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Luftais

Perto do Elevado, noite cerrada, ligou o giroflex da viatura e foi à luta. O tempo era curto - fiscal de trânsito, tinha de cumprir talão.
Roberta escondia cicatriz na cara com pó-de-arroz. Traveco de charme chulo ordenava na mesa do clube - vá-te à merda, bofe - o pouco lucro da noite transformou-se em balinha.
No banco de passageiros,  caminhonete amarela, José levava de mala companheiro com buraco no estômago. Pelas merrecas do INPS, preferia esconder doença do chefe; José, camarada, lhe dava cobertura e pagava o Luftal.
Estranhou o bom desempenho do carro naquela noite. Mesmo com a troca de combustível no dia anterior se apegava ao balanço do terço no retrovisor
 
 - Nossa Senhora tá ajudando a gente, parceiro.
 
A loira híbrida arrumou briga no bar, outra mona roubou-lhe cliente. Praticava preço abusivo, perderia as pregas se dono soubesse.
Roberta joga nome de batismo na cara da outra em meio à briga de bolsa:

- Você se esquece que é Rodrigo, minha nega?
- Juro que te mato na mão, aloprada!
- Lucra com homem feio.
- E você, meu amor, aceita qualquer coisa pra não dormir na rua, é pobre e te falta dois dentes. Eu não,  tenho glamour, e olha, nunca precisei ganhar cicatriz por 200 mirréis.
 
Roberta roubou a bolsa da colega, saiu correndo, deixou a outra gritando e ignorou segurança do bar que a ameaçou com navalha. Para garantir bom desempenho, tirou dos pés scarpin 42,   levou um em cada mão, segurando-os pelo salto 15. Conseguiu ainda carregar piruca reserva debaixo do braço,  o suporte era um busto de gesso. Saiu no pinote do inferninho.
José deu a seta e desembocou na Doutor Arnaldo. Evocou santo ao ultrapassar sinal vermelho, companheiro sentiu agulhada na úlcera.
Perto da Consolação, uma mulher pulou a guarnição da pista. O breque de José,  fiscal de tráfico, cantou riscado de giz. Tentou o que pode, mas atropelou moça loira - cabeça de um lado, corpo de outro. Explosão de sangue no pára-brisa.
A prece deu lugar a nome feio. José esmurra o volante, companheiro pediu calma.
- Vamo dá no pé. Ô Zé, não tem ninguém na rua,  não vai dar encrenca!

Um pequeno aglomerado de gente em volta da cena.
- Negativo, vamo prestar socorro.  Tâmo fudido e você que fique sossegado.
- Será que cê matou ela?
-  Vou ver, fica ai.
 
José segurou o berro. Bateu o cinto, saiu do carro e foi ver o estrago.
Dirigiu-se ao corpo, e percebeu que em meio àquele vermelhidão uma cabeça permanecia colada ao pescoço. Inclusive, foi fácil de se observar pelo fato de ali ter uma orelha, pendurada e sangrenta , a ponto de cair no asfalto.
Do outro lado, mais próximo à Paulista, que curioso, uma outra cabeça. O companheiro do carro se dirige ao suposto pedaço, e o carrega nos braços para mostrar a José.
Verdade é que apesar de ser busto de gesso, todo aquele sangue enganava.

- É de gesso, compadre.
- A cabeça tá aqui. Temos de socorrer ela.
 - Fala pra multidão.
- A gente precisa levar ela pro hospital, temos de parar um ônibus.

A viatura não tinha espaço pra mais um corpo. A multidão, aos poucos, se dispersou. Em noite de frio, ninguém queria dor de cabeça.
José parou um ônibus, fraseou de um jeito enrolado pro motorista mas se fez claro o suficiente e explicou a situação. Cobrador ajudou a levá-la. Ulceroso e nervoso, parceiro foi de caminhonete, carregando busto com a piruca.
 
Cobrador estranha peso do corpo.

- Mas que porra de peso é esse! Isso não deve ser mulher.
José dá olhadela por baixo da saia:
- Vixi, isso aqui é um traveco, rapaz
 
Chegam ao HC e são atendidos por um doutor afetado e cansado,  olheira profunda não negava.  Deu dois bofetes no rosto da bicha.

- Vai, acorda, vai. Chega de dormir mona.
Tira do bolso droga que acorda.
- Que merda...cheira logo e deixa um pouco pra mim
 
Roberta, enfim, desperta e ainda naqueles segundos em que tudo é luz forte.

- Cadê minha bolsa?
- Meu amor, você foi atropelada e tá com a orelha pendurada, quer mais alguma novidade?
- Ai que dor...
- Vou te colocar pra dormir. Tem alergia a anestésico?
- Não sei...
- Olhe meu bem. Vou te dar só local, mas depois não reclama.
- Me diz onde eu tô...
- No HC, querida, te disse que foi atropelada?
- Tô sangrando...
- Logo passa, fica segurando esse pano bem aqui. Vou buscar um curativo.
 
Preocupado com a encrenca,  José chamou o polícia. Queria B. O, pra não pagar concerto da viatura.  Do lado de fora, acompanhava pelo vidro o despertar do travesti.
Na sala,  o doutor costurava a orelha do paciente.

- Vai ficar uma cicatriz horrível. Pede para ele pagar [apontando para José, no vidro,  com o polegar direto da mão]. Plástica melhora, viu,  mas vai ficar marca. Já viu, minha filha, ficar com outra cicatriz? Peitinho durinho não garante mais nada, bem.
O médico, jovem de rosto, alternava chilique com as agulhadas na orelha. Terminado o serviço,  o travesti gemendo baixinho agonizava a dor. Saiu da sala e encontrou-se com o delegado,  este último,  recém-chegado ao hospital.
 
Algemada, Roberta foi com José à delegacia - camburão pra ela, banco de trás pra ele. No caminho, o delegado, predestinado a humilhar, faz desdém da moça.

- O Donzela. Sabe quantos vagabundos eu tenho que matar pra ganhar o que você ganha?
 
Na DP, já tarde da noite, José com muito sono, ambas as partes passaram à limpo explicação ao delegado. Volta a história da bolsa

- Seu delegado,  perdi minha bolsa, o que eu faço?
- Fica quieto, viado. Todo mundo aqui sabe que você roubou essa porra! José,  você viu essa bolsa?
 
José soa frio, se vira para o camarada, até então, samambaia do caso. Companheiro de ronda responde, atropelando tentativa de explicação de José.

- Olha doutor, eu deixei lá na caminhonete, quer que eu vá lá buscar?
 
Foram de dois, o doente de estômago e mais um policial pegar a bolsa roubada no carro.
 
- Puta merda, tem mais de 20 mil pacotes aqui! Esse viado sabe quem roubar.

Medroso diante do fato.

- Olha senhor, nem quero saber desse dinheiro. Nem abri a bolsa pra ver o que era...a única coisa que eu quero é ver minhas criança...tenho mulher e ganho pouco pra criar, sô honesto viu...
O polícia interrompe o prolongado e trêmulo discurso:
- Esquenta não, colega. A gente já sabe da história, vamos pra dentro.
 
O travesti foi enjaulado. Dormiu num arem com 27 homens. Noitinha boa, acordou assado.
Liberado pra dormir com a esposa, José soube dias depois que Roberta voltou ao HC.  Generoso o homem, foi vê-la noutro dia. Encontrou, sim, médico afetado com as mesmas olheiras. Do traveco nada, sumiu dali fugido; José deixou quieto, de problemas chega e o sapato scarpin resolveu no Tietê.
Sabe-se que a maquiagem de Roberto estampa o pára-lama da caminhonete até hoje. Manchou beirada do quebra-vento também,  o vermelho gritante nem aguarrás tirou.
José cumpriu talão direitinho e subiu de posto. Esquecera das rondas no Centro e agora carrega um radinho. Se bem que, vira e mexe, diz ele,   retorna-lhe a imagem de um dos polícias daquele plantão. Mulher no gênero, masculina de tudo, de cabelinho batido e buço evidente.
Tira o trabuco da cinta na chegada de Roberta à delegacia.
 
- Ô delegado. Quer que eu acabe com mais essa bicha? Não é de hoje, você sabe, eu adoro essa raça.
- Feriado amanhã, Tavares, manéra...
Michell Niero
Enviado por Michell Niero em 21/03/2008
Código do texto: T910107

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Sobre o autor
Michell Niero
Osasco - São Paulo - Brasil, 35 anos
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Michell Niero