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O sonho

O SONHO

Eu sonhei que nós dois nos esbarramos, no centro da cidade, numa tarde de verão. Já havia dez anos que eu não o via. Estava mais magro e com menos cabelos que da última vez, mas seus olhos verdes tinham um brilho zombeteiro e seu sorriso largo me mostrou a alegria com o nosso encontro.
- O que traz você, uma aposentada da zona sul, neste reduto de trabalhadores e ainda mais em pleno verão?
- Problemas com advogado, respondi.
- Posso lhe ser útil em alguma coisa?
- Que eu saiba, sua especialidade não é vara de família.
- Você está se divorciando?
- Não. Nem me casei. É um caso de herança e guarda de menor.
- Quem morreu, para deixar herança?
- Meu irmão e estou tentando a guarda de meu sobrinho, uma vez que a mãe é uma irresponsável, que ele tirou da rua e ainda fez a besteira de se casar com ela.
- E você, sem se casar, vai ter um filho? Embora, nos dias de hoje, isto já seja tão comum quanto no casamento. Achou a solução para seu problema? Quer dizer com o advogado?
- Talvez. E você trabalha aqui por perto?
- Tenho um escritório naquele edifício em frente. Vamos até lá tomar um café e colocar a conversa em dia?
- Não posso. A entrevista com o advogado demorou mais do que eu pensava e preciso voltar para casa, porque deixei o meu cachorro sem comida, nem água. E neste calor o bichinho deve estar morto de fome e sede.
- Seu sobrinho já está morando com você?
- Não. Depois da morte do pai ele foi para a casa de minha tia porque, para variar, a mãe dele estava viajando.
- Então na sua casa há somente um cachorro com fome e com sede?
- É. Porque?
- Então eu me convido para um café na sua casa. Que tal tomarmos um táxi e irmos salvar o pobre cão?
- Você ficou mais rápido e com o passar do tempo, mudou o tom de seus convites?
- Você já ouviu dizer que a felicidade só bate uma vez na sua porta e, se não abrir, perde a oportunidade da sua vida?
- Que história é esta de felicidade bater à porta? Você está vendendo algum produto que quer que eu compre?
- Eu me tornei rápido e você desconfiada. Você não é mineira, é?
- Claro que você sabe que sempre fui "garota de Ipanema", não com o corpo e a cara da musa inspiradora, mas esta sempre foi e é a minha praia.
- Então qual é o problema de me convidar para um café?
- É que...
Ele não deu tempo para que eu respondesse e fez sinal para um táxi que passava. Sem conseguir evitar o auto convite, já que ele entrara no veículo, fiz o mesmo e dei ao motorista o meu endereço. Durante o trajeto, os questionamentos deram uma trégua e a conversa girou em torno da alta temperatura na cidade e em todo o planeta; na falta de chuva, o que agravava o problema dos reservatórios; a necessidade de ar condicionado, que passou a ser o eletro doméstico de maior consumo no Rio de Janeiro; o último escândalo da Câmara dos Vereadores; a ocupação das praias pela Prefeitura, transformando um espaço público de lazer em palcos para grandes eventos; as peças em cartaz e os últimos lançamentos de "filme cabeça". Muita coisa do tempo do nosso relacionamento veio à tona e ambos reconhecemos que tínhamos bastante coisa em comum e, ao mesmo tempo, não nos questionávamos abertamente o porque do rompimento súbito. Havíamos formado uma dupla divertida e freqüentadora das baladas e eventos da época. Eu, em pensamento, enquanto ele continuava a conversa oca, me perguntava se fora eu prepotente, cobradora e exigente. Se um pouco de compreensão e paciência, de minha parte, teria mudado o rumo de nossas vidas. Neste momento, parei de pensar e voltei à realidade e ouvi que ele dizia:
- ... foi por isto que meu sócio e eu desfizemos a nossa sociedade.
Eu não quis demonstrar que não escutara o começo da frase. Ao mesmo tempo sabia que ele esperava um comentário meu. O que dizer? Não falei nada e preferi rir. Quis dar a impressão que isto era uma coisa boba; que não desse tanta importância ao que acontecia freqüentemente em nossa vida.
- Você não era irônica. O que a tornou assim?
- Não estou rindo de você. Estou rindo da importância que você está dando a um desfecho tão comum.
- Você considera que desfecho, seja ele qual for, é comum, corriqueiro?
Fiquei sem graça, me senti uma boba e gaguejei um não; mas sem muita convicção. Neste momento, em que não saberia como continuar a conversa, o motorista parou diante do edifício onde eu morava. Ele pagou o táxi e entramos no prédio. O porteiro entregou-me a correspondência e nos dirigimos ao elevador. Abri a porta do apartamento e, já na sala, para quebrar o gelo, perguntei:
- Quer um whisky ou uma cerveja gelada?
Ele entrou no clima de descontração e optou pela cerveja. Fiquei contente de, na véspera, ter sentido uma intuição e ter comprado um engradado, em vez de uma ou duas latinhas. Coloquei uma música do nosso tempo (eu só tinha CD de nossas músicas, porque ele tinha sido meu último relacionamento) e acompanhei-o na bebida. Voltou a alegria e, como ele não conhecia minha nova morada, levei-o até à varanda, onde a brisa do mar soprava à tardinha. Meu cachorro, no primeiro momento que o viu, ficou parado, imóvel. Nem as brincadeiras ordinárias quando eu chegava ele fez. Parecia estudar o visitante, avaliando se era amigo ou inimigo; se seria um concorrente à minha atenção ou mais alguém para brincar com ele. Quando fomos para a varanda com a bebida, ele chegou à conclusão que era tudo lucro: eu estava em casa e o desconhecido não parecia oferecer perigo. Deitou-se aos meus pés. Depois de um certo tempo e várias latas de cerveja meu visitante queixou-se de uma dor no pescoço. Tinha estado o dia todo muito tenso, comparecido a uma audiência no fórum e, este momento de descontração, provocara este desconforto. Ofereci-me para fazer uma massagem. Disse-lhe que eu me tornara boa nisto. Ele aceitou. Voltamos à sala e, enquanto eu ia buscar um creme, ele tirou o paletó, a gravata e a camisa. Tomei um susto quando o vi assim, mas não falei nada. De pé, atrás dele, que sentara no sofá, comecei a massagear o pescoço e os ombros. Estavam realmente muito rígidos. Ele gemia e vi que encontrara os pontos certos para esfregar. Quando sentia que os primeiros nós estavam se dissolvendo, passava para outro lugar e recomeçava a massagear. Ele deve ter sentido a melhora e perguntou se não seria mais fácil fazer a massagem com ele deitado na cama e eu sentada a seu lado. Concordei e fomos para o quarto. Felizmente antes de ir para a cidade eu havia feito a cama e arrumado as roupas, que usara na véspera. Estava tudo em ordem. Ele deitou-se de bruços e sentei-me ao lado, para recomeçar a massagem. Já anoitecera e acendi um abajur na mesinha de cabeceira. Não demorou muito esta etapa. De repente, ele virou-se, apagou a luz e me abraçou. Com o braço nas minhas costas, puxou-me para deitar a seu lado. Começou a tirar a minha blusa de malha. Tomei um susto com a mudança de rumo no nosso comportamento. Era difícil de acreditar no que estava acontecendo. Não me preparei para tal coisa. E agora? Ia reviver toda a dificuldade do passado? Não. Não pensaria em amanhã ou em ontem. Entreguei-me completamente ao hoje; aproveitei a decisão que ele tomara e eu aceitara. Foi muito melhor que das outras vezes. Parecia que ele era outro homem. E era. Cansados, de madrugada, ainda abraçados, fechamos os olhos e eu dormi. Dormi e sonhei que nós dois nos esbarramos, no centro da cidade, numa tarde de verão...

Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2007

Gilda Porto
Enviado por Gilda Porto em 31/08/2007
Código do texto: T632918
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Gilda Porto
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