O HOMEM QUE SEMPRE AMEI

Ah, como era bom olhar para o rosto dele… Tantas vezes fiquei na janela do meu quarto, sozinha, escondida atrás das cortinas, esperando que ele passasse.

Todo o final de tarde ele passava por debaixo da minha janela, na cidade onde nasci, lá no interior do interior. Eu deveria ter uns quinze anos. Bobinha, inocente, acreditava em amores eternos. Meu amado era bem mais velho. Uns dez anos mais ou menos. Ele trabalhava no cartório. Era solteiro. Tinha boa família. Eu o conhecia desde pequena, mas só tinha me apaixonado por ele depois de maiorzinha. Pelo que eu soubesse, ninguém lá em casa tinha a mais leve suspeita que eu estava amando. O fato de eu ficar na janela de manhã e no final da tarde era algo que meus pais consideravam normal.

Sonhava com ele quase todas as noites. Sonhos encantados, coisas de mocinha mesmo. Eu me acordava enlevada, cada vez mais apaixonada. Então, me arrumava correndo e ía para a minha janela. Ele apontava na esquina e vinha caminhando, elegante, de chapéu, bem vestido. Meu coração palpitava, eu suava, a palma das minhas mãos ficavam molhadas também. Mas eu era tão tímida que me escondia e ele, bem, ele nem sabia que havia uma menina que o observava tão fascinada.

Eu tinha uma irmã mais velha, de dezoito anos e que já estava na idade de casar. Ela não era tímida como eu. Pelo contrário, era uma garota falante, carismática, que fazia amizade fácil. E um dia descobri que ela e o rapaz que passava por debaixo da minha janela todos os dias eram namorados.

Foi um choque. Chorei de tristeza. Ao contrário de mim, que sonhava acordada e dormindo, minha irmã agiu. E agiu tão rápido que conquistou o moço. Ele passou a freqüentar a minha casa e era comum encontrá-lo na sala de estar todos os domingos à tarde. Embora eu inventasse casualmente alguma coisa para não estar por perto, nem sempre era possível fugir de alguns encontros familiares. Perdi a conta de quantas vezes meu olhar se perdeu no rosto dele e se afogou em sua voz cristalina, Ah, era tão bom olhar para ele.

Eu sabia que não era o certo, mas eu rezava todas as noites para que eles se separassem. Porém, minhas preces fizeram o efeito contrário e meu amor – que agora era meu cunhado – não demorou muito e pediu minha irmã em casamento. Fiquei dois dias de cama.

Para encurtar a história, eles casaram. E eu também, uns três anos depois. Tentei ser feliz do jeito que deu. No final de algum tempo, já bem adulta, me separei do meu marido. Minha irmã, pelo contrário, continuava casada e feliz.. Feliz com o homem que uma garota de quinze anos tinha escolhido para ser seu.

Não era para ter sido mesmo… Tive vários homens e não amei nenhum. Ela, a minha irmã, continua casada com ele até hoje e são tão felizes que chega a doer. Mas eu não precisava tanto… Só queria ter o homem que sempre amei todinho para mim.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 12/04/2008
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