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CORAÇÃO SUBVERSIVO

CORAÇÃO SUBVERSIVO

Avenida Rio Branco, 26 de Julho de 1968

- Eu sou um brasileiro, como muitos não sei, mas como poucos com certeza, porque quero um país melhor, quero um país onde se priorize a causa da educação, do trabalhador, de uma igualdade de vida entre as pessoas, quero um país sem armas apontadas para aqueles que buscam a verdadeira igualdade social, abaixo a ditadura!
Envelhecer sozinho não deve ser nada fácil, ainda mais para quem carrega na alma, perdas que poderiam ter sido evitadas por apenas um ângulo diferente de se encarar os fatos.
O General Benites, era um homem, educado, culto, polido, morava num bom apartamento no aterro do Flamengo com o neto de 20 anos que criou sozinho. Foi um oficial muito atuante no combate aos subversivos no Regime Militar brasileiro, que perdurou  no período de 1964 à 1985. Casou – se em 1944 com Dona Luíza, e dessa união, tiveram uma única filha, chamada Bruna, que iniciou em 1962, a graduação em Sociologia pela Universidade da Guanabara, aos 18 anos.
Durante a crise do governo Jango, que culminou em sua queda em 1964, Bruna era uma ativista estudantil marxista que se tornou uma das linhas de frente nos movimentos estudantis contra a tomada do poder pelos militares, o que resultou numa guerra familiar com seu pai, que na época era Tenente – Coronel do Exercito Brasileiro e combatia as manifestações que sua filha participava.
Ora, no prédio em que a família Benites residia, havia um porteiro de nome Pedro, um nordestino que, como milhares naquele tempo migravam para o sudeste em busca de uma vida melhor e condições dignas de trabalho e sobrevivência. Pedro trabalhava como porteiro durante o dia, e estudava a noite, tinha um desejo de conhecimento maior do que as oportunidades que a vida sofrida no Nordeste não lhe dera. Isso logo foi observado por Bruna, que o incentivou, emprestando livros, e falando com ele sobre os ideais marxistas, que o encantaram. Mas não foi só isso que encantou Pedro, aquela jovem linda, de pele macia e olho verdes, enfeitiçou de paixão os olhos daquele jovem que achava que jamais seria correspondido por ela. Mas, não foi isso que aconteceu, Bruna admirava a sede de conhecimento de Pedro, a facilidade com que ele aprendia as coisas, e, sobretudo o seu caráter, logo, os dois se envolveram numa paixão ardente, que mudaria para sempre a vida dos dois.
O Coronel Benites ficou furioso ao saber que sua filha estava namorando o porteiro nordestino de seu prédio, proibiu a filha de sair de casa sozinha, providenciou para que Pedro perdesse o emprego sob a acusação de um furto forjado, numa tentativa incessante de afastar os dois. O que não surtiu resultados, pois, alguns meses depois, Pedro conseguiu outro emprego e Bruna foi morar com ele numa casa simples que os dois alugaram no Caxambi.
O casal logo se engajou na luta contra a Repressão do governo Castelo Branco, e, ao lado de gente como Vladimir Palmeira, Gabeira, Arraes, entre outros, participaram de movimentos de resistência armada contra o Regime Militar.

Avenida Rio branco, 26 de Julho de 1968.

Vladimir Palmeira inflama a passeata dos cem mil, com palavras de ordem contra a ditadura, e, após aplausos de milhares de pessoas, entrega o microfone a um jovem nordestino, agora estudante de Direito chamado Pedro da Silva, e ele começa seu discurso:
- Eu sou um brasileiro, como muitos? Não sei, mas como poucos com certeza, porque quero um país melhor, quero um país onde se priorize a causa da educação, do trabalhador, de uma igualdade de vida entre as pessoas, quero um país sem armas apontadas para aqueles que buscam a verdadeira igualdade social, abaixo a ditadura!
Boom! Ouve – se um tiro!
Um tiro de 7.62 dado pelas tropas do Comando militar do Leste, que foi efetuado pelo próprio Coronel Benites, acertou bem no peito, Pedro, companheiro de sua filha nos últimos quatro anos. Quando fez aquele disparo, achava que estava livrando o futuro de sua filha Bruna, de um canalha comunista aproveitador, o que ele não sabia, é que ele tinha acabado de assassinar o pai de seu neto Igor, que estava no ventre de Bruna há 3 meses.
Durante o corre – corre, ou alguns minutos depois, dezenas de companheiros enrolaram  o corpo de Pedro numa bandeira do Brasil e o carregaram cantando o Hino Nacional até a Presidente Vargas, enquanto outros socorriam Bruna que entrou em estado de choque. Igor nasceu seis meses depois, onde Bruna, sua mãe, morreu por complicações no parto, dois anos depois, Dona Luiza, esposa do então Coronel, morreu com depressão, e o Coronel Benites, se viu sozinho criando  o neto, cujo o pai ele matou, por Xenofobia e maldade, destruindo uma família que estava se formando, e que poderia estar ao lado dele nos anos de sua velhice.
RODRIGO NOVAL
Enviado por RODRIGO NOVAL em 17/07/2020
Reeditado em 17/07/2020
Código do texto: T7008826
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
RODRIGO NOVAL
Nova Friburgo - Rio de Janeiro - Brasil, 41 anos
112 textos (2826 leituras)
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RODRIGO NOVAL