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E ela telefona-lhe mesmo todos os dias. Tem alturas que não se vêem, que estão com os outros amigos. O coração, esse bate sempre mais forte na ausência, mesmo que sem ser forçada, um do outro.

Nela, sobretudo nela, havia uma sensação de desconforto quando o via com outras mulheres, mas o seu orgulho de virginiana impedia-a de perder a postura, selecta, de verdadeira dama entre as mulheres que a rodeavam. Quanta inveja a rodeava e ela nem lhes ligava.

Mesmo no primeiro dia de Primavera começaram as aulas práticas. Ele parecia ainda mais ansioso, apesar da aparente calma que nada fazia transparecer, todos os dias imortalizava aquela relação que decerto um dia se tornaria maior que as histórias dos deuses do Olimpo.

A experiência dela era nula, nunca havia conduzido um automóvel, a ele a experiência dizia-lhe que seria canja ensiná-la, o maior dos prazeres. A grande vantagem era conhecer de cor o que os gestos dela significavam. E isso permitia-lhe reagir adequadamente, satisfazendo a crucial necessidade de a fazer ganhar confiança. Fá-lo-ia fazendo-a esquecer o que eram fora do automóvel.

- Então Senhor Professor, muito boa noite! É uma honra poder tê-lo como meu mestre!!! - a noite juntou-os nos melhores momentos, ali não seria excepção -

- Olá menina Diana, vamos lá ensinar-te a conduzir! - usando o seu distinto charme que nem era das facetas que ela melhor conhecia -

- Eu não sei nada disto! Ai! Eu não... - sorria, mas estava tão nervosa - seja o que Deus quiser, estou nas tuas mãos! - e olhava humildemente para ele, como se a salvação do mundo estivesse ali! -

- Calma! Calma mulher de Deus, sempre acelerada! Tem calma! Olha para mim? Pareço-te nervoso? -

- Não! Eu sei que sou uma parva, mas vamos a isto! - e agarrava no volante com força -

- Bem... tudo tem o seu tempo, deixa lá o volante sossegado - sorrindo com doçura - e acima de tudo precisas de me saber ouvir. Depois, com o tempo, vêm os automatismos, começas a ser precisa quase sem dares por isso. É a confiança a soltar-se! - nele havia um outro olhar, uma outra postura que ela pouco conhecia, forçosamente mais distante, apesar de mais maduro e a expirar toda a confiança do mundo e isso tranquilizava-a -

- Está bem querido! E não vamos sair daqui pois não? - sabia-lhe tão bem estar ali quietinha a ouvi-lo que já nem lhe apetecia ir embora -

- Vamos pois! Mas antes quero apresentar-te ao carro, que te posiciones de forma a que sejas tu a controlá-lo e não o contrário... isso! Descontraída! Perfeito!

- Sim, sim, percebo! E agora? - começava a achar graça àquilo -

....

Todos os dias da semana sempre à mesma hora, Diana foi ter com ele. Tal como previsto e tendo em atenção que nenhuma aventura nova lhe tinha acontecido no trabalho ela aprendeu depressa. Ele era o mais exigente que podia, tentando nunca lhe ferir o ego ou a disposição, mas duro sempre que era preciso, e foi-o muitas vezes. Ela facilitou-lhe o trabalho com uma disposição impecável, quase sempre do seu fato justo, da sua forma de ser que ali ele fingia nem olhar. Missão árdua era essa, não ensiná-la!

Um belo fim de tarde, chegou a altura de se pensar em marcar exame de condução. Caso raro, ela tinha cumprido todas as instruções dele, sempre tivera a humildade suficiente para acatar os seus conselhos, afinal era ele o professor. Fazia-lhe confusão o que ele lhe contava da maior parte dos alunos, das aventuras que o tinham feito parar de dar aulas. 'Que desperdício!' - pensava ela -

- Então Senhor Professor César Augusto Imperador da minha alma, qual o veredicto do Senado? - sempre que podia tinha que brincar, desanuviar aquele homem que quando se tornava sisudo era um caso sério, quase perdido. Mas era apenas aparência, porque ele derretia-se todo, ficava desarmado e ela sabia muito bem disso -

- Minha rica Princesa! Muito favorável o veredicto, nem consultei o senado, afinal se sou Imperador e tenho o poder? - e ria-se à gargalhada - Mas, agora a sério, tens de dominar essa tua ânsia de chegar depressa a todo o lado, ouve o teu coração, mas não te deixes dominar por ele, aqui sobretudo é essencial a razão, todos os sentidos alerta... e sabes bem que nem sempre chega. Para teres a carta de condução basta-te seres como és na vida, atenção aos pormenores e muita calma, porque a tens no meio dessas velocidades desvairadas que tem sido a tua vida profissional ultimamente! - quando era preciso ela parava, para o ouvir, para sorver aquelas palavras sábias de alguém raro num Planeta onde é normal ser louco no mau sentido.

- Oh meu querido tem sido muito mau mesmo! Nem sabes o bem que isto me tem feito - ela pensava mais no bem que aquele homem grande lhe fazia, pensando melhor, era quase impossível lembrar-se de algo mau em relação a ele ... e isso fascinava-a cada vez mais, ao mesmo tempo que a preocupava -

- Bem sei, nota-se que não te afecta por aí além! Ainda assim concentra-te, acredita que mesmo concentrada 30% do que sabes vai-se embora num exame, tendo em conta que ninguém está nunca a 100%...é fazeres as contas ao desperdício que é deixares dominar-te pelos nervos! -

- Muito fácil de falar!

- E de fazer também, mentaliza-te!

Mas Diana havia parado a conversa, parecia mesmo que se estava a mentalizar para qualquer coisa, e César demorou um pouco mais a perceber, entretido que estava na sua psicologia de instrutor de condução.

- César... - ela soltou uma nova expressão, desconhecida para César, ficando a cara suavemente enrubescida...

- Diz querida! - olhando para ela, desviando o cabelo junto ao olho direito e vendo alguma angústia na sua cara - Que tens meu tesouro?

- Sabes... preciso muito falar contigo - lançou um sorriso algo comprometido - Apenas esclarecer algumas dúvidas...

- Mas tu sabes que podes contar comigo, basta dizeres! -pegando-lhe a mão direita com as suas mãos quentes, que ela apertou com mais força que o costume...

- Sim eu sei disso... mas... preciso que seja agora... vamos a minha casa? - ao mesmo tempo que era uma mulher de sentimentos organizados, muito bem compartimentados, todavia, quando o coração batia com mais força, tudo se desmoronava e ela precisava de falar, de esclarecer 'algumas dúvidas'... mas isto era algo novo com César.

- Vamos, claro que vamos! - assaltou-lhe um misto de alegria e ansiedade, ambos em forma extrema que o fizeram dizer algumas coisas sem nexo que ela não percebeu muito bem, mas que a fizeram sorrir porque percebeu que ele estava desconcertado. E era caso para estar.

Sairam do carro da Escola, foram ultimar os papeis para o dia seguinte e foram a pé para casa dela que ficava ali a dois intermináveis minutos.

Ambos olharam em frente, embora sentissem de parte a parte alguns olhares furtivos. A mão esquerda de Diana procurava pela direita de César e os corações... os corações palpitavam de forte desejo!

(continua em Amizades Intimas 4)
Manuel Marques
Enviado por Manuel Marques em 05/09/2007
Reeditado em 08/09/2007
Código do texto: T640068

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Sobre o autor
Manuel Marques
Espanha, 45 anos
548 textos (59027 leituras)
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Manuel Marques