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- Vamos por partes! - o seu ar de homem decidido soltava-se por fim -

- Vamos lá então! - dar as mãos e falar assim de frente eram um exclusivo que ela tinha com ele, mais nenhum homem a fazia sentir o amor por via das mãos, de um simples olhar, terno, de uma doçura quase infantil. E sorria, encantada. Sorria!

- Eles vão-te dizer os preços às prestações e tu vais-me fazer o favor de pedir o valor total! - punha um certo ar autoritário, mas o brilho que lhe emanava do corpo era sempre o mesmo e ela sentia-se impelida a fazer o que ele lhe dizia -

- É claro que vou - dando-lhe um beijo na cara - e tu vais estar lá para me dar as aulas! - ela brincava, mas deixava-a nervosa só a simples hipótese de pensar que ele não ia estar lá. Ele que era o seu irmão perdido no tempo -

- Não se trata disso. Vais saber o preço do que é obrigatório. Depois tens de ter em atenção que pode ser sempre preciso algo mais...

- Ai essa conversa! Sabes que o meu orçamento é apertado - a tendência para pensar em actos menos lícitos era algo normal em toda a gente, ela não fugia à regra -

- A quem o dizes! Mas tudo depende de ti e da forma como absorveres os ensinamentos - ele ria-se, enquanto lhe passava as mãos pelo cabelo, enquanto aguardava pacientemente que ela se decidisse de uma vez por todas a encará-lo como homem para lá do carinho que se tem por um irmão -

- Sim querido, sim! - virando-se para outro lado - Vamos andando, está muito calor aqui!

- Vamos linda! - como lhe fascinavam os pequenos movimentos tão característicos dela, os seus trejeitos que o punham no céu, a forma como dizia as palavras, tinha alturas que se deleitava apenas a ver os seus lábios mexerem, apenas queria ver os lábios movimentarem-se saindo melodias inebriantes de encanto total. Nessas alturas sentia-se um homem afortunado para lá dos limites!

Quem os visse com um pouco mais de atenção apenas poderia sublimar a pureza de um amor que parecia nem sequer ser real, tal a intensidade de energia positiva emanada no espaço envolvente aos seus corpos. Era mesmo algo de transcendente. Eles nem se apercebiam insistindo no medo de uma relação baseada na amizade, mas é certo, muito certo que ambos se cuidavam como ninguém.

Decerto que se um dia houvesse um beijo na boca toda essa teoria desabaria, a fronteira com a demência que insistiam cada um da sua forma em falar de algo para lá do que as aparências mostravam, seria apenas mais um mito, o mito deles. A loucura do amor sem limites, fonte de energia eterna, indomável como se de um furacão grau cinco se tratasse.

E ele ia sonhando, não passava do sonho, mas sonhava...

- Sabes linda! És a minha vida e tudo o que preciso para ser feliz, acreditas em almas gémeas? És a minha e eu sinto que sou a tua! - e imaginava-se abraçando-a, beijando aqueles lábios que conhecia como mais ninguém mesmo sem nunca os ter beijado.

Depois ela começava a chorar, de alegria, de pura alegria! Era uma revelação que aparecia vinda do nada, quando tinha estado sempre ali à frente dela!

- Eu sei que sempre te amei, que te desejo para lá da loucura! - e voltava a beijá-lo, abraçando-o num momento que desejava eternizado. Ele sonhava que isto se ia tornar realidade...

- Rapaz? Ei rapaz! Acorda! Estás na Lua? - por vezes ela falava, falava e ele perdia-se em descobrir cada pedaço do seu rosto que já tinha visto vezes sem conta, em admirar cada nova tonalidade que lhe aparecia, em desbravar a alma maravilhosa que saía de cada olhar e esquecia-se da realidade, abandonando-se num mundo tão sedutor, quão inalcançável, pelo menos ele assim o pensava.

- Olha menina linda - fazendo o gesto de apaziguamento, pegando-lhe nas mãos de seda e desejo - vou voltar a dar aulas. Não quero sequer imaginar ver algum dos meus colegas sentados ao teu lado a ensinarem-te o que eu te quero fazer... mais do que nunca! - os ciumes que tanta vez tentava dissimular por vezes eram traídos pelo tom de voz mais soturno, pelo desviar do olhar ultra penetrante.

- Nunca duvidei disso! - ficava mais descansada assim, o alivio que sentia era enorme, e punha-se a pensar para si que quando voltasse a namorar teria de ser um homem com o feitio dele, com os pequenos nadas que ele lhe dispensava sem pedir nada em troca. Era de facto fascinante o carinho desinteressado que ele lhe dedicava - e sabes? quero muito que ponhas o teu saber ao meu serviço! - e ria, fazendo com ele olhasse de novo para ela. E abraçavam-se, quando faziam as pazes era sempre com um abraço, com as mãos entrelaçadas, com as trocas olhares cúmplices.

- Não duvides - o terramoto que o havia dominado estava controlado, tinha acabado de aterrar de novo - mas... olha vem lá o teu comboio!

- Então fica combinado, vou lá amanhã e inscrevo-me! E... obrigada, és um verdadeiro anjo na minha vida!

- Ai, nada de obrigações! Sabes que por ti TUDO! - e soltava-se de novo um sorriso nas bochechas rosadas dele com os braços levantados ao Céu a sublimar o que havia dito - e telefona-se quando chegares a casa!

- Sim papá! - passavam a vida na brincadeira e não havia ninguém que se conseguisse intrometer naquele amor escondido apenas para eles os dois -

- Eu dou-te o papá!!! Vá quero saber se chegas bem, tu sabes!

- Sim eu sei! - e selaram as despedidas com mais um abraço, bem apertado.

E ele ia com ela no coração, era como se houvesse um homem numa estação de comboios sem coração, apenas porque o coração tinha seguido viagem com a amada!

(continua em Amizades Intimas 3)
Manuel Marques
Enviado por Manuel Marques em 04/09/2007
Reeditado em 08/09/2007
Código do texto: T638429

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Sobre o autor
Manuel Marques
Espanha, 45 anos
548 textos (59035 leituras)
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Manuel Marques