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O COMíCIO 




Ele era magro, franzino, vivaz, parecia ter um motorzinho, 
não se aquietava em momento algum.

Tinha uma voz meio esganiçada mas alta o suficiente para 
cantar tômbola em quermesse de capela de bairro.

Não tendo profissão, vivia de bicos e amealhando uns 
trocados tornou-se mascate.

Critico por natureza, conhecedor de Raimundo e todo 
mundo, visitando casa por casa, logo foi picado pelo vírus da política . . . dentro em pouco foi convidado a integrar um partido político e acabou vereador da cidadezinha.

Vereador? Era pouco para ele, seus sonhos alçavam vôos 
mais altos.

Tanto mandou telegramas, cartas, telefonemas e insistindo dia e noite foi contmplado com uma vaga de candidato a 
deputado estadual num desses partidos nanicos.

E agora?

Tinha vontade, tinha a vaga, tinha disposição, mas faltava os 
benditos ( como dizia, os malditos) recursos financeiros. O 
partido não tinha dinheiro, o estrupício que arrumou para 
fazer dobradinha, só pensava nele mesmo e queria apenas 
os votos da região . . .  ficou de mandar os santinhos, o resto 
era por conta do candidato da base.

“Caamba o candidato da base sou eu”, me ferrei.

Mas ele sonhava em se projetar politicamente e não ia 
desistir.

“Sou macho, tenho opinião, não vou desistir nunca”

Os primeiros contatos com outras “lideranças” foram feitos 
através dos encontros e congressos municipais, com despesa paga pela municipalidade, mas e o resto?

Começou a traçar um roteiro de visitas as cidades e vilas 
numa circunferência de até cem quilômetros da sua casa.

A sua velha e batida kombosa não teria como suportar a 
puxada jornada da campanha. 
" Esse trancaio mai mi dexá na istrada i aí tô ferradu, já pensô na vergonha?"  

Resolveu visitar as cidades em que havia linha férrea e ou 
servida por ônibus, assim além de se mostrar humilde, fazer economia, ainda faria contatos peito a peito.

Certo dia, logo de manhã, desembarcou em uma vila distante 
e aproveitou para fazer uma incursão nos bares e visitar 
algumas casas.

Achando que estava sendo bem aceito pelo povão, resolveu 
fazer um comício na praça.

Distribuiu santinhos e convidava as pessoas para o grande 
comício logo mais, à noite.

Lãs pelas vinte uma horas, rumou para a praça.

Sendo baixinho, procurou um jeito de se colocar em plano 
mais alto que as pessoas.

Encostado num poste, viu um tambor, não deu outra.

Puou para a prça e em cima do mesmo iniciou o grande 
comício.

Saudou o povo e com frases de “efeito” foi se consumindo.

”Ceis sabi qui tenhu pocu istudu, nem u grupu cabei, mais 
fassu conta mió qui quarqué professô.

As pessoas começaram a se afastar.

“Num vô asfarpiá a rua dóceis, mais prumetu qui vô 
paralelipeidá elas”

Mas gente vai embora.

“Inquantu eu to suanu aqui, minha muié ta suanu na zona di 
Pridenti Prudenti”

O restante dos poucos espectadores se mandaram

No local permaneceu um moço, e ele continua.

“As pessoa num gosta di iscutá a verdadi, sifossi outro qui 
paga pinga pro ceis, aí tava tudu mundu batenu parma. I é 
pur issu qui pidu pra Deus du céu ti protege, só u cê ficô mi 
iscutanu até u fin”

O moço educadamente responde:

- Nada disso, senhor, só estava esperando que desocupasse o tambor para mim ir embora.! ! ! 




GDaun
Enviado por GDaun em 13/10/2007
Reeditado em 13/10/2007
Código do texto: T692385

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Sobre o autor
GDaun
Lupércio - São Paulo - Brasil, 73 anos
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