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O Vale das Almas - Cap. 01 - Um Viajante no Vale

Planícies altas de Quiméria, vasta região entre Thades e Eleonor, cujas fronteiras são demarcadas por um tranquilo vale cercado por uma magnífica floresta. A Flór Lun, na língua dos nativos que povoavam a região, ou Floresta das Luas, como é atualmente conhecida, se destaca pela grande quantidade de fauna e flora, onde a liberdade reina e os habitantes da floresta vivem em harmonia. Lugar cheio de árvores altas e aves raras de mais pura melodia. Rios e afluentes cortam as matas com suas lâminas d´água cristalina, frutas maduras fornecem alimentos aos mais diversos animais. A influência humana ainda não alterou a ordem deste paraíso inimaginável entre dois dos maiores e mais poderosos reinos, a não ser por uma pequena construção fortificada existente em seu interior, no vale que nela se esconde.
No centro da floresta está ele, de uma beleza tão grandiosa quanto misteriosa. O Vale de Arond divide imponentemente a região, suas árvores são finas e com poucas folhas, alguns animais residem nele, mas apenas bons observadores podem encontrá-los. O silêncio aqui fez morada e pode–se ouvir o som das folhas caindo ao chão. No vale o dia brilha intensamente, existem diversos locais de puro encanto que proporcionam confortáveis descansos, alguns riachos de águas transparentes correm livremente e campos floridos podem ser vistos junto a pequenos conjuntos de pedras.
O pôr do sol chega a ser considerado uma obra dos deuses. Os riachos refletem os raios dourados, dando impressão de verterem ouro. As sombras formadas pelas árvores realizam uma dança encantadora à medida que o sol repousa no horizonte, cedendo lugar a escura noite.
Mas nesta noite, o silêncio troca de lugar com sons vindos de passos lentos de galope.
Este é o menor caminho entre as capitais dos dois estados vizinhos e é de espantar que ainda não exista uma estrada que corte o vale e a floresta. Todos preferem o Caminho da Volta, estrada que se estende por quilômetros ao sul, contornando a orla da floresta. Mas, eventualmente, o tempo de alguns pode ser curto e a pequena Trilha das Luas seria o menor caminho a pegar. E quem se aventurasse ainda seria recompensado com o mais belo fim de tarde de toda Quiméria.
Um viajante solitário presencia deslumbrado todo o esplendor ao seu redor enquanto penetra cada vez mais fundo no vale. A noite toma o seu lugar e encobre a região. O céu estrelado e suas duas luas iluminam o caminho e o viajante segue acreditando nas histórias de que esta região é desabitada, mas ele encontra mais confiança nas suas vestes reforçadas por placas de metal, na sua espada já um pouco gasta que repousa em uma bainha em sua cintura e em sua experiência com ela. Uma bolsa pequena guarda poucos pertences. Seus olhos permanecem fixos na estrada. Apesar da noite estrelada, o vale está envolto na mais completa escuridão. A tranquilidade do lugar causa certo incômodo, pode-se ouvir qualquer som, mas alguns podem não ser bem vindos.
Uma névoa fina traz consigo um frio que obriga o viajante a parar, seu cavalo deve descansar e ele se aquecer. Pensamentos invadem sua cabeça e o deixa atento, inclusive após as histórias contadas que explicam por que o vale é desabitado. Gravetos e troncos são transformados em fogueira. O som da madeira queimando quebra um pouco a tranquilidade perturbadora e o fogo revigora o viajante e sua montaria. Já passava da metade da noite, mas o homem continuava com o olhar ativo. Estrategicamente escolheu um local cercado por folhas secas, um alarme natural que indicaria a aproximação de qualquer coisa, mas isso não o tranquiliza. Em sua cabeça ferviam as lendas ouvidas por todas as planícies altas, ele nunca acreditara nelas, mas o vale era tão parecido como nos contos que acaba despertando uma realidade que aparentemente não existe.
– O que é isso? – pensou em voz alta o viajante – Estou perdendo meu tempo com contos de bêbados?
Ttentou ocupar a mente com coisas mais sólidas, afinal, o que poderia acontecer em uma região isolada onde não mora ninguém? A última pessoa vista foi há quase um dia, na Vila da Colina. Poucos animais, e de pequeno porte, não causariam nenhum problema.
– Não. Estou me deixando influenciar por estas histórias.
Suas mãos buscam na sacola um pedaço de carne seca e um cantil com um pouco de vinho. Seus pensamentos correm para o reino de Eleonor, onde espera ganhar algum dinheiro se alistando como soldado temporário. Pegou-se pensativo novamente.
  – Por que aquele homem se enforcou logo após sair correndo deste vale? O que teria ele visto?
Seu olhar percorreu ao seu redor. As árvores parecem esconder segredos, todas a uma distância quase idênticas umas das outras, formando colunas naturais no meio do vale. O labirinto de troncos e galhos parecia ganhar vida com a neblina fina e fria que deslizava sobre o solo. Lento. Silencioso. Uma expressão de desconforto pôde ser notada no rosto do viajante, que tentou desviar a atenção olhando para o céu estrelado e contemplando as duas luas que brilhavam sobre a clareira. Tentou pensar em outro lugar.
Volta a atenção para o fogo que assa um pedaço de carne. Concentra–se na dança das chamas quando seu corpo para, congela. O sangue foge das veias. Seus músculos não respondem. Seu coração acelera. Silêncio.
Sentado em frente à fogueira, o viajante fica imóvel. Tentou gritar, mas a voz teimou em não sair. Seu braço não atendeu ao comando de sacar a espada e sua respiração quase termina. Silêncio. Nenhum som, nenhuma batida de asas, nenhum movimento nas folhas, nenhuma alteração no vento, nada.
Certos pensamentos podem criar ocasiões inesperadas, mas ele sabia que isto não foi imaginação, embora preferisse acreditar que sim. Nada, em toda sua vida, foi tão real quanto o toque gélido sentido em seu pescoço e a forte impressão de algo em pé as suas costas. Como pôde chegar tão perto sem o menor ruído? Quem era? O que era?
Sua mão trêmula alcança o cabo da espada, seria um golpe rápido e fácil, mas a hesitação o impede. Não pelo fato de ferir alguém, ou não ter coragem para isso, mas sim o que ele encontraria ao se virar e atacar. Uma respiração profunda serve de combustível para um grito com um misto de fúria e medo. A lâmina deixa perfeitamente seu descanso e corre no ar procurando repouso no corpo de algo as suas costas. Um movimento rápido e o viajante põe–se de pé virando para encarar o perigo, mas, para seu espanto, contempla apenas a lâmina cortando a fina neblina.
Com os olhos espantados ele procura por algo que não sabe o que é. Seria tudo verdade? Sua cabeça procura em todas as direções, mas nada pôde ser visto. Desesperado, tropeçou na fogueira que parecia rir de sua aflição. Gravetos em chamas são espalhados pelo chão enquanto o viajante tenta levantar–se. O fogo já não iluminava mais como antes. A penumbra torna–se maior. Sua montaria começa a agitar–se, tentando se libertar das amarras.
Caído, e segurando a espada com força suficiente para amassa-la, o viajante tenta encontrar uma explicação, mas as únicas imagens em sua mente o deixam mais assustado.
Tudo começou com aquele forte, era mais fácil antes dele. Quando o avistou ao longe, antes do anoitecer, seguido por um uivo distante, começou a lembrar dos contos sobre este lugar. Lembrou-se de quem viveu ali e o que ele fez. Não era realmente um forte, e sim uma casa cercada por um muro feito de madeira e barro, ao seu lado corria livremente um riacho e bem próximo existia um pequeno arvoredo onde se podia colher vários tipos de frutas. Seus olhos acompanharam atentamente a casa, quando ela se aproximava e quando se afastava e sumia no horizonte. Não acreditava nas histórias, nem pensava nelas, mas lá estava a casa, como nos contos. Real.
Permaneceu quieto e pensativo desde então, questionando-se da finalidade de uma casa reforçada por muros em um vale onde não se encontra perigo. Tentava encontrar uma explicação diferente das contadas.
– Aqui deve existir alguma mina de pedras preciosas ou algo parecido. – refletiu por um tempo. – Se existe algo valioso aqui, porque não construíram um forte de verdade?
A vontade de encontrar uma explicação para os fatos permaneceu em sua cabeça e, mesmo contra sua vontade, ele sempre comparava com as lendas do local.
– Será mesmo que ele viveu naquela casa? E a garota? Será tudo verdade?
Assustado, o viajante arrastava–se ao chão. Seu cavalo indomável. A iluminação cada vez mais precária, e em seus pensamentos apenas o toque gelado sentido momentos antes. Seriam fantasmas? Demônios? Sua imaginação? Deveria ter voltado logo quando viu aquela casa solitária no interior do vale, mas seria inaceitável, e também vergonhoso para alguém que já enfrentou tantos perigos como ele. Pelo menos não teria que concluir que este lugar é amaldiçoado, ou que um forte feitiço reside aqui, ou seria um portal para outras dimensões? Não importa a sua conclusão, ele está sozinho no coração do vale e descobrindo, da maneira mais difícil, que algumas lendas são verdadeiras.
O viajante levanta-se com dificuldade, o corpo mal respondendo. Sua voz sai fraca e trêmula quando tenta se questionar sobre o que ocorreu. As árvores pareciam se mover, as chamas apagavam–se como se consumissem sua vida. De pé, com o pensamento confuso, tentou se controlar e andar até sua montaria. Passos lentos, quase arrastados, insistem em prosseguir, mas são interrompidos quando ele sente, novamente, a forte presença de algo se movendo bem próximo. Um grito ensurdecedor deixa sua garganta enquanto a espada golpeia em todas as direções, refletindo seu estado de completo desespero.
Os movimentos são desordenados e alguns o levam ao chão e mesmo assim não param de ser repetidos. A noite engole os últimos sinais de fogo restante, a única fonte de luz que ainda transmitia alguma esperança ao viajante, mergulhando o vale na mais completa escuridão, devolvendo-o ao seu estado original, onde a tranquilidade perturbadora e o frio cortante dominam o lugar.
Ajoelhado, ofegante, com os olhos fechados, escutando apenas o som da luta entre a única companhia visível e as cordas que a prendem, ele pôde ter um breve momento de lucidez.
– O quê estou fazendo? – disse baixo – Como posso perder o controle assim? Estou impressionado demais com estas histórias e me deixando levar por elas. – encheu novamente os pulmões de ar – Não posso me desesperar assim.
Com a experiência que possuía, não seria aceitável tais atitudes. Já vira muita coisa estranha e sobrevivera para contar as glórias. Provavelmente o homem que se enforcou ao sair deste vale não tinha nem metade das andanças vividas pelo viajante.
Controle, esta é a meta da vitória, da sobrevivência.
Abriu os olhos lentamente tentando ignorar tudo a sua volta. Olhou de um ombro ao outro, mas nada foi visto. Virou-se em direção ao cavalo que já apresentava marcas de sangue onde a corda mantinha contato com seu pescoço e tornou a percorrer toda a área com um movimento de cabeça. Não havia nada tangível por perto.
Certamente sua montaria se assustou com os movimentos inesperados de combate realizados por ele. Vencendo o tremor em suas pernas, o viajante caminhou estendendo as mãos para acalmar seu companheiro.
– Calma, meu amigo, pra que tanto medo? Não existe nada aqui, parece até que...
Subitamente seu sangue gela. Agora entendera o porquê da incansável luta para se libertar travada entre o cavalo e as cordas. Ao aproximar-se para acalmá-lo, pôde ver algo que estava querendo esconder, algo que não queria acreditar, mas que agora não poderia negar. Uma garota com um longo vestido branco e compridos cabelos negros que se lançavam lentamente ao ar e embalados pelo vento frio que soprava no vale.
Viu-a mover-se lentamente por entre as árvores, dando a impressão de que, às vezes, sumia e reaparecia pouco mais à frente. Com leves movimentos dos braços e da cabeça, ela parecia procurar algo, ou alguém.
Com os olhos fixos na garota, o viajante esqueceu a montaria que se debatia contra sua prisão e, hipnotizado com o que estava diante dos seus olhos, caminhou até onde, há pouco tempo, existia uma fogueira. Sem pensar em nada, ele apenas ficou contemplando a imagem se distanciar vagarosamente.
Sem acreditar no que via, o viajante permaneceu imóvel, com o olhar fixo no vulto que se movia por entre as árvores, até que, subitamente, ela some.
O choque do desaparecimento repentino da garota pareceu acordá-lo e uma sensação estranha tomou conta do seu corpo, fazendo–o tremer por inteiro.
Balbuciando palavras se sentido, o viajante começou a procurar, desesperadamente, em todas as direções pela localização da garota.
– Não po... de ser verdade.
Em poucos segundos todas as histórias e lendas contadas sobre o vale começaram a tomar forma em sua mente como se fosse um filme: a floresta; o vale; a casa fortificada; o homem que enlouqueceu e atacava a todos que se aproximavam; e agora, essa visão.
Toda esta enxurrada de imagens girando em sua cabeça fez o viajante cambalear e cair em uma terra fria, espalhando folhas e cinzas de uma fogueira já extinta.
Com a boca seca e todo banhado de suor, o homem solitário no vale tentou reunir forças para levantar-se, mas, para sua infelicidade, encontrou a localização do vulto. Seus olhos cruzaram com o olhar vazio e triste da garota que o olhava quase toda encoberta por uma árvore.
Seu coração bateu tão forte que chegava a causar dor em seu peito. Com um salto ele se levantou, e caiu novamente, tentando se arrastar à medida que a garota deixava seu esconderijo e começa a deslizar, como se estivesse flutuando, em direção ao viajante. Ela pronuncia algumas palavras que não conseguiam ser ouvidas ou entendidas.
Um grito ensurdecedor pôde ser ouvido até mesmo na floresta, seguido de passos rápidos e desengonçados. Entre quedas sucessivas, o solitário viajante sumiu na escuridão, deixando para trás todo o seu equipamento e aumentando o número de pessoas que encontraram os moradores que vagam pelo vale.
Fabrício C Luna
Enviado por Fabrício C Luna em 11/03/2007
Reeditado em 03/10/2014
Código do texto: T409314
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Fabrício C Luna
Recife - Pernambuco - Brasil, 44 anos
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