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Traiobas

Por @andreaagnus

Sempre na maré seca, a mãe juntava seus sete filhos para desenterrarem pequenos mariscos de interior mole e envoltos em um par de conchas, conhecidos pelo povo de Icapuí como traiobas.

Naquela época, o fantasma da fome assolava os moradores daquele pequeno município e tudo o que aquela viúva tinha para manter a família era o que o mar dava de alimento e recursos. A casa deles era de barro, erguida com restos de madeira de velhas embarcações, no entorno troncos de coqueiros sustentavam as redes armadas e no grande quadrado oco havia tamboretes, manzuás rasgados, uma imensa mesa de madeira maciça e um fogão de lenha com grandes panelas prontas para cozinharem frutos do mar.

Dentre seus filhos marisqueiros, havia uma que se destacava dos demais na extração das traiobas, nem o sol escaldante de meio-dia a tirava de sua labuta silenciosa. A caçula trazia seu balde sempre cheio, diferentemente dos demais. Por isso que a mãe, sem o perceber, incutiu entre eles uma competição particular: quem catava mais, tinha direito a um prato maior de refeição. Nutriam-se de feijão com farofa de sururu e suco de cajá, geralmente era essa a segunda e última refeição.

Aquela situação em si, não trazia transtorno algum para as demais crianças. Afinal, não fazia grande diferença a irmã comer a quantidade que queria, pois ainda assim, ela acabava comendo menos que os maiores. Contudo, o mais velho não gostava nem da predileção pela irmã e nem do desdém no olhar materno. Ele, o mais preguiçoso, sempre catava menos traiobas e ficava um curto período na horta familiar. Seu destino certo era uma velha rede armada nos fundos da casa com vista para a serra. No seu balanço descompromissado, ele apreciava saguis a saltarem dos coqueirais, garças a pescarem nos manguezais e algo mais que não estava lá para ser observado por nenhum rapaz de vinte e um anos.

Naqueles tempos, não existiam banheiros nas casas, as necessidades eram feitas em um cubículo revestido por palhas de coqueiros e os banhos eram tomados no pé da serra, com água puxada de uma bomba que os refrescavam e saciava a sede da família. A caçula era sempre a última a se banhar. Hábito esse que se tornara o predileto do irmão que ficava com os olhos fixos nela sem que fosse percebido. Enquanto se balançava em sua rede, trazia nas mãos conchas vazias de marisco, as quais lambia ainda úmidas do cozimento e falava para si mesmo: “minha traiobinha”, era o apelido que ele dera à pequena irmã que o detestava.

Em um dia de quermesse, a mãe preparou os filhos em roupas de domingo. Na sua contagem, apenas dois faltavam se aprontar: o primogênito, pela moleza costumeira e a mais nova que acabara de chegar do mar. Decidida a sair na frente para vender suas rendas, aconselhou o chefe da família a levar a irmã depois. Ele não se deu ao trabalho de abrir a boca, só acenou afirmativamente com a cabeça, enquanto segurava uma bacia de mariscos cujo cheiro o inebriava de prazer e pensamentos escusos.

Naquela tarde, por um breve momento, a rede dele ficou solitária na varanda. A brisa marinha soprava inocente nas dunas que ficavam ao lado da sua casa e foram nelas que ele esperou, como um bicho selvagem, a irmã passar com seu balde vazio e seu vestido de chita.

A menina não percebeu de onde vieram aquelas mãos que a empurraram com força, ela se viu tomada pelos brancos grãos de areia que grudaram em seu corpo ainda molhado. Depois disso, o sol desapareceu de seus olhos que miravam o céu e tudo o que ela viu depois foi a sombra disforme do irmão que sussurrava em seus ouvidos: “Vou me fartar de traioba, hoje.”

Dias se passaram e os baldes da menina de doze anos foram se tornando cada vez mais escassos, um sono sem fim foi tomando suas manhãs e a casa simples daquela família ficou sem as suas gargalhadas costumeiras. A mãe a julgou doente e, sem condições de levá-la ao médico, foi esperando aquele lundu diminuir. Porém, ele só crescia dentro dela até sair, oito meses depois, em um pedaço de carne moribundo que mal se distinguia onde eram os pés ou as mãos. No lugar onde deveria ser a cabeça, havia duas saliências no formato de conchas marinhas e, no centro dois olhos fúnebres e juntos como se aquilo fosse obra de um demônio oriundo do mar. Mas, somente ela, a caçula da família, sabia que aquele feito era de uma força das trevas nutrida em seu próprio lar, a qual ela se via obrigada a chamar de irmão.
Andréa Agnus
Enviado por Andréa Agnus em 14/07/2020
Reeditado em 14/07/2020
Código do texto: T7005790
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Andréa Agnus
Fortaleza - Ceará - Brasil, 38 anos
50 textos (1213 leituras)
9 áudios (271 audições)
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Andréa Agnus