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Francisco Ligeirinho



         Olá! Eu quero contar a vocês uma estória que ouvi de um amigo poeta e contador de  estórias.
         Pode ser que seja ficção...E se não for?
         É uma estória bonita:cheia de aventura com direito a bandido e mocinho. Estória que se quebrou em algum ponto da vida e da sociedade moderna, mas que sobreviveu pelas ruas, pelos becos e ecoa através do tempo, como um grito, um pedido de socorro, e traz de volta os sonhos que se perderam... A cada momento em que é contada, se perpetua e se torna mais bela.
        Seu nome era Francisco, nome forte para um adolescente de 17 anos.
        Todos que trabalhavam ali no Largo Treze de Maio – bem no miolinho do bairro de Santo Amaro – o conheciam por Ligeirinho. Sim, assim todos o conheciam, especialmente a polícia, responsável pelo apelido.
        Ligeirinho era um menino de rua. Morava nas imediações ou em qualquer lugar onde pudesse se proteger da chuva, do frio e da polícia. Mais especificamente, dum tenente “grandalhão e burro, metido a galã, só porque tinha os olhos verdes como os de um gato e uma automática na cintura prá botá “um terror nos moleque”... Era  assim que Ligeirinho se referia ao Tenente Paulão que também era respeitado na região, principalmente pelos lojistas, pois mantinha a “ordem e a moralidade local”.
       Ligeirinho era um menino especial, porque apesar de viver nas ruas, era bondoso e gentil com as pessoas. Gostava de fazer amigos.
        Quando precisava de dinheiro, procurava outros locais para fazer suas “correrias”, pois não queria fazer mal a ninguém. Então, ia para regiões mais abastadas da cidade realizar pequenos furtos. Ligeiro, sagaz, parecia uma sombra em plena luz do dia. Tinha sua ética: não roubava dos pobres nem daqueles que na verdade, construíam a cidade, os trabalhadores, pois de alguma forma que não sabia explicar, sentia um grande respeito pelas pessoas que iam e vinham. Conhecia suas preocupações e seus problemas: os baixos salários, o desemprego, a desigualdade social, a falta de sensibilidade e de amor dos quais ele mesmo era fruto. Sua família o abandonara aos seis anos de idade numa estação de trem da periferia de São Paulo. Não gostava de falar sobre o assunto;    lembrava-se somente de um dia, ter acordado, sozinho, com frio, na estação...
         Percebeu cedo que teria que aprender a se virar. Então, começou a pedir. Alguns se comoviam em vê-lo sozinho e davam-lhe esmolas, comida e até roupas, mas ninguém jamais se preocupou em perguntar sobre seus pais.
         E assim, dia após dia, buscava sobreviver nesse lugar gigantesco, agitado, barulhento e ao mesmo tempo, apático, e muitas vezes, sem sentido.
         Aos poucos foi pegando o jeito e fazendo parceiros nas ruas. Morou nas Zonas Norte e Oeste , e acabou vindo para a Sul, através de uns amigos. Se apegou muito a Santo Amaro, pois apesar de ter crescido pelas ruas, seu temperamento era doce, chegando mesmo a ser carinhoso com todos. Em especial com os moradores de rua da região, e ficava furioso com os maus-tratos que muitos sofriam; algumas vezes, chegou a se arrebentar de brigar para defender uma senhorazinha chamada Toninha que fora abandonada pela família porque “ela havia se tornado um peso para os filhos”.
        Ligeirinho e sua avó de rua tinham grande apego um pelo outro. Se gostavam profundamente, parecia até que já se conheciam há tempos e tempos, desde sempre mesmo. Por isto, quando a senhora Toninha faleceu – Ligeirinho tinha acabado de completar seus quatorze anos - o menino desfigurou-se. Sofreu... sofreu tanto quanto seu coraçãozinho, ainda entrando na adolescência, pôde suportar.
        Naquele ano (2002), tudo ficou mais difícil... Um tanto pela ausência de Toninha; outro tanto porque estava crescendo, e ninguém mais lhe dava nada, nem fazendo malabares pelos faróis nem engraxando nas calçadas. Ao invés, ouvia apenas desaforos e lições de moral. Mas, o que eles sabiam sobre sua vida e suas dificuldades para poder julgá-lo de forma tão cruel? Não podiam ver que sofria e só queria ajuda... Suas questões aumentavam. Sentia-se discriminado, humilhado. Perguntava-se “onde está o governo que deixa a gente numa situação como esta?”... Sentava-se na calçada e chorava, e parecia-lhe que era só o que podia fazer. Faltava-lhe fé; fé que sempre encontrava na figura de sua avózinha querida... “Onde será que ela está agora?, perguntava-se. Talvez não percebesse, mas começava a se revoltar com o mundo. Não teve outra saída: desde aquele dia, passou a roubar.
      Com o passar do tempo, foi se adaptando a sua nova condição e desenvolvendo suas habilidades. E desde o primeiro dia, prometeu a si mesmo não roubar gente decente; se vingaria de sua pobreza, roubando dos ricos, como fez Robin Hood no filme da televisão.
       Foi crescendo e se tornando um rapaz bonito, diferente dos demais meninos de rua. Ligeirinho era o oposto das estatísticas sociais: era branco, loiro, de olhos azuis e fazia sucesso entre as meninas. Talvez por isto alguns meninos não gostassem dele.
      - Engraçado, né, pobreza não escolhe cor; ela simplesmente existe. Dizia ele, que não entendia porque devia ser desse jeito, mas também não aceitava a idéia de ficar assim para sempre.
      - Um dia vou ter muito dinheiro, e vou cuidá dessa molecada que vive que nem bandido, sem família e sem lar. Nóis vamo formar um lar: Lar de Francisco, em homenagem ao santo que minha avózinha gostava tanto.
     Sonhava... sonhava contribuir, fazer a parte dele; mas para isso, precisava de dinheiro então, roubava. Ligeiro, ligeiro sempre! Policial algum era páreo para ele na corrida:metia-se na multidão e desaparecia... Conhecia todas as “passagens secretas” dos bairros: roubava aqui e logo estava lá, seguro e ileso. Sumia durante um tempo, depois voltava e a vida continuava. E assim, sobrevivia como Deus permitia.
     Porém, sua esperteza estava deixando certas pessoas irritadas o que, cedo ou tarde, lhe traria problemas.
     As pessoas gostavam dele, pois era inteligente – apesar de não saber ler nem escrever – possuía visão de mundo e conversava sobre tudo e qualquer assunto. E também alguns de seus pontos de vista estavam “chateando” pessoas que passaram a considerá-lo perigoso, quase um líder entre os meninos. E realmente, era respeitado e acatado por todos, apesar de algumas rivalidades.
     Como toda estória, o vilão sempre tenta pegar o mocinho... e nesta, foi impossível deter a fúria do primeiro.
     Lembram-se do tenente Paulão... pois é, ele ficava doente toda vez que ouvia falar do nosso Ligeirinho. Tinha ojeriza ao garoto, simplesmente porque nunca conseguiu colocar as mãos nele. Sentia-se ferido em seu orgulho policial e menosprezado como homem de tanto tirarem sarro com ele, afinal era só um garoto, e ainda assim Paulão não podia vencê-lo...
     Até o dia em que cansou de “tomar perdidos” e resolveu acabar de vez com a fama de Ligeirinho. Reuniu um pessoal de um bairro distante, inclusive alguns dos “amigos” de Ligeirinho, e preparou uma armadilha para o menino.
     Não comentei com vocês, mas nosso herói, morador de rua, roubava e tudo o mais, mas jamais sequer experimentou qualquer tipo de droga. Conselho de um desconhecido que o encontrou num parque logo após a morte de sua avó, com uma lata de cola nas mãos, procurando algo que de alguma forma aliviasse seu sofrimento:
  -  Ouça filho, ainda que tenhamos problemas e obstáculos para vencer e estejamos sem forças, nada vale mais do que a certeza de se ter lutado, mesmo que aparentemente tenhamos perdido. Você não pode imaginar a dor que sua avó sentiria, se você esquecesse tudo o que aprendeu com ela e se entregasse assim.
  -  Como o senhô sabe disto se nem conheceu minha vó?
  -  Perdi um filho para as drogas porque nunca tive a coragem de conversar e mostrar ao meu André, o perigo que ele corria, como sua avó fez com você. E também nunca fiz questão de lhe dizer o quanto eu o amava. Ele morreu sem saber disto, por isto sinto grande peso em minha alma. Não desanime! Nada como um dia após o outro, filho. Você permite que eu lhe dê um abraço de pai arrependido? O abraço que não dei em meu querido André?
     O menino aceitou, mas não pôde sequer se despedir daquele senhor, pois as lágrimas lhe embargaram a voz... E desde então, nunca esqueceu aquelas palavras de pai. Do pai que não tivera.
   Mas, voltemos a armadilha.
      Segundo informações de alguns “gansos”, Ligeirinho estava a fim de sair desta vida e, estava pensando em participar de um roubo grande, que rolasse uma grana legal.
  Era tudo o que Paulão queria saber!
      No dia e horário marcados, lá estavam todos a postos para executar o serviço.      Simularam uma transação em frente à uma agência bancária no bairro de Pinheiros, que envolveria uma quantia interessante, e fizeram chegar ao menino todos os detalhes da tramóia.
      Ligeirinho juntou uns meninos: Carlinhos, Fabinho, Alex Grandão e Juninho – os dois últimos, os “gansos” que participaram do lance com Paulão – e foram até o local. Lá encontraram Marcão e Jô, responsáveis pelo roubo e velhos conhecidos da polícia que, graças a Paulão, se livraram de ficar uns muitos anos na cadeia e estavam lhe devendo um favor que, sem demora seria retribuído.
   -  Seguinte: os dois grandões vão entrar com a gente. Os outros ficam na retaguarda. Se rolar tiro, é cada um por si, entenderam? E se forem pegos, boca de siri, senão a “casa vai cair prá vocês”, certo menor?
      Ligeirinho fez que sim com a cabeça e colocaram as toucas para cobrir o rosto.
      Quatorze horas.
   -  Prontos prá adrenalina? CRAAASHH!!!!!
        “TODO MUNDO NO CHÃO! ISSO É UM ASSALTO!”
        Quando Marcão fez o anúncio, ouviu-se gritos e desespero. Ligeirinho de repente, sentiu uma vertigem, cambaleou e por pouco não caiu. Seu estômago embrulhou, mas engoliu o vômito que lhe subia pela garganta e foi como se seus pés saíssem do chão, ficou estático por uns momentos. Teve que se controlar para não sair correndo dali. Arrependeu-se, mas agora não podia amarelar. Não pensou que sentiria tão profundamente o medo daquelas pessoas dentro de si.
        O que estava acontecendo? Será que sua namorada Flavinha tinha razão: “Tome cuidado, é agosto, mês de cachorro loco; acho que cê não devia ir. Tô com um pressentimento ruim.”
 - Ninguém fala nada e nem se mexe! Se todos colaborar, ninguém vai se machucar! -
gritava Jô.
        Ligeirinho percebeu o pavor nos rostos das pessoas, só então se deu conta de que alguns eram ricos outros, talvez a maioria, eram simples trabalhadores. Era dia de pagamento... Tinha se traído! E mesmo os ricos, eram gente e tinham medo, tanto quanto ele naquele instante.
       Lá fora, soou a sirene da polícia.
  - Vam'bora!!!! Já era! Já era! - gritou Jô.
      Iam sair correndo, mas nosso menino não tinha forças para correr. De repente, notou dentro da agência uma senhora muito parecida com sua avózinha. Esfregou os olhos, não quis acreditar neles: era sua avózinha tão amada! Sim, era ela!! Um sorriso inocente de menino doce e humilde se abriu em seu rosto, e tudo a sua volta parecia ter sumido como mágica.
      - Filho, o que está fazendo? Por que está aqui fazendo mal a estas pessoas, meu filho? Eu te pedi tanto para ficar longe de tudo isto. Saia daqui, filho, agora, por favor. Por favor!
  - Não chore, vózinha, por favor... Prometo nunca mais fazer nada disto! Me perdoe!
      Então, a imagem de Toninha começou a se tornar distante como num sonho, e por mais que chamasse ela se afastava e aos poucos ia desaparecendo...
       Recomeçou a ouvir vozes, choros e se deu conta de que ainda estava dentro do banco. Numa fração de segundo, a polícia entrou no banco, armada até os dentes.
       Viram Ligeirinho também armado,  e antes mesmo que ele pudesse levantar as mãos para se entregar, sentiu a bala perfurando sua testa, direto, sem possibilidade de fuga, como num filme em câmera lenta... Lentamente seus músculos adormeceram, seus sentidos foram se apagando, as vozes, os gritos... tudo começou a desaparecer.
       Viu-se fora de seu corpo. Viu toda a movimentação em torno de seu corpo. Dinheiro espalhado pelo chão. E, sangue! Seu sangue!! Só então percebeu que já não mais sentia dor; toda confusão de antes, transformara-se numa calma envolvente e até gostosa.
        Sentiu um toque leve e suave em seu ombro, virou-se e deu de cara com sua avózinha. Abraçou-a com tenro carinho e, lágrimas desceram por seu rosto em abundância misturando-se ao seu sorriso de intensa felicidade.
     - Vózinha, o que tá acontecendo comigo? O que tá acontecendo com o mundo?
     - Não se preocupe, filho. A partir de agora, estaremos juntos e eu vou cuidar de você como antigamente.
      Não importava os fatos; estava feliz por estar com ela, e sabia que de agora em diante, não lhe faltaria amor, compreensão e carinho. Tudo voltava a ser como antes... como nunca deveria ter deixado de ser!
       A luz do dia tinha se tornado mais clara e bela. Aliás, nunca tinha visto um dia mais bonito do que aquele. Ou talvez nunca tenha reparado na beleza do lugar em que vivera.
       Enfim, seria livre! Não mais sentiria frio, fome ou medo.
       Paulão ficou escondido próximo à agência, deliciando-se com sua vitória.
       Marcão que tinha se esquivado da polícia, veio lhe dar a notícia que esperava:
       - Serviço feito! Estamos quites...
       Deu as costas e saiu em direção a um carro, aonde Jô o aguardava.
       Instintivamente, sorriu um sorriso sinistro, satisfeito e feliz com sua covardia. Mal sabia que os mesmos meninos que entregaram Ligeirinho, também o entregariam como mandante do assalto; parte de outro plano que tinham armado junto com Marcão e Jô para tirá-lo do caminho de vez. Prova do crime? Cinco mil reais em dinheiro colocado na viatura que ele dirigia. Enfim, ladrão que rouba ladrão...
       O corpo de Francisco foi levado para o IML da cidade. Ninguém fora reconhecê-lo. Foi enterrado como indigente; mais um entre tantos sofredores sem nome, sem identidade, sem dignidade.
       Somente dias depois, seus amigos e sua namorada ficaram sabendo do ocorrido. Achavam que ele estava na Febem, por isto a princípio, todos se desesperaram, choraram e tudo mais. Mas, logo se resignaram, em especial Flavinha que, dias antes tinha sonhado que Ligeirinho estava em seu lar, já adulto, cuidando de várias crianças e adolescentes carentes que agora tinham um pai, muito querido e amado. E no sonho, Francisco lhe dizia:
       - Estou feliz, Flavinha! Finalmente, aprendi a ler e escrever, e vou junto com estes meninos e meninas, escrever uma nova história de vida para todos nós.
        Flavinha então, decidiu procurar um abrigo, mudar de vida e transformar em realidade o sonho de seu amado, contentando-se em lembrar de seu Romeu sorrindo, feliz como nos sonhos que compartilharam tantas vezes juntos.
         Sua iniciativa chamou a atenção de instituições que resolveram adotar sua idéia, e se tornaram seus colaboradores.
          Anos depois, muitos meninos e meninas tiveram suas vidas transformadas e resgataram sua dignidade, formando uma nova e grande família: a família do Lar de Francisco Ligeirinho.
        Esta  é a estória de Ligeirinho: um menino de rua, cheio de sonhos e que permanece na memória desse bairro e, de tantas e tantas pessoas que gostavam dele e, também  daqueles que se auto denominavam seus inimigos.
        Enfim, é uma estória. Não me perguntem se foi real ou não, porque também não sei. Só sei que ouvi esta estória e quis que outras pessoas a conhecessem também, afinal se passou aqui em Santo Amaro, e como trabalhadora local, achei que seria uma boa maneira de homenagear nosso querido bairro. Igualmente porque vejo, muitos meninos e meninas na mesma situação e, rezo para que eles tenham um destino melhor que o do nosso Ligeirinho, ainda que ele seja – ou não - uma ficção.
Eliane Santana
Enviado por Eliane Santana em 02/11/2007
Código do texto: T720007

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Sobre a autora
Eliane Santana
São Paulo - São Paulo - Brasil, 41 anos
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Eliane Santana