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Parva

 

 

            Passo na sua casa nos fins de tarde. Ela me espera no portão. O vestido é curto, deixando-lhe os seios e coxas à mostra. Os cabelos na altura dos ombros, a pele morena. Olhos em tons esverdeados. Os lábios grossos, sensuais. Sorri e finge ser difícil.

            - Hoje não rola. – diz faceira.

            Vamos dali ao quarto e nos enfeitiçamos de tanto amor. Cada dia um posição diferente. Fico saciado. Visto-me ao final.

            - Precisa mesmo ir embora?

            - Você sabe que sim. Tenho mulher, filhos, uma chatice.

            - Deixe-os fica comigo – ela implora, nua, agarrando-se ao meu terno.

            Procuro repelir seu assédio.

            - Você sabe que não dá Carmélia. É impossível. Nosso acordo foi esse.

            Ela se afasta, reclina-se na beirada da cama. Cobre-se com o lençol e faz um beiço de choro. Aproximo-me e lhe faço carinho.

            - Saiba que sou seu, eternamente. Lá eu vegeto. Aqui, contigo, tenho vida. Quero agora ver um sorriso nessa minha boca cheia de carnes.

            Ela sorri. Trocamos mais uma indecência.

 

            Em Casa

 

            Como sempre volto para casa semimorto. Lá sou zumbi. As crianças com meleca no nariz me recebem ao portão. Faço cara de cansaço. Saio sempre às quatro da repartição. Fico duas horas fazendo amor e vou para o turno da noite, cumprir obrigação social. Faz um ano que levo essa vida. Não me canso. Carmélia está sob controle. Minha esposa, cheirando a alho, está na cozinha sobre as panelas. Parva. Sem sal. Gorda e flácida. Perdeu o encanto logo após o casamento. Nem sabe beijar. É um sofrer abrir as pernas.

            - Assim não, diz, dói, dói muito. – que tortura tentar fazer amor. Interrompo a dor daquelas lembranças:

            - O que tem para jantar?

            Ela responde qualquer coisa. Vou ao banho e penso no que farei com minha amante no dia seguinte.

 

            A Única

 

            - Você não vai mesmo largar sua esposa?

            Foi uma tarde incrível de amor. Ela parece a cada dia mais jovem, bonita e ardente.

            - Não dá, meu anjo, não dá.

            - Eu queria ser a única.

            Trago-a para perto e a encho de carinho, de amor, de sêmen. Para isso ela é boa, uma coletora sem comparação. Já tive muitas, mas como é bom despejar naquele ventre minhas frustrações.

 

            Tarde Diferente

 

            Uma tarde cheguei na sua casa e ela não estava à porta. Entrei apressado. Estaria doente? Vi que se encontrava amarrada e amordaçada em uma cadeira.

            - Deus do céu, disse. Ajoelhei-me diante dela e comecei a desatar os nós do seu tornozelo. Ela tentou me avisar mesmo amordaçada, visto balançar muito o corpo. Senti um golpe na nuca. Acordei nu, atado à cama. Ela estava ao meu lado, presa à cadeira. Vi um vulto com um capuz e uma lâmina. Vestia uma jaqueta preta de couro e calças escuras, tom marrom.

            Começou a cortar-me, depois de apertar bem a mordaça. Deixava que eu sentisse muita dor. Talhava minha pele, expunha os músculos. Talhava os músculos. Minha amante chorava vendo-me sofrer. Depois, começou a fazer o mesmo com ela. Mesmo sem forças, tentei lutar e protestar. Foi duro ver aquele corpo lindo esvair-se em sangue. Não sei dizer quanto durou meu sofrimento. Acho que ela partiu primeiro.

 

            Ao telefone

 

            Horas depois minha mulher atendeu uma ligação:

            - Feito – disse uma voz masculina.

            - O restante será pago conforme combinado – desligou e, cheirando a alho, voltou para a boca do fogão. As crianças ainda brincavam no jardim com meleca no nariz...

Jurandir Araguaia
Enviado por Jurandir Araguaia em 29/11/2007
Código do texto: T757420
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Sobre o autor
Jurandir Araguaia
Goiânia - Goiás - Brasil
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Jurandir Araguaia