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Por que dor rima com amor (Parte I)

O vento soprava e consigo trazia belas melodias que acariciavam meus ouvidos enquanto meus olhos desfrutavam da maior dádiva que deus fizera. O perfume das rosas anunciava sua chegada: lá estava ela, linda dentre o campo. Seus cabelos eram plumas que dançavam ao vento; em suas mãos havia flores que diariamente as colhiam. Cantando ela se aproximava... O sol brilhava espalhando o verde dos teus olhos pelas folhas. Envergonhado abaixei a cabeça, enquanto de sua boca brotavam palavras simples, mas que pra mim faziam valer o dia. E lá ia embora a bela Niele... Respirei fundo, ergui a cabeça e fui começar o dia.
Sentei-me dentre as cestas de frutas, como de costume, e efetuei a primeira venda do dia. Algumas horas se passavam, mas não conseguia desviar o pensamento nela nem um só minuto. Foi quando de longe meus olhos puderam avistar, uma bela jovem de cabelos longos e negros como a noite. Meu coração não se enganara, era ela! Minhas pernas não mais controlavam; as mãos suavam; a respiração acelerada; e a boca tornou-se seca... Pensei novamente em dizer o que sentia, e mais uma vez só conseguira dizer uma tremida saudação. Eu não entendia o porquê de tanta aflição para declarar minha paixão. Faltava-me coragem... Eu tinha medo de ser rejeitado! Aquilo açoitava minha mente e tirava-me o sono.
Após alguns dias de reflexão e tentativas frustradas, percebi que o modo mais fácil e simples era elaborar uma carta revelando todo o meu amor oculto em meu sofrimento. Decidido, olhei para os lados a procura de algo, logo, fixei-me em um papel e com um olhar auspicioso trouxe-lhe para próximo de mim. As palavras fluíam como se estivessem em um rio de tinta sobre o papel; e um belo texto elaborei, com todas as vírgulas e sentimentos que dormem entre palavras fortes; e dentre todos os adjetivos e conjunções, escondia-se emoções pelas entrelinhas. Dobrei-a cautelosamente, certificando de que nenhuma palavra havia se perdido; e o envolvi num papel pulcro, escrevendo teu nome no verso: estava pronto! Em minhas mãos repousava três anos de amor e dor que estava pronto para ser transformado em felicidade. Coloquei-o no bolso e fui imediatamente para o campo no qual ela colhia flores todas as manhãs: eu sabia que não teria coragem de encará-la olho a olho e entregar-lhe em suas mãos, então, o deixei em meio às rosas preferidas; me distanciei lentamente com um olhar arrependido e esperançoso. Alguns minutos depois, as flores que guardavam meu futuro foram acariciadas pelas macias mãos da Niele, enquanto seus olhos se desviavam para um papel que roubava o perfume das rosas; ela olhou ao redor e novamente voltou às atenções ao papel no qual avistava o teu nome. Imediatamente colocou-o entre os seios e continuou sua caminhada como se nada tivesse acontecido. Admiro como conseguia controlar sua curiosidade, mas tudo já estava feito, não tinha como voltar atrás. Ansioso por sua resposta, mal conseguia realizar as atividades rotineiras. Olhei para o céu e me exclamei ao ver a noite envolver a tarde repentinamente, como uma luva negra sobre alvas mãos: achei muito estranho... Jamais havia visto coisa parecida em minha vida. Percebi então, que naquele momento, eu não havia pensado nela. Questionei-me algumas vezes; confuso, recolhi-me ao aposento; e quando descansei minha cabeça sobre o travesseiro, a ansiedade novamente me tomou. Faltavam apenas algumas horas para eu rever meu grande amor e poder desfrutar da coisa mais linda de que eu já vi!
As horas passavam e meus olhos não mais obedeciam aos meus comandos, foi quando pela janela do quarto senti teu caminhar pulsando junto às batidas do meu coração; imediatamente dirigi-me para o campo: lá estava ela, teu rosto estava mais lindo do que nunca e estampava um sorriso confortador como nunca havia visto antes. A noite enegrecia ainda mais seu cabelo, roubando o brilho da lua. Eu podia sentir seus lábios movimentando-se como se estivesse me dizendo algo, entretanto, eu não conseguia ouvi-la! A vontade de tê-la em meus braços era maior que eu, corri em sua direção com o peito aberto, e a cada centímetro que percorria a felicidade era mais forte, e no momento em que teu rosto tocava o meu... O alarme toca, é hora de ir ver meu amor. Foi tão real que quase pude sentir teus lábios úmidos sobre os meus.
Levantei-me rapidamente e olhei-me ao espelho. Não acreditava que aquele dia tão esperado havia chegado! Dirigi-me então ao campo, olhando atentamente ao redor. Estava com meu melhor perfume e roupa de primeira, o cabelo arrumado mostrava seriedade e na mão: uma rosa; o amor. Nenhum sinal dela... Imaginei que imprevistos poderiam tê-la atrasado. Escorei-me sob o tronco de uma árvore próxima, assegurando uma sombra para que o suor não viesse a invadir o meu rosto. Curiosamente olhei o relógio, já era hora dela ter aparecido, não querendo demonstrar minha impaciência decidi esperar mais um pouco.
As horas eram um rio, que escoava rapidamente; o sol que as costas avistava, o peito passou a receber, e a sombra que trazia frescor, agora me expõe ao calor... Desapontado custou-me a perceber que ela não viera. Triste e iludido lancei a rosa que trazia, ao solo seco e maltratado; iniciei minha longa volta para casa. Em meu caminho pude perceber coisas que até então não via: o cachorro esfomeado e doente; as arvores mortas; tudo parecia tão sem vida... Os pássaros não mais cantavam, grunhiavam implorando a vida, e os bardos solfejavam músicas tristes. E neste dia não fui trabalhar. A noite nunca foi tão longa... Pra onde eu olhava sua imagem refletia e sufocava meu peito. Estava péssimo, e mesmo sabendo de seu desgosto a mim, ainda a amava tanto que não suportava a dor da rejeição...
Decidi então que o único jeito de extirpá-la de mim seria ir pra bem longe dali. Pela manha fui despedir-me da minha angustia, onde sempre estivera: pelos campos... Andando dentre as rosas uma luz vinda do chão roubou-me a atenção. Abaixei-me devagar estirando a mão em direção a luz. Tratava-se de um colar... Olhando fixamente pude perceber que eu já o tinha visto anteriormente. E não custou-me muito a identifica-lo. Franzi a testa de forma interrogativa e logo me veio à lembrança de teu rosto, e lá estava ele, abraçado em teu pescoço como se escorresse pelo seu corpo até esconder o insolente pingente sob teus seios. Peguei-o com cuidado admirando cada centímetro até todas as atenções convergirem a um só ponto: o pingente. Ele parecia estar entreaberto... Curiosamente não êxitei em abri-lo! Meus dedos grossos deslizavam sobre aquela jóia fina, até desvendar-me o seu interior. Cai de joelhos sobre o solo fértil ao ver minha imagem dentro do colar. Fiquei pasmo com o que via, pressionando-o contra o peito enquanto do meu rosto escorriam intensas lágrimas ferventes que após cruzar o rosto descansavam sobre o solo. Não conseguia pensar em nada e nem acreditar no que meus olhos me diziam. Estava tão afobado para perceber que naquele local onde estava o colar, era exatamente o mesmo em que deixei a carta. Só então pude entender que não foi acidental... Ela mesma o deixou lá!
Se ela me amava, porque não aparecestes para me encontrar? Não fazia sentido! Talvez ela queira que eu a encontre! – Niele, eu te amo e lhe encontrarei onde estiver! Naquele momento fiz um juramento de amor e lealdade gravando no tronco da arvore nossos nomes tão entrelaçados de forma que não poderiam mais ser separados. Abri os braços e dancei ao som do vento que balançava as galhas num rítimo de tão quão felicidade eu estivera naquele momento... Admito que se alguém me viu nesta hora aponta-me como louco, gritando dentre o campo. Terminado o apogeu da felicidade, corri para casa desfazer minhas malas.
Era hora de encontrá-la, e o primeiro lugar a procurar seria logicamente sua casa. Chegando ao destino, fixei-me em frente a porta: minha mão suava molhando o buquê de flores que segurava; o coração acelerado não escondia a ansiedade. Respirei fundo e bati na porta, espantosamente não ouve repercussão, então, bati novamente. Aguardei alguns instantes e... Um vazio... Ela não estava em casa! Impaciente, dei a meia volta e continuei a andar. Procurei-a por todos os locais da cidade que ela costumava freqüentar. Tentativas frustradas... A noite veste o dia e a lua cobre minha cabeça: não tinha mais lugares para procurar... Como eu podia merecer tão castigo?
Andando a esmo decidi entrar no primeiro boteco que avistei. Afinal de contas, estava muito cansado e precisava tirá-la da minha cabeça por um momento. Sentei-me em uma mesa na qual julguei agradável e pedi algumas bebidas... Minutos após, ouvi uma voz familiar vinda do lado de fora, e ela se aproximava gradativamente, até que... Eu sabia! Eu podia estar um pouco fora de si, mas meus ouvidos nunca falharam! Acaba de entrar pela porta meu grande amigo John! Surpreso em também encontrar, John abraça-me forte, dando duas tapinhas no meu ombro. Pedi mais duas bebidas e estirei uma cadeira para ele sentar.
John parecia um pouco nervoso, mas decidi deixar pra lá. Perguntei-o como estavam a família e os negócios, mas fui interrompido por suas palavras que rasgavam as minhas se sobrepondo de forma imperativa. Ele dizia que sabia o que eu estava sentindo, e eu o disse que a amava muito e que não podia mais guardar aquele sentimento só pra mim. Compreensivamente ele repousou sua mão sobre a minha, me dizendo que ele estava ali para compartilhar esse sentimento, pois ele também sentia o mesmo. Imediatamente retirei minha mão debaixo da dele e confuso não quis pensar no óbvio. Percebi que ele ficou tão surpreso quanto eu, e tentando me acalmar ele disse que era uma situação realmente triste, mas que ele estava ao meu lado. A cada vez que sua boca se abria eu mais me horrorizava. Agressiva e desesperadamente impus que calasse sua boca afiada e disse que não suportava tal blasfêmia e traição! Era tão insolente quanto absurdo que meu melhor amigo tinha se casado com ela. Estava então explicado porque eu não a encontrava em nenhum lugar!
Respirando profundamente ele levou sua mão direita ao rosto, deslizando os dedos pelo cabelo. Sua testa franzida revelava preocupação e sua cabeça movimentava-se em sinal de reprovação: “eu pensei que soubesse meu amigo...” e suas palavras apenas confirmavam a situação, me abatendo cada vez mais. Pausadamente ele pediu para que eu sentasse: iria contar toda a historia. Imediatamente resmunguei e me dirigi para fora do boteco, John segurou-me pelo braço e olhou-me nos olhos; claramente ele percebeu a fúria em meu olhar e disse que nunca a desejou e nem tão pouco teria qualquer tipo de relacionamento com ela. O que acontecera ia muito alem disso.
Confesso que me aliviei um pouco, mas me tornei muito mais angustiado. Mesmo assim sentei-me e dispus-me a ouvir o que John tinha para dizer. Realmente era uma situação difícil, e suas palavras secas misturavam-se com minha ansiedade, tornando-me mais impaciente. E a cada minuto que se passava eu me sentia pior, foi quando, interrompendo a conversa pedi para que ele fosse direto ao assunto. Surpreso, ele fechou os olhos, respirou fundo e disse: “Niele está a sua espera... no paraíso”. Suas palavras esmagavam o meu peito, fragmentando meus sonhos e planos; mas ao mesmo tempo não me convenciam, ela estava viva dentro de mim. Sem acreditar andei em direção a porta de saída John dessa vez não fora atrás de mim, apenas suas palavras me seguiam como uma carreira de formigas. Abri a porta e quando meu pé atravessou a soleira, ouvi mais uma vez sua voz... “O velório será as 8:00”.
A esmo, caminhei. As palavras envenenadas de John açoitavam minha mente a cada passo. Escorei-me sobre o costado, não mais sentindo minhas próprias pernas, que desabaram cedendo à rua a minha dor, espalhando toda ambição pelas frias pedras do chão. Meus olhos ensangüentados imploravam pela sua imagem, que aos poucos ia se desfazendo, transformando-se num indistinguível borrão.
Vagner Carvalho
Enviado por Vagner Carvalho em 23/09/2007
Reeditado em 25/09/2007
Código do texto: T664357

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Sobre o autor
Vagner Carvalho
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
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