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"Um beija-flor"

Eu viajei nas asas de um beija-flor, recolhi do rio pequenas go-

tas de água e saciei minha sede, suguei o néctar de uma flor e des-

cansei num galho de uma Paineira. Recolhi gravetos do chão e cons-

trui meu ninho, fiz do beija-flor o meu único amigo.

Certo dia, acordei cantarolando e senti sua ausência. Já era

tarde e eu já deveria estar alimentando os humanos com o meu can-

to, feito de improviso. Olhei para os lados e não o vi, abaixei minha -

cabeça pequenina, e num galho abaixo, da mesma Paineira, eu o vi -

todo feliz, pulando de um lado para o outro e cantarolando sem parar.

Fiquei aliviada em perceber que estava tão próximo de mim,

mas ao voltar meus olhos para o outro lado, percebi o motivo aparen-

te de sua felicidade: um beija-flor fêmea!

Chorei durante horas, derramei todas as minhas lágrimas até

encharcar todo meu ninho. Durante o dia, nem água do rio eu fui be-

beber, não suguei o néctar da apetitosa flor e nem aos humanos eu -

alegrei, mas eu também era um humano...

Meus dias tornaram-se solitários, eu não voava mais, não can-

tava e nem sorria. Andava (e não mais flutuava) sempre de cabeça -

baixa, rastejando meus passos que se tornaram insólidos.

Certo dia, estava eu debaixo de uma roseira, cochilando como

morimbunda quando senti de leve o pousar do meu amigo beija-flor.

Olhou-me com tristeza e ainda jogou-me água no rosto,em minha

boca, o néctar da flor repousou e me fez ouvir o seu melodioso canta-

rolar. Levantei-me, estendi minhas pequenas mãozinhas e o confortei

com repouso. Ergui meu braço, proporcionando-lhe altura e neste exa-

to momento o meu amigo vôou.

Depois daquele dia, para casa retornei. Não no galho da Painei-

ra, que lá eu deixei. Aprendi com o beija-flor o valor maior que tenho:

minha liberdade, o meu vôo irei seguir... aqui ou alí, cantando aos qua-

tro ventos e repousando meu desalento. Na desordem deste mundo -

que a todo tempo se desconcerta, vou escrevendo minha história, em

tintas coloridas para mais beleza proporcionar, pois o canto da tristeza

eu jamais irei recordar.
Anita Fogacci
Enviado por Anita Fogacci em 06/07/2007
Reeditado em 10/01/2008
Código do texto: T553960


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Sobre a autora
Anita Fogacci
Cabreúva - São Paulo - Brasil, 48 anos
534 textos (40516 leituras)
1 e-livros (267 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/05/21 14:32)
Anita Fogacci