcool gel? Só falta essa merda acabar.
As redes sociais são as válvulas de escape, mas só falam no maldito vírus. Das piadinhas eu acho graça e rio, mas toda hora aparece um sujeito se dizendo médico e espalhando o terror, tem um que eu até conheço, entregador de pizza até dias atrás.
Só ontem recebi cinco ou seis orações.
Na boa, tenho religião e fé, mas algumas mensagens só podem ser sacanagem, onde já se viu a virgem Maria mandar recados psicografados? “Ontem eu tive um sonho”, porra maluca, que merda você cheirou antes de dormir? Eu uso uma corrente com crucifixo, sou devoto de Santo Antão, que ele me curou de um furúnculo, segundo minha mãe, embora ela tenha usado antes cloro, acetona e mertiolate, daqueles que ardem e faz a gente nem sentir mais a ferida.
Ah, até isso era melhor antigamente.
Mas na boa, vírus é muito menor que fungos, essa parada precisava de uma ação divina mais enérgica, tipo enviar uns anjos disfarçados de hippies e acabar com a vagabundagem desse vírus.
No fundo eu acho que o capitão presidente tem razão, histeria do caralho, uma gripezinha à toa que só mata velhos.
Vou tuitar para o presidente, sugerir que enchaa o porta-aviões de cabos e sargentos, só isso já basta, e ancorar na entrada da China tirar satisfações pessoalmente, já chegava intimando: “aí ô cambada de filhos da puta, vocês comeram a porra do morcego? Vai logo me indenizando, tostão por tostão, que eu não tinha intenção nenhuma de usar dinheiro na saúde e o petê destruiu o Brasil, não me venham com a história da soja que eu já disse que não entendo porra nenhuma de economia”. Queria ver se os chinas não se renderiam.
Cara, que ódio desses chineses. Sábado eu xinguei um japonês, que eu sabia que era japonês, mas xinguei mesmo assim, que são tudo parentes desses chinas filhos da putas.
Por falar em puta, e os puteiros? Os cornos fecharam os puteiros! Meire, Sheila, Tábata, Juliana, Xaiane, Carmencita, Aninha Del Fuego, pobrezinhas, como vão sobreviver?
 Fecharam tudo, o bar, os shoppings...Serei obrigado a fazer sexo virtual.
Como é mesmo o nome daquela guria que salvei no zape? Se que vira usar álcool gel na palma da mão?
 Depois eu vejo, agora estou com vontade de cantar, igual àqueles italianos, esticar o corpo na sacada do meu apê, olhar para as ruas vazias e caprichar no Amado Batista.
Isso quando eu voltar das minhas entranhas, estou dentro de mim, como Thelma e Louise, o carro ligado, o motor roncando à beira do precipício.
Foda-se, amanhã já não agüento, vou lá nos craqueiros da antiga rodoviária, que eles não sabem por que o movimento parou e tem gente nas ruas usando máscaras. Vou chegar de sorriso aberto,  vem cá meu irmão, me dê um abraço e um pedaço desse bagulho ai no seu bolso, seja lá o que for.
ANDRÉ LUIZ ALVEZ
Enviado por ANDRÉ LUIZ ALVEZ em 26/03/2020
Código do texto: T6897844
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
ANDRÉ LUIZ ALVEZ
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil
129 textos (6984 leituras)
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ANDRÉ LUIZ ALVEZ