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A MENINA E O POETA VI - Anúncio de Jornal

VI
Anúncio de Jornal

A determinação da menina em encontrar o poeta estava calcada em sua vontade suprema de estar ao lado dele. Ela sentia quase que uma necessidade vital de respirar o mesmo ar que o poeta. Queria fazer parte daquele universo lírico que compunha não só a ficção do poeta, mas o seu mundo real recriado pela literatura. O poetinha já se tornara uma presença mística na vida da menina.

Além disso, a decisão da menina por encontrar o poeta tem tudo a ver com o seu estado emocional. Precisa vê-lo. Quer desfrutar de seu olhar, seu sorrir, seu tocar. Esse encontro, a seu ver, é fundamental para determinar se está mesmo gostando dele ou não. É por isso que pesquisa por todos os meios, e mesmo esbarrando em dificuldades, está resoluta.

Vale dizer, nesta altura, que Aninha, embora não fosse rica, possuía uma situação sócio-econômica privilegiada, pois não precisava se preocupar com questões materiais. Vivia debaixo de certo conforto; era mimada em seus desejos extravagantes; sorria para a vida, que gargalhava para ela. No meio desta aparente tranqüilidade material, ela encontrava tempo para cuidar das coisas do espírito: ler bastante, pensar, refletir e escrever.

Ao tempo em que estudava num conceituado colégio particular no período matutino, dedicava suas tardes e noites às leituras e também à sua incessante busca do poeta de sua predileção. Não faltavam profundas inserções nas páginas literárias do poetinha, onde mergulhava em profundidade na tentativa de absorver aquele mundo tão encantador pelo qual se deixara seduzir.

Uma certa tarde se achou na balbúrdia humana e livresca da Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Ali, absorvida pela magia da literatura, percorreu stands, visitou exposições, participou de debates e lançamentos, ouviu atentamente escritores e editores falarem de seu ofício e, acima de tudo, confirmou seu intento de nunca abandonar o binômio leitura/escrita, pois faria dele sua razão de viver.

O mega espaço do Riocentro, em Jacarepaguá, tornara-se pequeno para tanta gente e tanto livro, que se misturavam misticamente numa simbiose cultural de forte apelo emocional. A menina estava encantada com o mundo fantástico da literatura. E foi participando de uma homenagem a Mário Quintana, num dos stands da Bienal, que Aninha julgou ter visto alguém familiar. Um vulto se esgueirou por detrás da mesa redonda de poetas que recitavam e comentavam poemas do “poeta das coisas simples”.

Enquanto ouvia a leitura do canto I de “A Rua dos Cataventos” a imaginação criadora da menina viajava pelo mundo encantado da poesia. “Escrevo diante da janela aberta / Minha caneta é cor das venezianas: / Verde!... E que leves, lindas filigranas / Desenha o sol na página deserta!” E seu pensamento voava para além da janela da vida em busca do sonho de encontrar o poetinha de seu coração, enquanto ouvia as lindas palavras da verve de Quintana a assoprar em seu ouvido: “Não sei que paisagista doidivanas / Mistura os tons... acerta... desacerta... / Sempre em busca de nova descoberta, / Vai colorindo as horas quotidianas...” E nada, nem ninguém naquele momento, poderia retirar Ana Luíza da janela mágica da literatura e do amor na qual entrara de forma intensa...

O declamador continuava sua interpretação de Quintana, tendo por fundo um play back de orquestra que realçava a beleza do soneto e a menina continuava seu transe emocional: “Jogos da luz dançando na folhagem! / Do que eu ia escrever até me esqueço... / Pra que pensar? Também sou da paisagem...” E assim como o poeta em seus versos vai se imiscuindo na paisagem e fazendo com que ele, a natureza e a palavra se tornassem uma unidade indivisível, a menina também perde a noção de tempo e espaço e transita leve e solta no mundo imaginário da poesia e do amor que aquele instante mágico lhe proporciona: “Vago, solúvel no ar, fico sonhando... / E me transmuto... iriso-me... estremeço... / Nos leves dedos que me vão pintando!”

É exatamente neste instante de plena identificação com o mundo à sua volta, recriado pela poesia, que Ana Luíza julga ver um vulto no tablado de artistas da palavra onde são declamados e comentados os versos de Mário Quintana. Seu coração dispara! “É ele!” Julga ver Alex Guima no meio daquela gente e seu coração se preenche de uma alegria inaudita. Ela quer alcançá-lo com o olhar, quer uma identificação rápida para não perdê-lo de vista, e esforça-se para chamar a atenção do moço distante, separados que estavam por uma pequena multidão que se aglomerava no auditório de seminários da Bienal. Mas a barreira mais forte que Aninha precisaria vencer era a da timidez. Para que ela pudesse chamar a atenção do poetinha e demonstrar que desejava um encontro, precisaria gritar, e muito, e mesmo assim sem qualquer garantia de que seria ouvida, pois a distância e o burburinho eram intensos. Mas esta ousadia, e a perspectiva do fracasso, era tudo o que ela não queria diante de sua famigerada introspecção.

Enquanto pensa e tenta agir, a menina pelo menos encontra forças para deslocar-se no meio daquela gente e ir até o local onde divisara o vulto que julgou ser Alex Guima. Quando finalmente aproxima-se do palanque, dá-se conta, decepcionada, que ele não está por lá. Uma dúvida cruel sobre se realmente tinha visto o poetinha, ou tudo aquilo tinha sido fruto de sua imaginação por conta da ansiedade de encontrá-lo, tomou de assalto a menina. Ela, porém, concluiu convicta, para seu desprazer, que realmente o tinha visto, e que o que tanto almejara, escapara-lhe como água por entre os dedos depois de quase estar ao alcance das mãos e de seus lábios ardentes.

Para tentar amenizar sua frustração, a menina passa por stands, adquire livros às mancheias, e num consumo compulsivo, tenta descarregar toda a tristeza daquele momento em que esteve tão perto de realizar seu sonho e deixou-o escapar. Como ela se recriminava por não ter feito algo mais naquele momento em que saindo do transe poético viu Alex Guima transitando no stand. Além dos livros que adquiriu, ainda passou por stands oficiais do governo e pegou exemplares gratuitos de livros de Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, patrocinados pelo Ministério da Educação através do FNDE/PNBE, programa do Governo de disseminação da literatura brasileira.

Quando chegou a casa já no meio da noite, a menina estava emocionada por tantas experiências vividas. O taxista que a deixou em frente ao seu apartamento em Ipanema, tentava entender o que se passava por trás dos olhos brilhantes e do rosto fulgurante da menina que parecia ter visto um pássaro azul voando baixo e trinando harmoniosas melodias.

Tomou um banho reconfortante, ajeitou os novos volumes em sua biblioteca particular e após um lanche deitou-se para dormir e pensou em como aquele dia tinha sido vivido intensamente. Não sucumbiu ante a frustração de não ter podido falar com o poetinha, porém, viu no episódio a demonstração de que é possível encontrar-se com alguém mesmo que se esteja procurando um ser entre milhões. Não há barreira que o amor não vença, estava aprendendo a pequena Aninha, mesmo que às duras penas.

No outro dia, quando acordou e se preparava para rumar para a escola, não se sabe por qual razão do destino, resolveu pegar o exemplar do jornal que o seu pai recebia por assinatura e levá-lo consigo. Era um sábado. A escola estava ministrando aulas também aos sábados para repor tempo perdido com interferências nocivas do governo sobre a Educação. Estava trafegando em trem do Metrô e compulsando o diário, quando se manifesta de forma expansiva, contrariando sua própria estrutura emocional. Ali estava um anúncio que resolveria definitivamente a sua angústia existencial dos últimos meses.

Falar que ela já estava quase desistindo da busca, pois já não acreditava na real possibilidade de reencontrar o poetinha, talvez não seja o mais correto, pois o episódio do Riocentro lhe havia reabastecido as esperanças apesar da frustração. Agora, o que lhe acontece dentro do vagão do Metrô do Rio de Janeiro é simplesmente uma recarga explosiva de esperanças. O jornal traz anúncio de lançamento de livros em caderno literário, e, aquela edição do jornal de grande circulação dá conta de lançamento de livro de poesia de Alex Guima apresentado ao grande público carioca pela promoter curitibana Sandra Carvalho, tendo como participação artística da cantora brasiliense Nalva Star e produção da manauara Mhayah Bahvatkxy. O evento vai acontecer naquela noite. Ela não pode perder. Vai ter que dar um jeito de inventar uma história para dormir na casa de uma amiga e passar a noite no sarau literário.
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 06/03/2007
Reeditado em 10/04/2007
Código do texto: T402780

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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 47 anos
177 textos (117624 leituras)
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