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OBRA DO SENHOR? UMA PINÓIA, OBRA MINHA!

Quando adquiri a casa avarandada de Jauá, o terreno era um grande areal onde proliferavam apenas ervas daninhas como carrapichos que grudam na pele como pegajosos adesivos, terríveis urtigas que queimam como corrosivos ácidos, espinheiros e um capim grosso e feio de folha cortante que se espalhava com desenvoltura, disputando palmo a palmo o espaço com os carrapichos, urtigas  e as demais ervas daninhas. No meio desta batalha vegetal por conquista de território algumas marias-sem-vergonha brancas e violetas se esforçavam para existir amenizando a periculosidade  do espinhoso terreno.
Decidi que custasse o que custar transformaria esse terreno inóspito num verdejante oásis. Senti-me como um pioneiro que  encontrou na Terra Prometida apenas desertos e vastos pantanais querendo transformá-la na terra onde Deus havia nos prometido que  jorra o leite e o mel.
Eu e meu caseiro o Alex pegamos nas enxadas e fomos lutando contra o agressivo matagal, removendo montanhas de ervas daninhas até deixarmos a areia lisa e reluzente como na praia. Depois foi necessário espalhar  várias caçambas de barro vermelho para criar uma camada inferior impermeabilizante que retivesse a água e a umidade para só depois espalhar outras tantas caçambas de terra vegetal de boa qualidade. Alex  carregava e descarregava o barro dos caminhões num carrinho de mão empilhando-o em pequenos montes, enquanto eu os espalhava com a enxada. O terreno tinha aproximadamente uns 1000m2 e levamos vários dias para cobri-lo total e uniformemente com a camada vermelha de barro. Logo depois repetimos o processo descarregando várias caçambas de terra vegetal. Depois de cerca de duas semanas tínhamos um terreno pronto para o plantio da grama. O que nos custou pelo menos mais uma semana de trabalho duro, pois plantávamos acocorados uma a uma as mudinha de grama, guardando uma distância regular de um palmo entre elas. Finalmente adubamos todo terreno com mais uma caçamba de esterco de boi, o que nos custou  alguns dias de árduo trabalho a mais. Deixamos alguns espaços vazios onde plantamos várias mudas de amendoeiras, coqueiros, pitangueiras, mangueiras e mangabeiras. Agora era só deixar o tempo fazer o seu serviço. Depois de um ano tínhamos um lindo gramado com amendoeiras, coqueiros e várias árvores frutíferas ainda adolescentes, mas crescendo a olhos vistos. Cada dia eu esquadrinhava o jardim, encontrando nas árvores folhas novas que iam brotando para os lados e para cima, fazendo com que as árvores encorpassem tais quais crianças que crescem aos olhos dos pais. Pacientemente acompanhando a marcha do tempo que jamais se apressa, tínhamos um belo e verde jardim. A grama se fechou como um tapete e as mudas se tornavam árvores que começavam a frutificar.
Ao lado havia um terreno baldio em estado bruto.  As mesmas ervas daninhas, espinheiros, carrapichos, urtigas que havíamos removido do meu terreno há alguns anos, ali proliferavam livremente com a força bruta e redobrada da natureza. Apenas um baixo muro e uma cerca de arame farpado separavam o lindo jardim, criado e mantido com muito trabalho e irrigação, do denso e impenetrável matagal do lado que permanentemente nos ameaçava querendo transpor as cercas e invadir a área cultivada como a nos dizer “esperem que invadiremos o seu belo jardim e nos reinstalaremos nesse lugar que a nós sempre pertenceu  e do qual fomos expulsos”. Periodicamente eu tinha que pegar uma tesoura corta cercas e aparar um capim invasor mais afoito que ousava transpor a cerca.
Numa manhã,  eu acabara de acordar, quando ouvi um grupo de pessoas baterem palmas chamando "oh de casa, oh de casa!". Um grupo de homens de terno e gravata  empunhando  bíblias na mão e  mulheres com seus vestidos longos e  desajeitados abaixo dos joelhos, insistia em me chamar. Reconheci-os imediatamente como crentes de uma igreja pentecostal que ficava próxima de minha casa. Vieram me trazer a "benção de Jesus". E um deles olhando  para meu jardim exclamou:
-  Que bela obra do Senhor"!
- Obra do senhor? Uma ova! Obra minha! Trabalhei duro para fazer esse belo jardim! -  Respondi-lhe.
 - Querem ver a obra do Senhor?  Vocês a verão aqui do lado! Conclui meio zangado, apontando para o terreno baldio ao lado.


Roberto Leon Ponczek
Enviado por Roberto Leon Ponczek em 16/09/2020
Reeditado em 17/09/2020
Código do texto: T7064809
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Roberto Leon Ponczek
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Roberto Leon Ponczek