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AMIZADES INTIMAS

Prólogo

O Sol incendeia as paixões, não ao ponto de nos tornar cinzas como faz aos vampiros. Não, o Sol abre os poros, faz transbordar a vontade de amar, de roçar os corpos, tentar as convulsões que dão o prazer, que nos enviam para o limiar da loucura. Até mesmo os amigos, talvez aqueles mais íntimos, os que estão para lá dos maridos e mulheres, dos namorados e dos enfados. Os amigos íntimos são aqueles com quem temos uma química mais forte que qualquer relação sexual, são espécimes raros quando de sexos diferentes e mesmo quando se envolvem nada se desmorona, o amor não se desvanece, a amizade apenas se complementa. Ah, eu sei que isto é complicado de conceber nesta dimensão de exclusividades, de fantasias com o que raramente se tem, mas se sonha, se tenta e às vezes lá se alcança.

Era bom que todos os homens soubessem dançar como Fred Astaire e que a parceira inebriada fosse a Ginger Rogers, seria um mundo perfeito não era?

I

Já fazia alguns anos, muitas peripécias e até algumas zangas que se tinham intrometido entre eles. A maior das vitórias sempre foi a cumplicidade que se imiscuiu neles desde o primeiro dia, desde o primeiro olhar, como se um forte desejo vindo de outra dimensão os fizesse sentir o amor em caminho acelerado até aos corações.

Ela queria tirar a carta de condução, era um m otivo para se aproiximar daquele amigo de longa data, um homem diferente de toda a confusão que havia conhecido.


II

- Então é assim. Começas por ir à escola saber os preços. Mas, espera... preciso olhar bem para ti - na sua sabedoria infinita de deus esquecido num Olimpo com deuses a mais -


- Tens sempre que olhar para mim! - ela sorria sempre, sentia-se bem pela disponibilidade infinita que ele tinha para ela -

- Calma miúda! Ouve-me... sei o que digo. Estás perfeita. Na idade perfeita para aprenderes! Madura, madura minha querida! - e ria-se perdidamente

- Eu dou-te as madurezas.... mas... és suspeito meu querido - e ainda sorria mais. Dava muitas vezes por si assim, sentia-se desejada, mas apenas o via como um amigo muito especial -

- Sou quem te pode ajudar. Não vais cair na conversa daquela gente, já lá andei, lembras-te? - o seu ar de santo protector evidenciava-se -

- E vais voltar, vou-te fazer voltar! - a convicção com que falava convencia meio mundo e ele era a outra parte do mundo dela, um mundo de generosidade sem fim -

- Veremos até que ponto eu o posso fazer - adoptando um ar sério, grave mesmo...

- Mau!... quer dizer, vens com a filosofia, a sabedoria, mas para agir já não serves? - não suportava aquela faceta dele de rejeitar o seu dom natural, o que vindo de um homem corajoso como poucos que ela conhecia era um contrasenso -

- Sabes bem como é a minha vida! - ele não a via como amiga querida, esse papel podia ser desempenhado por outras mulheres, mas com ela estava noutra dimensão -

- Não sei! Nem quero saber! Tanta vontade de ajudares e afinal? - a sua graça era natural e nem a súbita vermelhidão que lhe assaltava o rosto quando se deixava dominar pela tensão lhe tirava o charme. Não deixava de ser engraçado porque ela apenas o via como um amigo, o irmão que nunca tivera. A única pessoa que a deixava insegura à mais pequena contrariedade. Um amigo com quem não podia passar sem...

- És um amor! - quando a via assim, pegava-lhe sempre nas mãos, quando a queria apaziguar. Os olhos como que saltavam das órbitas, vendo-se nitidamente o brilho que apenas se via num amor puro, cristalino mesmo que não assumido-

- Não desvies o assunto meu tonto! - não conseguia resistir, a zanga mal tinha começado, caía por terra, mas ainda assim precisava de o fazer mudar de ideias...

Os caminhos por onde seguiam não eram assim tão idílicos como nas fábulas, a vida real era feita de um jardim engraçado, com umas árvores não muito bonitas, desgastadas pelas agruras de humanos sem vergonha. Um lago com patos que perseguiam as pessoas, grasnando que nem perdidos e alguns meninos perdidos da vida normal, fumando cola, sublinhando a indiferença a que eram votados. Mas eles seguiam indiferentes às possibilidades de multiplicação de desgraça que todos os dias eram vaticinadas. Sem culpa de se sentirem vivos.


- Vamos por partes! - o seu ar de homem decidido soltava-se por fim -

- Vamos lá então! - dar as mãos e falar assim de frente era um exclusivo que ela tinha com ele, mais nenhum homem a fazia sentir o amor por via das mãos, de um simples olhar, terno, de uma doçura quase infantil, era pura energia que lhe trespassava o coração. E sorria. Encantada. Sorria!

- Eles vão-te dizer os preços às prestações e tu vais-me fazer o favor de pedir o valor total! - punha um certo ar autoritário, mas o brilho que lhe emanava do corpo era sempre o mesmo e ela sentia-se impelida a fazer o que ele lhe dizia, como se fosse uma missão sagrada -

- É claro que vou - dando-lhe um beijo na cara - e tu vais estar lá para me dar as aulas! - ela brincava, mas deixava-a nervosa só a simples hipótese de pensar que ele não ia estar lá -

- Não se trata disso. Vais saber o preço do que é obrigatório. Depois tens de ter em atenção que pode ser sempre preciso algo mais...

- Ai essa conversa! Sabes que o meu orçamento é apertado - a tendência para pensar em actos menos lícitos era algo normal em toda a gente, ela não fugia à regra - e que nãop tenho dinheiro para essas coisas.

- A quem o dizes! E nem penses em cenas dessas menina, comigo não há artimanhas dessas! Tudo depende de ti e da forma como absorveres os ensinamentos - ele ria-se, enquanto lhe passava as mãos pelo cabelo, aguardando pacientemente que ela se decidisse de uma vez por todas a encará-lo como homem para lá do carinho que se tem por um irmão -

- Sim querido, sim! - virando-se para outro lado - Vamos andando, está muito calor aqui! -

- Vamos linda! - como lhe fascinavam os pequenos movimentos tão característicos dela, os seus trejeitos que o punham no céu, a forma como dizia as palavras, tinha alturas que se deleitava apenas a ver os seus lábios mexerem, apenas queria ver os lábios movimentarem-se saindo melodias inebriantes de encanto total. Nessas alturas sentia-se um homem afortunado para lá dos limites!

Quem os visse com um pouco mais de atenção apenas poderia sublimar a pureza de um amor que parecia nem sequer ser real, tal a intensidade de energia positiva emanada no espaço envolvente aos seus corpos. Era mesmo algo de transcendente. Eles nem se apercebiam insistindo no medo de uma relação baseada na amizade, mas é certo, muito certo que ambos se cuidavam como ninguém.

No dia do primeiro beijo na boca toda essa teoria desabaria, a fronteira com a demência que insistiam em viver cada um de forma separada e cada dia mais tensa e angustiada, seria algo para lá do que as aparências mostravam, seria apenas mais um mito, o mito deles. A loucura do amor sem limites, fonte de energia eterna, indomável como se de um furacão grau cinco se tratasse, explodiria sem limites, fazendo Eros e Afrodite rejubilarem por uma conquista tão sofrida .

E ele ia sonhando, não passava do sonho, mas sonhava... sempre escutara que 'o sonho comanda a vida' então porquê não sonhar com aquele ser que amava cada dia mais?

- Sabes linda! És a minha vida e tudo o que preciso para ser feliz, acreditas em almas gémeas? És a minha e eu sou a tua! - e imaginava-se abraçando-a, beijando aqueles lábios que conhecia como mais ninguém mesmo sem nunca os ter beijado.

Depois ela começava a chorar, de alegria, de pura alegria! Era uma revelação que aparecia vinda do nada, quando tinha estado sempre ali à frente dela!

- Eu sei que sempre te amei, que te desejo para lá da loucura! - e voltava a beijá-lo, abraçando-o num momento que desejava eternizado. Ele sonhava que isto se ia tornar realidade...

.......

- Rapaz? Ei rapaz! Acorda! Estás na Lua? - por vezes ela falava, falava e ele perdia-se em descobrir cada pedaço do seu rosto que já tinha visto vezes sem conta, em admirar cada nova tonalidade que lhe aparecia, em desbravar a alma maravilhosa que saía de cada olhar e esquecia-se da realidade, abandonando-se num mundo tão sedutor, quão inalcançável, pelo menos ele assim o pensava.

- Olha menina linda - fazendo o gesto de apaziguamento, pegando-lhe nas mãos de seda e desejo - vou voltar a dar aulas. Não quero sequer imaginar ver algum dos meus colegas sentados ao teu lado a ensinarem-te o que eu te quero fazer... mais do que nunca! - os ciumes que tanta vez tentava dissimular por vezes eram traídos pelo tom de voz mais soturno, pelo desviar do olhar ultra penetrante.

- Nunca duvidei disso! - ficava mais descansada assim, o alivio que sentia era enorme, e punha-se a pensar para si que quando voltasse a namorar teria de ser um homem com o feitio dele, com os pequenos nadas que ele lhe dispensava sem pedir nada em troca. Era de facto fascinante o carinho desinteressado que ele lhe dedicava - e sabes? quero muito que ponhas o teu saber ao meu serviço! - e ria, fazendo com ele olhasse de novo para ela. E abraçavam-se, quando faziam as pazes era sempre com um abraço, com as mãos entrelaçadas, com as trocas de olhares cúmplices.

- Não duvides - o terramoto que o havia dominado estava controlado, tinha acabado de aterrar de novo - mas... olha vem lá o teu comboio!

- Então fica combinado, vou lá amanhã e inscrevo-me! E... obrigada, és um verdadeiro anjo na minha vida! - abraços e fluidos de energia pareciam que se transmitiam às pessoas à volta que começavam a querer abraçar-se umas às outras, era este o efeito daquela sensação de amor puro que cirandava por entre aqueles dois seres...

- Ai, nada de obrigações! Sabes que por ti TUDO! - e soltava-se de novo um sorriso nas bochechas rosadas dele com os braços levantados ao Céu a sublimar o que havia dito - e telefona-me quando chegares a casa!

- Sim papá! - passavam a vida na brincadeira e não havia ninguém que se conseguisse intrometer naquele amor escondido apenas para eles os dois -

- Eu dou-te o papá!!! Vá quero saber se chegas bem, tu sabes que não descanso enquanto não te souber em casa!

- Sim eu sei! - e selaram as despedidas com mais um abraço, bem apertado.

E ele ia com ela no coração, era como se houvesse um homem numa estação de comboios sem coração, apenas porque o coração tinha seguido viagem com a amada!

III

E ela telefona-lhe mesmo todos os dias. Tem alturas que não se vêem, que estão com os outros amigos. O coração, esse bate sempre mais forte na ausência, mesmo que sem ser forçada, um do outro.

Nela, sobretudo nela, havia uma sensação de desconforto quando o via com outras mulheres, mas o seu orgulho de virginiana impedia-a de perder a postura, selecta, de verdadeira dama entre as mulheres que a rodeavam. Quanta inveja a rodeava e ela nem lhes ligava.

Mesmo no primeiro dia de Primavera começaram as aulas práticas. Ele parecia ainda mais ansioso, apesar da aparente calma que nada fazia transparecer, todos os dias imortalizava aquela relação que decerto um dia se tornaria maior que as histórias dos deuses do Olimpo.

A experiência dela era nula, nunca havia conduzido um automóvel, a ele a experiência dizia-lhe que seria canja ensiná-la, o maior dos prazeres, o plano seria traçado sem grandes complicações. A grande vantagem era conhecer de cor o que os gestos dela significavam. E isso permitia-lhe reagir adequadamente, satisfazendo a crucial necessidade de a fazer ganhar confiança. Fá-lo-ia fazendo-a esquecer o que eram fora do automóvel.

- Então Senhor Professor, muito boa noite! É uma honra poder tê-lo como meu mestre!!! - a noite juntou-os nos melhores momentos, ali não seria excepção -

- Olá menina Diana, vamos lá ensinar-te a conduzir! - usando o seu distinto charme que nem era das facetas que ela melhor conhecia, mas que algumas antigas alunas suspiravam e comentavam entre si, até houve mais que uma que lhe disse isso mesmo, saltando-lhe quase para cima -

- Eu não sei nada disto! Ai! Eu não... - sorria, mas estava tão nervosa - seja o que Deus quiser, estou nas tuas mãos! - e olhava humildemente para ele, como se a salvação do mundo estivesse ali! -

- Calma! Calma mulher de Deus, sempre acelerada! Tem calma! Olha para mim? Pareço-te nervoso? - entrava em acção a sua proverbial calma que não entrava em acção em mais lado nenhum, talvez apenas nas crises e nos momentos de maior aflição quando era preciso alguém para pôr ordem nas coisas, nisso ele era muito bom -

- Não! Eu sei que sou uma parva, mas vamos a isto! - e agarrava no volante com força, como se estivesse ali a salvação do mundo -

- Bem... tudo tem o seu tempo, deixa lá o volante sossegado - sorrindo com doçura - e acima de tudo precisas de me saber ouvir. Depois, com o tempo, vêm os automatismos, começas a ser precisa quase sem dares por isso. É a confiança a soltar-se! - nele havia um outro olhar, uma outra postura que ela pouco conhecia, forçosamente mais distante, apesar de mais maduro e a expirar toda a confiança do mundo e isso tranquilizava-a -

- Está bem querido! E não vamos sair daqui pois não? - sabia-lhe tão bem estar ali quietinha a ouvi-lo que já nem lhe apetecia ir embora, se pudesse parava o tempo só para que aquele momento se eternizasse -

- Vamos pois! Mas antes quero apresentar-te ao carro, que te posiciones de forma a que sejas tu a controlá-lo e não o contrário... isso! Descontraída! Perfeito!

- Sim, sim, percebo! E agora? - começava a achar graça àquilo, embora não percebesse metade do que ele lhe queria dizer -

....

Todos os dias da semana sempre à mesma hora, Diana foi ter com ele. Tal como previsto e tendo em atenção que nenhuma aventura nova lhe tinha acontecido no trabalho ela aprendeu depressa. Ele era o mais exigente que podia, tentando nunca lhe ferir o ego ou a disposição, mas duro sempre que era preciso, e foi-o muitas vezes. Ela facilitou-lhe o trabalho com uma disposição impecável, quase sempre do seu fato justo, da sua forma de ser que ali ele fingia nem olhar. Missão árdua era essa, não ensiná-la!

Um belo fim de tarde, chegou a altura de se pensar em marcar exame de condução. Caso raro, ela tinha cumprido todas as instruções dele, sempre tivera a humildade suficiente para acatar os seus conselhos, afinal era ele o professor. Fazia-lhe confusão o que ele lhe contava da maior parte dos alunos, das aventuras que o tinham feito parar de dar aulas. ‘que desperdício’ - pensava ela -

- Então Senhor Professor César Augusto Imperador da minha alma, qual o veredicto do Senado? - sempre que podia tinha que brincar, desanuviar aquele homem que quando se tornava sisudo era um caso sério, quase perdido. Mas era apenas aparência, porque ele derretia-se todo, ficava desarmado e ela sabia muito bem disso -

- Minha rica Princesa! Muito favorável o veredicto, nem consultei o senado, afinal se sou Imperador e tenho o poder? - e ria-se à gargalhada - Mas, agora a sério, tens de dominar essa tua ânsia de chegar depressa a todo o lado, ouve o teu coração, mas não te deixes dominar por ele, aqui sobretudo é essencial a razão, todos os sentidos alerta... e sabes bem que nem sempre chega. Para teres a carta de condução basta-te seres como és na vida, atenção aos pormenores e muita calma, porque a tens no meio dessas velocidades desvairadas que tem sido a tua vida profissional ultimamente! - quando era preciso ela parava, para o ouvir, para sorver aquelas palavras sábias de alguém raro num Planeta onde é normal ser louco no mau sentido.

- Oh meu querido tem sido muito mau mesmo! Nem sabes o bem que isto me tem feito - ela pensava mais no bem que aquele homem grande lhe fazia, pensando melhor, era quase impossível lembrar-se de algo mau em relação a ele, aliás até os defeitos dele lhe faziam bem a ela, como contraponto de personalidades ... e isso fascinava-a cada vez mais, ao mesmo tempo que a preocupava -

- Bem sei, nota-se que não te afecta por aí além! Ainda assim concentra-te, acredita que mesmo concentrada 30% do que sabes vai-se embora num exame, tendo em conta que ninguém está nunca a 100%...é fazeres as contas ao desperdício que é deixares dominar-te pelos nervos! - palavra de mestre...

- Muito fácil de falar!

- E de fazer também, mentaliza-te! Diz para ti própria: 'Eu sou capaz' e arregaça as mangas, vai à luta! - nestas alturas perdia um pouco de calma, endurecia a sua face e ralhava com ela.

-Está bem menino, está bem! - a sua menter estava avirar-se para outra dimensão...

Mas Diana havia parado a conversa, parecia mesmo que se estava a mentalizar para qualquer coisa, e César demorou um pouco mais a perceber, entretido que estava na sua psicologia de instrutor de condução.

- César... - ela soltou uma nova expressão, desconhecida para César, ficando a cara suavemente enrubescida...

- Diz querida! - olhando para ela, desviando o cabelo junto ao olho direito e vendo alguma angústia na sua cara - Que tens meu tesouro?

- Sabes... preciso muito falar contigo - lançou um sorriso algo comprometido - Apenas esclarecer algumas dúvidas... sabes falarmos acerca de nós!

- Mas tu sabes que podes contar comigo, basta dizeres! -pegando-lhe a mão direita com as suas mãos quentes, que ela apertou com mais força que o costume...

- Sim eu sei disso... mas... preciso que seja agora... vamos a minha casa? - ao mesmo tempo que era uma mulher de sentimentos organizados, muito bem compartimentados, todavia, quando o coração batia com mais força, tudo se desmoronava e ela precisava de falar, de esclarecer 'algumas dúvidas'... mas isto era algo novo com César.

- Vamos, claro que vamos! - assaltou-lhe um misto de alegria e ansiedade, ambos em forma extrema que o fizeram dizer algumas coisas sem nexo que ela não percebeu muito bem, mas que a fizeram sorrir porque percebeu que ele estava desconcertado. E era caso para estar.

Saíram do carro da Escola, foram ultimar os papeis para o dia seguinte e foram a pé para casa dela que ficava ali a dois intermináveis minutos.

Ambos olharam em frente, embora sentissem de parte a parte alguns olhares furtivos. A mão esquerda de Diana procurava pela direita de César e os corações... os corações palpitavam de forte desejo!


V

A energia concentrada naqueles dois seres era de tal forma forte que os meliantes menos temerários não se conseguiam aproximar, sendo dominados por um medo inexplicável que os paralisava por completo. No telhado de um dos prédios circundantes à Escola encontrava-se um vulto que se movia de forma muito rápida, aparecendo e desaparecendo enquanto alguns flashes luminosos eram lançados para o ar.

- Querida, quero que ponhas aquela música do Caetano, aquela que eu adoro... a dos quasares...

- Eu conheço-a! - um sorriso matreiro, mais um daquela colecção inesgotável de sorrisos que nasciam do nada para iluminarem Diana, soltou-se - vamos andando meu lindo!

Enquanto isso, a Lua mostrava-se cheia, porventura com alguns lobisomens à solta ali perto. Enquanto isso os flashes de luz continuavam activos, suscitando o interesse de um cada vez maior número de pessoas!

- Já viram aquilo? - uma senhora parou no meio da estrada, provocando uma travagem violenta a um camião que não atropelou por milímetros - tão bonito que até dói!

Os dois meninos, tão amigos de alma que se amavam mais que qualquer pessoa ali à volta, seguiam, iam indiferentes àquele súbito ajuntamento, entrando no prédio de Diana. Ela apertou-lhe a mão direita e segredou-lhe algo que o fez sorrir!

Subiram, um andar e olharam para a parede de vidro que deixava avistar a rua. Era dia de novo e uma música entoava, entrando de mansinho pelos ouvidos de toda a gente...

«capte-me uma mensagem à toa...»* ... César começou a chorar. Diana parou, olhou para ele e pegou numa lágrima. Desse gesto fez nascer uma pequena voz que lhes dizia:

«Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida
Eu vou te amar»*

De novo o Caetano a juntar o povo que se negava a ostracizar uma vida perdida em quezílias e guerras em que ninguém saía vitorioso...

- Anda meu querido!

Suavemente, como que embalados pela beleza de um momento que apetecia que fosse inesgotável, sentiram-se flutuar...

- Diana! Diana! Mas... - ele estava a mostrar um lado frágil, sublimado por um paraíso que se estava a desenrolar ali mesmo à sua frente

- Calma meu amor! Olha para cima!

- Um quasar? Um buraco negro?

- Apenas outra dimensão, onde além de tudo o que temos aqui, nos completamos e temos um mundo sem medo, sem o ódio circundante, a inveja que o próximo tende a ter pelo sucesso emocional do seu semelhante, um mundo onde não há dinheiro nem minorias que subjugam o próximo! -

Diana revelava-se um ser etéreo, vinda de outra galáxia, com a missão de levar consigo um espécime perfeito e após alguns milhões de anos, desde as bactérias, passando pelos invertebrados, dos oceanos profundos, dos céus azuis ou negros de violência, dos bonitos, dos feios e dos freios que todos punham na sua existência de aparências. Ei-lo, um homem perfeito que a amava com todo o seu ser, que já tinha feito amor com ela das mais variadas formas sem sequer lhe ter tocado no corpo. Claro que a opinião dele ainda não era a mesma, mas isso seria facilmente corrigido numa dimensão paralela. E ela aprendera a amá-lo quebrando todas as correntes, todas as directivas impostas pela sua civilização mais que avançada. Tinha apenas como única vitória levá-lo para uma dimensão onde o mau sentido dado às coisas estava posto de lado...

- Amo-te mulher de sonho!
- Também te amo meu humano maravilhoso!

«De um quasar pulsando loa»... ao som do Caetano desapareceram desta dimensão, num beijo intenso, num abraço bem apertado...

...dizem que andam numa dimensão paralela e que a felicidade que os rodeia é algo de normal!

- Mas temos de morrer para obter isso?

FIM


*excertos de letras de Caetano Veloso: «Rapte-me Camaleoa» e «Eu sei que vou te amar»

** imagem do filme Swing Time (1936) com Fred Astaire e Ginger Rogers)
Manuel Marques
Enviado por Manuel Marques em 08/09/2007
Reeditado em 10/09/2007
Código do texto: T643548

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Sobre o autor
Manuel Marques
Espanha, 45 anos
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Manuel Marques