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AMOR, NÃO TE QUERO MAIS

           Depois que o Antônio partiu, a Thais nunca mais foi a mesma. O luto se incorporou ao seu vestiário. Não porque o infeliz tinha dado no pé justo no dia de finados. Não era somente por causa disso. Era por tudo e mais um pouco.
           Uma semana antes dele se mandar, o Antônio continuava sendo o mesmo cara gentil e carinhoso de sempre. Nos finais de semana, ele se levantava mais cedo, preparava um belo café da manhã e acordava a Thais com um beijo. As amigas não cansavam de dizer que homem como aquele não existia e que jamais Thais acharia um igual.
            Mas havia uma mulher no meio do caminho daqueles dois. E que mulher. Alexandra. Alex para os íntimos. Alex para Antônio que em menos de 24 horas tornou-se íntimo dela, numa paixão incandescente e enlouquecedora que o deixou louco e tonto. O homem não pôde resistir àquele furacão de cabelos vermelhos. E em uma semana, passou a levar o café da manhã na cama que passou a dividir com a Alexandra.
             Thais, a princípio, estonteou. Não era possível. Ele a amava, não era verdade? Não era mais. Thais olhava para a cama vazia, para o buraco que ficara no guarda-roupa dele e a impressão que tinha era que o Antônio tinha morrido. Só faltava enterrar.
             As roupas pretas começaram a fazer parte do cotidiano de Thais. No início, as amigas, colegas, família e até o chefe deixaram passar. Afinal, o choque tinha sido grande. Quem viu o Antônio depois do rompimento, afirmava que nunca o tinham visto tão feliz. Logo ele, tão sério, tão compenetrado, que mal abria a boca. Diziam que até tagarela ele estava. Alex, Alex... uma mulher capaz de fazer milagres. Depois de algum tempo, ninguém mais suportava a cara de sofrimento da Thais. Nem aqueles trapos pretos. Muito menos as raízes escuras dos cabelos que se insinuavam entre os fios loiros atinturados.
            Um dia, as amigas se reuniram em um círculo e planejaram adotar uma medida de choque. Thais teria que começar de novo sua vida. Do zero. Mas era do zero que as coisas começavam. Lógico que ela resistiu. Queria continuar com suas roupas de finados, chorando um amor que a rejeitara, sofrer pelo resto da vida. As amigas não conseguiram arrancar Thais de casa. Ela preferiu ficar sentada no sofá, assistindo a um filme de amor no DVD, comendo brigadeiro direto da panela. Azar que engordasse. Azar mesmo. A mãe ligou para lhe xingar. Passou um sermão de meia hora que não fez efeito nenhum. Quando Thais já estava na segunda panela de brigadeiro, a campainha tocou. Aquelas chatas!, pensou ela, se levantando para abrir a porta, pronta para o ataque.
- Oi, Tatá.
Antônio. Lá estava ele, parado, com uma expressão de sofrimento no rosto. Thais levou um susto. Chegou a pôr a mão no coração.
- Antônio… o que aconteceu?
- Descobri que a Alexandra não é a mulher da minha vida.
- Ah… descobriu?
- Thais, gostaria de começar de novo minha vida com você – pediu ele, a voz amargurada, chorosa – Alexandra foi um erro, foi a minha ruína. Minha vida é você. Somente você.
Thais ficou encarando Antônio por um longo tempo, sentindo o doce do brigadeiro na sua boca, as roupas pretas lhe caindo desajeitadas pelo corpo e se perguntando o que fazia um homem vir parar a sua porta num sábado à noite, se humilhando em nome do amor para ficar com ela. Não, aquilo não era o tipo de homem que precisava na sua vida. Thais queria um homem forte, decidido, de posições definidas. Não uma ameba chorosa, plantada na sua frente, implorando amor. Não, de jeito nenhum.
- Antônio, tudo de bom para você.
E sem falar mais nada, Thais fechou a porta. Com o celular em mãos, ela discou um número rapidamente.
- Silvinha, é a Thais. Aquele convite de vocês ainda está em pé?


Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 04/11/2007
Código do texto: T722894
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 47 anos
616 textos (43658 leituras)
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Patrícia da Fonseca