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PALÍNDROMO

Tempo de amarrar cachorro com lingüiça, tempo em que os cometas tínhamos, sim, o nosso espaço, o nosso valor. Bota mais lenha no fogo, amigo, que esse ventinho está muito frio, quando geia na lama chove na cama, isso é coisa dos antigos. Agora, o que está faltando é uma viola, o som de uma viola pra aquecer a noite. E por falar em viola, vou lhe contar, se o senhor me der o prazer de me ouvir, uma história dos tempos de antanho, que é só o que carrego comigo hoje: as histórias de quando arrastava mala por esse sertão afora, a pé, de trem, de carroça, em lombo de burro. Mais um pinguinha, que essa é das boas. Mas, então, como ia dizendo, eu sabia e conhecia como ninguém o dito cujo emprego de cometa. Vez ou outra, veredas e veredas, caminho arretado, de mato e pó, aquele pó vermelho, grudento, no guarda-pó de brim cáqui, mercadorias tinha eu de proteger com papel e papelão grosso: vestido de chita, fivela de  cinto, novelos de lã, cinta-liga, agulha e linha,  muita roupa de baixo, pra homem e pra mulher, vendia que só vendo, tudo muito bem arrumadinho nas malas, pesadas na ida, bolso cheio na volta e muita poeira na garganta pra chegar nos cafundós. Então, um dia, estradinha ardida, longe, cansaço bateu. Na curva, uma vendinha, dessas de beira de estrada, um balcão, as prateleiras mais vazias que cheias, uma mesinha meio troncha, duas cadeiras, um caboclo mascando fumo de rolo, dentes tudo preto de fumo, cozinha no fundo, fogão de lenha, fumarento, então, bateu cansaço, bateu fome. Bom dia cumpadi, bons dias, caboclo falante, intão o que vai sê, a patroa faz um charque daqui, ó, boa demais a cachacinha da roça, já vejo que cumpadi tá mais pra ida que pra vorta, mala pesada, senta aí que já trago num instantinho o tira gosto. Arreei as malas num canto, tirei o chapéu, bati o guarda-pó e sentei. Logo veio o caboclo com a cachaça, da boa, cheiro forte de cana, umas rodelas de chouriço frito de dar água na boca. Óia, o sinhô mi discurpe, sô inguinorante, gente da roça, o sinhô sabe, mas a muié qué sabê se o cometa aí tem uns frufrus, uns paninho de custura. Ora, meu amigo, será um prazer servir sua senhora. E logo, malas abertas no balcão, a cabocla escolheu lá o que queria e ficou muito feliz. Não era careiro, não, o senhor pode ter certeza, que explorar esse povo não era do meu feitio. Logo veio o almoço, uma charqueada com arroz soltinho e feijão cozido no toicinho, dois ovos fritos, farofa, delícia, delícia. Saciei a fome e ali fiquei por um tempo, jiboiando à tarde, aquela preguiça de caminheiro que olha o caminho e não tem gana de sair do lugar. O caboclo ali, também feliz com minha felicidade. Então lembrei, desfeita danada, como é mesmo sua senhoria, perguntei. Me desculpe o senhor, aqui na minha querença de almoçar logo, que tudo estava danado de bom, me esqueci de ajuntar nome à pessoa. Omissíssimo, à suas ordens. Omissíssimo José. Ora gente, que nome mais matreiro, não consegui me segurar, Omissíssimo, nome de grandeza. Aqui, disse o superlativo, já cheio de intimidades, aqui já num tem pessoa de se espantá com isso, nem mais gente a querê qui eu conte por que carrego, de batismo, tar nome, mas posso lhe narrá a estória, si o sinhô me dé as honra. História de caboclo, meu amigo, ou você gosta, deita e rola ou cai fora, na primeira pausa, que sempre vêm lá causos compridos do tempo do onça, que até o diabo duvida. E tem mais uma coisa, nos causos dos caipiras: a gente descobre sabedorias impensáveis, como tição debaixo das cinzas da fogueira que parece apagada mas ainda tem fogo.  Como era de ouvir, e não estava a fim de voltar logo para a fervura da estrada, recostei na cadeira e agucei os ouvidos. Minha mãe, começou ele, me teve muito nova, inganada lá por um desses guapos de cidade, moço novo, sem futuro, mas bunito o danado, dizia minha mãe, cabôco inganadô, galante, desses qui bota mer inté em notiça ruim, todo pimpão, dizia a mãe, e tocava uma viola que fazia gemê inté as pedra das vereda, tocava, sim, e tanto tocô a viola quanto tocô o coração de mãe, intão eu nasci ansim, mas sem ninhuma certeza de pai, que o cabôco era qui nem quiabo, casá num casô, e cresci ansim na roça brava, longe de tudo. E um dia, já eu fora dos cuêro, lá foi minha mãe me batizá na igreja da cidade, e encontra o moço, meu pai, ali no bilhá, em meio aos forguedo, todo prosa, já meio que mais pra lá do que pra cá pru mode dumas birita a mais, minha mãe num se fez de rogada, catô ele pelos colarinho e levô diante do padre. Na hora do batismo, o padre pregunta, quar o nome do minino? E não é que mãe, perdida nos seus atavio de roça e trabaio, tinha isquecido de achá um nome pra eu? E ficô aquela discussão, uns quiria ansim, outros quiria assado, e meu pai disse, bota José, que é o nome de meu pai, e minha mãe subiu nas tamanca, que José que nada, qui ocê nunca foi pai, ocê num veve cumigo e num vai mandá em nome de fio qui é só meu, e a increnca disandô. O padre, com os pacová cheio, de muito tempo já sabido das desavença, virô pro meu pai, o senhor é um pai omisso, ouviu, omisso, mais do que omisso, omissíssimo! Taí, falô a mãe, Omissíssimo, o minino vai se chamá Omissíssimo, pode botá aí no livro. Era minha mãe, muié qui sabia dos caminho de ida e dos caminho de vorta, sem papas na língua. Brava qui só vendo. Num teve o padre nem quê nem purquê, àquelas artura, dispois de tanto distempero, tascô lá no livro dele, Omissíssimo, e o sobrenome? Nova increnca, mas meu pai bateu pé, José, José e pronto. Tamém ele cantava na iguar moeda, de galo. E cá fiquei eu Omissíssimo, palindrômico nome, de sobrenome José. E o meu amigo Omissíssimo, enquanto eu ria muito da história do nome dele e me espantava com o inusitado palíndromo, foi lá atrás do balcão e pegou uma viola, uma viola velha, já meio descascada, sentou na minha frente e tocou, tocou como nunca mais ouvi igual, daquelas dez cordas gemendo na guaiuvira, temperadas em cebolinha,  daquele oco reverberava o mundo, o som que saía, ah, meu amigo, aquela viola chorava nos dedos nada omissos de seu Omissíssimo, um som assim, nunca mais, meu amigo, nunca mais. Nem tive coragem de perguntar do pai, que fim levara, a viola parecia dizer que era triste de lembrar a história de seu Omissíssimo. Pois então, a vida de cometa era assim, sofrida, doída, mas tinha lá suas compensações. O meu amigo de palindrômico nome, o Omissíssimo? Nunca mais passei por aquela estradinha perdida: já deve até de ter morrido. Só ficou na minha boca o gosto daquele almoço e nos meus ouvidos o som da viola daquele caipira. É melhor buscar mais lenha, meu amigo, que a noite vai ser fria, muito fria. Era mesmo tempo de amarrar cachorro com lingüiça...

5.9.05
Isaias Edson Sidney
Isaias Edson Sidney
Enviado por Isaias Edson Sidney em 07/12/2007
Código do texto: T768782
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Sobre o autor
Isaias Edson Sidney
São Paulo - São Paulo - Brasil
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