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O Velho no Deserto II

     “A escuridão era uma constante e nada podia fazer para mudar isso, quando entendi esse fato, passei a prestar melhor atenção aos outros detalhes, então o verdadeiro terror começou…”



                    O Velho despertou em dor genuína, talvez despertar seja a palavra errada, olhou à sua volta viu apenas o nada, escuridão impenetrável, era mesmo como se não tivesse aberto os olhos, mais ainda se pensar que quando há luz lá fora ela atravessa as pálpebras. E que força extraordinária é a luz atravessando nossas barreiras, nossas armaduras, talvez por isso apelidar um ente querido de minha luz esteja entre os maiores elogios que se pode fazer. Voltando ao pobre Velho, suas pernas estavam nuas e seus pés estavam descalços, com eles sentiu o chão frio e molhado debaixo de seu corpo, uma impressão de limo ou lodo, como se fossem as pedras de uma corrente d’água, não sabia definir mas era frio, um que se alastrava por seus ossos causando-lhe dor. O frio também lhe causava arrepios, sua pele eriçava e coçava, sentiu então que usava roupas de construção pobre, era mais como uma manta sem corte adequado, tentou levar as mãos ao rosto e falhou.
_ Velho: Correntes? estou preso.
Percebeu os grilhões que prendiam seus punhos a uma corrente esticando seus braços um para cada lado, de fato estava preso, mas porque não conseguia ver? Estava tão escuro que parecia mesmo como se houvesse arrancado seus olhos.

_ Velho: Não, ainda sinto meus olhos, não foram arrancados, estaria cego?
                    Com a descoberta de sua postura veio o desconforto em imediato, com esforço que para ele era quase inumano contraiu os braços cujos punhos dentro dos grilhões pareciam sangrar, elevando o tronco, grunhindo de dor retirou as pernas dobradas debaixo de si e as esticou para frente em uníssono com o alívio enquanto esticava suas pernas o Velho sentiu tocar algo com as pontas dos dedos, retraiu imediatamente mas a lembrança ficou, era mole e viscoso.

_ Velho: O que é isso? Ao menos estou acordado. Ou não estou? Não posso provar que estou acordado, aliás acho que ninguém poderia sem um outro ente que lhe permitisse alguma interação.
                    Insistiu em manter nas pernas retraídas quase tocando o peito com os joelhos, percebeu então que os dedos de seu pé direito estavam sujos com a coisa que tocou, tentou limpá-los contra o chão sem sucesso.

_ Velho: De fato posso estar sonhando e por mais consciente que este sonho me pareça, seria apenas fantasia, mas novamente é óbvio que não posso comprovar. O que assusta é a ausência daquela voz irritante em minha mente, talvez estivesse sonhando todo esse tempo e só agora acordei. Não posso ver isso é claro mas posso ouvir, distante acho que são gotas d’água caindo…

                    Dejanira, assim como sua mãe, tinha pele escura  do tronco duma árvore molhada, o suor em sua pele a fazia reluzente sob o sol. Assim como sua mãe os olhos eram negros exceto por uma mancha clara, olhos de quem se acostumou a olhar para baixo desde de menina, pois, assim como sua mãe Dejanira era uma serva e ainda que fosse parte do séquito, o seleto grupo escolhido apenas para servir a corte, era uma escrava ainda assim e não fosse por efeito de ordem ou serviço ela jamais saberia do calor do sol que tornava sua pele tão bonita. Suas roupas eram de formidável azul, enroladas por seu corpo criavam um contraste inegável com as pedras em pálido amarelo daquele chão, sem adornos apenas sandálias humildes em seus pés como esperado para alguém de sua classe, um som estalado resultava do seu andar apressado. Na mão direita um cesto, na esquerda o balde um tanto mais pesado que fazia pender seu corpo levemente, bom era que seu destino estava próximo.
                   
_ Consciência: Está acordado velho?

_ Velho: Como poderia dormir? Se apenas um pedaço do dia desde que os beduínos deixaram-me nesta prisão. Ainda me pergunto por que usaram de vendas se conheci mesmo os portões da cidade.

_ Consciência: Espantosa sua ignorância, saber como entrar nesta cidade é irrelevante se não sairá de dentro dela jamais, já para quem será mantido aqui conhecer o interior pode ser nocivo.

_ Velho: Então esse é o caso,  por que então me guiou para este fim? Para que tanto esforço se vou morrer como prisioneiro sem nome?

_ Consciência: Silêncio. Basta desse choro, além de suas lamúrias serem inúteis, tens bela companhia, saiba se comportar...
                    O destino de Dejanira era uma cela construída com largas rochas, de todos os 15 anos de sua vida jamais entrou nas celas, afinal não era dos locais que mais desejava conhecer, mas ordens são ordens. O lugar que dava arrepios a jovem era um túnel como que enterrado no próprio chão, paredes de rocha sólida amareladas como o solo daquela terra, iam na direção contrárias aos portões da cidade, na direção do rio dos mortos, mais uma razão para temer aquele lugar. A cela que buscava era a última, como tinha de ser, nenhum criminoso desde que se lembra e tinha de colocar esse na última cela? Fosse como fosse chegou em pouco tempo, lá o som das águas era quase percebido. Vestidos com botas longas sobre calças escuras, camisa de cor pálida e uma faixa em verde vibrante, segurando casualmente espadas longas presas nos cintos duas figuras impediam seu progresso.

_ Guardião Direito: Que quer aqui menina?

_ Guardião Esquerdo: Menina? Oh veja que menina hã, feituras de parideira, largos quartos…
                    A inequidade dos comentários renderam ao Esquerdo um tapa no estômago, usando das costas do mão o Direito acertou-lhe como um chicote o que produziu no alvo um som abafado saindo pela boca. A direção da conversa ia de mal a pior então ela encurtou a cena.

_ Dejanira: Al AlaMed Ibe Zjasei…
                    Na menção do nome os guardiões mudaram sua atitude em completo, ouvindo atenta e ininterruptamente as palavras seguintes, pois sabiam que a despeito da boca pobre ou nobre, ninguém usava tais para falar menos que a verdade.

_ Dejanira: Por ordem de Al Zjasei filho do nosso senhor, o prisioneiro deve ser apresentado ao nosso senhor o mais breve possível, faremos a escolta assim que atender sua necessidade.
                    A moça passou pelos guardiões que sem demora abriram a porta de madeira sólida selada com pregos de metal escuro. Tratava-se de uma cela simples, o único retângulo de pedra ao chão servia como cama e no momento banco para o velho que olhava tristemente o filete de luz entrando pelo chão, lá alguma abertura havia na parte mais baixa da cela, mesmo que com barras de metal fechando-a, a passagem não seria suficiente para um homem adulto e se tranponida levaria ao rios dos mortos de toda forma. Dejanira olhou o balde raso perto do Velho e suspirou em alívio ao perceber que estava vazio, sem fezes ou urina para se preocupar ela se aproximou do prisioneiro e ajoelhou aos seus pés.

_ Consciência: Ah! Não vá pensando bobagens Velho, suas carnes não prazer com esta aí, supondo que conseguiria…
                    A moça ergueu seus olhos redondos da direção do Velho que se espantou com a beleza, mesmo negros como a noite ao centro havia neles uma belíssima borda de azul pálido, a luz penetrava dentro deles e assim o Velho também neles se perdia, bom tempo se passou até que percebesse sua boca aberta e a demora em responder.

_ Dejanira: Suas mãos, por favor…

_ Consciência: Apaioxado pela negrinha Velho? Tem mesmo sua beleza…
                    Enquanto estendia suas mãos trêmulas na direção da moça, a voz na sua consciência proferindo ofensas e palavras chulas o despertou do momento de encanto, queria dizer que parasse que não dissesse tais ofensas na presença da moça tão bela, mas sabia que a moça não podia ouvir, que aquela voz tormentadora estava apenas em sua mente. O único risco era enlouquecer para não perturbar o cuidado e delicadeza da jovem ao limpar suas mãos com um pano e balde d’água o Velho permaneceu em silêncio.

_ Consciência: Vamos Velho! Diga alguma coisa, ela não sabe ler seus pensamentos impuros, precisa contar… E ademais talvez ela também queira não é? Algumas precisam de certa força para perceber que querem…
                    Dando provas de sua loucura a voz na mente do Velho o faz visualizar suas mãos agredindo e despindo a moça, mais ainda contra os protestos e gritos visualiza a pobre sendo violentada por ele. Terminando a limpeza das mãos a jovem calmamente trocava os panos quando percebeu as lágrimas no rosto do Velho, assustada elas afastou pouco e com cuidado perguntando-lhe se estava ferido. Ainda sem coragem para falar o Velho acenou que não, havia dor e compadecimento nos olhos da moça, ela então perguntou se tinha sede e na resposta apanhou da cesta um jarro de barro, com a mesma delicadeza a jovem levou a borda do jarro à boca trêmula do Velho que bebeu o leite enquanto as lágrimas lhe caíam. A jovem secou-lhe o rosto e perguntou se tinha fome, o Velho acenou novamente já secadas as lágrimas e sem tanto tremor ele comeu frutos daquela terra que a moça lhe servia uma a um, um pedaço de pão em formato achatado e por fim numa pequena caneca também de barro a moça ofereceu uma bebida de cor negra como a era negra sua pele, de sabor forte e quente a bebida era exuberante ao paladar. Depois de juntar os utensílios a jovem levantou-se graciosamente, aparentado menos preocupação.

_ Dejanira: Tenho de vestí-lo em acordo…

_ Consciência: Ora! Não te disse velho, ela quer… Está mesmo usando de desculpas para tirar suas roupas, veja só…
                    Tentando ao máximo controlar suas emoções para que não trair as ofensas que a voz insistia em despejar nos seus pensamentos o Velho se pôs de pé, era um bom tanto mais baixo que a moça e por sorte ela agiu com rapidez tirando-lhe suas calças e camisa, retirou apenas suas roupas de cima.

_ Consciência: Gosto não se discute, sorte que não pode se ver, teria espanto Velho, você é sujo, sua pele é suja e manchada como  se apodrecesse ao passar do dia, que horrível contraste a conjunção de vocês dois…

                    A expressão de tristeza era cortante na face do velho, por sorte a jovem foi ágil e limpar-lhe o peito e os braços por onde logo começou passar-lhe uma túnica, que ao final lhe cobriu o corpo perfeitamente, era branca e confortável, assim perfeita para clima de calor severo. Tomando certeza de que seu trabalho fora bem feito a jovem reuniu suas ferramentas nas mãos e se preparou para sair.

_ Velho: Obrigado…
                    Aparentemente era o máximo que sua boca podia produzir no momento, mantinha-se em pé e observava a jovem, com atenção e respeito, inda assim com espanto, como era linda. A cor na sua pele era atraente demais, mesmo que pouco se visse, pois faixas de tecido cobriam todo o rosto exceto pelos olhos, e do mesmo tecido era coberto seu corpo salvo pelos braços e os pés sandálias, sua beleza era exótica e impactante. A ausência de humanidade que experimentou no deserto por certo afetou sua percepção, pois notava detalhes com certo carinho que antes dificilmente dispensaria a outra pessoa, e sabia também que por mais que a voz lhe torturasse não havia nenhum desejo carnal em seu pensamento, por sorte a voz já se abstinha de comentar.

_ Dejanira: Se não tem outra necessidade devemos sair imediatamente.
                    Novamente sem saber como responder adequadamente o Velho apenas concordou com a cabeça, nenhum instante mais esperou a moça que mencionou com a cabeça para a por e virou-se de costas para seguir. No instante em que cruzou a porta os guardiões se moveram, posicionando-se à frente e à atras, seu passo se deu no ritmo que impunham depois disso.

_ Consciência: Pena que não verá aquelas formas caminhando à sua frente não é Velho?

                    Saindo do túnel de celas o Velho notou que não havia outro prisioneiro que não ele, pensou então no desagrado que causou aos guardiões, afinal tiveram de acompanhar seu encarceramento pelo tempo que ali ficou, sem dúvida retirados de outro posto mais digno. Fosse como fosse, notou imediatamente os enormes muros que cercavam a entrada do túnel, o caminho seguia por eles em curvas e becos até chegar à saída. A que percebeu a prisão foi posta nos fundos da escadaria que levava a entrada do palacete, mais precisamente na metade da escadaria. Antes mesmo de subir dois degraus o Velho ousou olhar para baixo e espantou-se com a beleza da cidade à sua volta, em nada lembrava o deserto por onde passara, havia árvores, casas e torres altas por toda, parte, ruas largas e movimentadas, em contraste com as cores pálidas das construções tecidos de variadas cores dançavam ao vento. Voltou sua atenção para os degraus tanto pela movimentação dos guardiões quando das pessoas que desciam os degraus das quais os guardiões desviavam tomando cuidado e acenando em respeito, nobres sem dúvida pensou o Velho.

_ Consciência: Quer dizer algo Velho? Ou ainda sem coragem? Como queira logo terei com quem conversar…
                    Incerto se deveria levar em consideração as últimas palavras em sua mente o Velho seguiu por pouco mais, coincidindo com a ausência de pessoas vindo em sentido contrário a entrada do palacete se deu vista. Era obviamente majestoso, Colunas de pedras esculpidas como mármore branco se erguiam em adornos até o teto decorado com ramos de folhas verdes, havia dois níveis, apenas o primeiro ocupado, uma sucessão de guardiões vestidos como os primeiros apenas com mais asseio e decoro. Ao cruzar as grandes portas de madeira impressionantemente claras e grossas como uma mão aberta a escolta do Velho foi imediatamente trocada, quatro novos guardiões se dispuseram a acompanhá-lo enquanto os dois anteriores se ajoelharam e se retiraram. Observando tudo sem virar demais sua cabeça o Velho notou que um grande banquete era servido numa mesa no meio do salão, havia lugares há toda volta com assentos de variadas formas todos vazios entretanto.

_ Consciência: Seja bem vindo…

                    Pouco antes da mesa mas já dentro do círculo que era o grande salão os guardiões deixaram è frente
do Velho revelando que havia sete convidados sentados à mesa do banquete, a figura central era por falta de palavra melhor radiante, um monarca sem dúvida. Teria de ser pensou o Velho pois o trono acima e ao fundo estava vazio apenas uma faixa verde ornada em ouro restava sobre o assento. A figura ao centro vestia cores vibrantes em verde como o dos guardiões mas de algum modo reluzente, era um homem em meia idade, ele acenou com a mão estendida na direção da jovem que acompanhava o Velho, a jovem fez uma breve reverência e se aproximou respondendo as perguntas que o homem ao certo lhe fazia, tudo baixo demais para que pudesse ouvir. No meio da conversa a moça, e de fato todos no palacete de ergueram suas cabeças notando a entrada. O Velho imóvel pois não sabia como reagir quando outro homem vestido com ainda mais riqueza entrou e sentou-se ao trono sem qualquer cerimônia, retirando a faixa verde que passou deslizar em suas mãos, não havia coroa sobre sua cabeça todos sentados a mesa se levantaram sem demora, o Velho se ajoelhou imediatamente.

_ (...): Oh não! Levante-se por favor, não concebo a ideia de alguém mais velho que eu ajoelhado a minha frente.
                    Disse a figura no trono enquanto a voz na cabeça do Velho ria em turno.

_ Consciência: Não concebo a ideia de que alguém possa ser mais velho que ele...
                    O Velho obedeceu levantando-se enquanto a figura no trono também se erguia e se aproximava do outro ao certo da mesa. Pousando a mão sobre o ombro do que vestia verde e ouvindo seus relatos, logo então a jovem foi dispensada com um sorriso e gesto delicado, ao passar pelo Velho ganhou dele um olhar.

_ (...): Serviu-lhe bem acredito.
                    Disse a figura majestosa sem permitir resposta continuando sua fala.

_ (...): Seu nome é Dejanira, caso tenha interesse em saber, ela tem idade para ser sua filha, como está no dito. Afinal um pai deve ter tantos filhos quando for capaz de prover não acha?
_ Velho: Sim senhor, ah… não sei como devo chamá-lo...
_ (...): Respeito é uma boa carta de apresentação se bem usado, mas também pode ser uma ofensa quando em demasia. Como dizia um pai deve ter quantos filhos for capaz de cuidar. Atendendo em parte seu pedido vamos às apresentações meu caro amigo, meus filhos.
                    Apontando para com a mão direita para os convidados na mesa e repousando por fim sobre o que se sentava ao centro só então o Velho reconheceu três deles como os que o capturaram no deserto na noite anterior.

_ (...): Sim de fato, alguns deles você já conheceu.
                    Disse ao perceber o olhar de espanto no rosto do Velho.

_ (...): Meu nome como é falado por aqui pode também ser traduzido como Pai, chamam-me AlaMed. Claro que saberia disso se soubesse ler o que está escrito nesta faixa…
                    Disse enquanto mostrava os emblemas em dourado no tecido que constantemente passava entre as mãos. Ao se dar conta deste fato um dos filhos se levantou exaltado mas lutando para se controlar.

_ Rjadí: Não sabe ler nossas linhas? Mas sabe falar nosso idioma como se tivesse nascido nesta terra? Como vai se explicar agora Velho?

_ AlaMed: Não há razão para nos exaltarmos meu filho, já havia concluído isso pelo fato de não saber a outra conotação para o meu nome não é mesmo? O que em nada surpreende já que sabemos o que ele é e sua natureza peculiar.

_ Zjasei: Não está considerando esta história meu pai? É apenas um homem idoso, lembre-se do que a serva disse sobre ele lágrimas, como fosse ofendido.

                    Disse o que estava sentado ao centro enquanto se levantava, pouco depois todos estavam de pé expressando suas opiniões em elevado tom, apenas Rjadí matinha os olhos fixos no velho.

_ AlaMed: Meus filhos! Por favor, sentem-se.

                    Bastou que terminasse a frase para que todos estivessem sentados e disciplinadamente calados, com a exceção dos olhares nenhuma reação era evidente.

_ AlaMed: De fato, um homem deve zelar por seus filhos, e a extensão de seu zelo deve determinar quantos poderá ter sob sua guarda. Digam-me meus filhos não sou seu Pai? Não confiam a mim a vossa guarda? Digo mais, não são todos que vivem dentro e fora dos muros dessa cidade meus filhos?
                    Fúnebre silêncio se instalou e o Velho se impressionou ainda mais com forma como AlaMed comandava seus assim ditos filhos, enquanto falava seu discurso ganhava em eloquência e atenção, mas estranhamente diminuía em volume, tamanha era sua autoridade  o Velho concluiu.

_ AlaMed: Lágrimas enquanto a serva lhe atendia, antes perdoe expor os fatos, as intimidades de um homem inda mais na sua idade deveriam ser apenas de seu concernimento, mas o caso necessita de apreciação. Meus filhos quem esta diante de vocês é de fato apenas um homem velho, é o que podem ver é o que é, porém dentro deste pobre homem habita um grave mal.
                    _ Sim exatamente - uma voz soou na mente do Velho, parecendo mais distante no salão AlaMed continuava seu discurso. A voz de tom ameaçador, cruel e de certa forma ancestral falava diretamente ao Velho - Sabe o que é melhor? Estou com ela aqui, ela é minha agora - Os olhos do Velho abriam mais e mais enquanto AlaMed falava e apontava o indicador diretamente a ele - Não concorda que está melhor assim? Afinal ela te torturava tanto não é? - E mesmo um sorriso na face do senhor que se intitulava pai de todos daquela terra o Velho podia ver, uma dor como se seu peito fosse esmagado e então sua visão se tornava distante escurecendo nas bordas em ritmo - Sabe o que mais Velho? Você não vai deixar este lugar, não vivo ao menos - E tudo era escuridão.

_ Velho: De fato são gotas d’água. Parecem mais fortes agora que notei. Deve haver mais, parece que meus pensamentos atrapalham-me ouvir, mas a possibilidade de calar minha voz interior não me agrada. Voltando as gotas seu fluxo parece não alterar estão quase diretamente a frente, acredito que na mesma direção daquela coisa que toquei com meus pés, era viscoso demais para ser água.
                    O tempo passava, ou possivelmente passava, a escuridão absoluta é estado mais esperado para qualquer desavisado, deixamos que escuridão nos tome, é um conforto quando as rédeas da vida estão soltam ou sob os cuidados de outrem, eis pois a escuridão. Na luz temos que ver, mesmo a nós e nossos erros, precisamos encarar, se estamos debaixo da plena luz não há fuga, lá podemos ver o belo de fato e também o defeito, sem a luz há o conforto da ignorância, mas nem por isso menos dor.

_ Velho: Sangue, deve ser sangue que ouço caindo ao chão, explica a viscosidade e agora que entendi há cheiro adocicado, não sou bom com cheiros e isso certamente é uma desvantagem na escuridão, mas acredito que seja sangue, houve algo mais há pouco um calor, sutil de início, mas logo o calor aumentou e então desapareceu, e se bem pensado este mesmo calor esteve aqui antes só agora foi que entendi.
                    Negar é também mergulhar na escuridão, tão mais fácil que enfrentar, a negação se torna tão comum que parece mesmo nem existir. E da negação nasce a mentira, como um fruto natural brota, floresce e se faz madura nas bocas e nos corações, mentir é necessário, mentir é consequência, mentir é uma escolha, nada disso, mentir é inútil. Inda que pareça haver lucro e recompensa no ato, estamos lesando nossa integridade, a escuridão é também uma grande mentira, a luz da razão mostra que não há de fato a possibilidade da total ou eterna escuridão, se algo de fato não existe como pode fazer qualquer mal?

_ Velho: Entendo que posso estar à beira da morte, a carcaça esquartejada a minha frente foi a refeição da fera que ronda e retorna para saboreá-la vez mais, disso o pouco sangue que caiu visto que a vítima já expirou, o calor é próprio hálito da besta passando por sobre mim durante sua ronda, se estou acorrentado devo ter pena que pagar, se a fera não me devora é por que não tentei qualquer fuga. Lá no horizonte imaginável por diversas vezes vi a tímida luz, foi também pela constante de meus pensamentos que custei dar conta de sua existência.
                    Com mais e mais clareza o Velho ouvia os passos da fera, enorme que era caminhando pelo chão, sua respiração era ruidosa e por vezes parecia mesmo dificultada, vez ou outra passava perto de seu rosto e o calor que emanava era notável, logo então a fera se punha a devorar a carcaça à frente do Velho.

_ Velho: Estou preso, e mais espantosamente do que jamais poderia imaginar. Preso em minha alma arruinada, lá fora meu corpo apodrece, enquanto aqui a fera de meus erros devora as sobras das minha virtudes, minha pobre e debilitada psiquê observa este grotesco cenário sem que a luz da razão se aproxime o suficiente para salvar-me deste inferno. Inda assim não posso provar minha inconsciência.

_ (...): Velho?
_ Velho: Que voz doce.
_ (...): Velho? Ouve a minha voz?
_ Velho: E chama meu nome, é senão a vera morte, pois se for tem já meu convite mais terno.
_ (...): Sabe bem quem sou. Sou a Noite abra teus olhos para ver...
                 
                    O Velho sentiu-se o novo despertar desta vez já com custo e com dor, contribuindo ao póstulo de que sua vida ainda tivera fim dado. Em mãos ternas se encontrava o velho, debruça no colo carinhoso, deixando que as carícias guiassem mesmo a sua respiração, fluindo numa dança, movimento e intervalo. A escuridão havia se dissipado tinha certeza, já notava a luz penetrando suas pálpebras, abriu então os olhos.

_ Velho: Você é a Noite? Mas inda é uma menina...

                    Segurando o pobre velhinho em seus braços Dejanira o trazia para as margens. Este era o seu trabalho e por mais honraria que fosse servir ao séquito família nobre, era revoltoso, mas ordens são ordens. Após sentença os condenados eram atirados para o julgamento dos deuses, era trabalho das servas esperar que manhã o corpo fosse depositado sem vida nas areias, para então dar-lhe alguma dignidade fúnebre, quem poderia prever que este Velho sobreviveria.

_ Velho: Não tenho forças menina...
_ Dejanira: Fique calmo, o pior já passou, não é sem motivo que chamam este de o Rio dos Mortos.
                    Enquanto contemplava o que faria com o pobre velho, observava que a tristeza tão natural no olhos dele tinham certo valor, aquele era homem de alma frágil. falho como qualquer outro, e como qualquer outro que se permitisse estava ao alcance de salvação.
_ Dejanira: Veja essas feridas, não se mova pode enquanto, apenas fique calmo, sua alma foi julgada e não há mais o que temer, fique calmo, não vou soltar sua mão.
                    *                    *                    *
efebo
Enviado por efebo em 12/01/2019
Reeditado em 12/01/2019
Código do texto: T6549608
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