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Contas de um Coração

Carlos Adriano tinha mania de contar. O número de carros vermelhos que via na rua no trajeto casa-trabalho, o número de degraus que subia na escada e até o número de clicks que dava em seu mouse durante o dia. Não importava o que, mas se tinha mais que 2, ele já estava contando.

Com o passar do tempo, ele começou a criar maneiras de tornar suas contas mais interessantes. Ao invés de contar quantos carros vermelhos via no caminho do trabalho, passou a contar quantos vermelhos, quantos azuis e quantos pretos. Três contas separadas, ao mesmo tempo. Já o número de clicks do mouse, começou a contar também o do funcionário que sentava à sua frente. Tudo em voz baixa. E, se no começo dessa mania ele se irritava se alguém o interrompia com uma pergunta ou coisa parecida, agora ele também já conseguia conversar sem perder a conta.

Certa noite, Carlos Adriano estava deitado em sua cama, mas não conseguia pregar os olhos. A insônia atacava novamente. Tentou contar carneirinhos, mas não obteve sucesso. Com a ajuda do silêncio absoluto, passou a escutar as batidas de seu coração. Não teve dúvidas, começou a contar uma a uma e passou a noite em claro.

No dia seguinte, foi para o trabalho a pé. Ficou com medo de pegar o carro e perder a conta. Já no escritório, não conseguiu render como de costume. À noite, cancelou o encontro com a estagiária gostosa, afinal, se o seu coração acelerasse, ele também poderia perder as contas.

Carlos Adriano sabia que esta mania estava acabando com a sua vida. Já não conseguia mais dormir, trabalhar, falar e correr. Ele fazia de tudo para não perder a conta. Mas, para ele, era impossível parar. A sua morte foi uma conseqüência inevitável. E pela primeira vez, a medicina diagnosticou uma morte causada por um coração que teimava em não parar de bater.
Ricardo Polinesio
Enviado por Ricardo Polinesio em 24/10/2007
Código do texto: T707616

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Sobre o autor
Ricardo Polinesio
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Ricardo Polinesio