Portas

Terminado o evento, com todos rumando de volta aos seus lares, Gildo abriu a janela do quarto escuro e desanimado, contou estrelas. Passado certo tempo em plena desolação de sentimentos, uma voz pousou em seus ouvidos:

"Não tenha a porta como uma inimiga prendedora de sonhos; veja-a como um sofisticado objeto de satisfação que separa o joio do trigo, que mantém distante a superação e conquista, do pessimismo do desanimador, da inoperância dos falazes que nunca fazem. Ouça o seu coração e ele dirá que você fez o proposto, trabalhou insanamente, organizou o evento que serviu a todos, e tudo saiu perfeito".

A voz silenciou. Repentinamente, prosseguiu: "a maioria sente de boca para fora; você não fala, mas sente de coração para dentro".

Olhou por todos os lados e logicamente, não viu ninguém. Encostou seu desapontamento no travesseiro, novamente a voz melodiosa fez-se ouvir: "descanse bem; relaxe o corpo, mas principalmente a mente. Antes de dormir, agradeça a quem de direito pelo que fizessestes. Repita o ritual amanhã e abra a porta; certamente a imensidão do mundo espera-o. E continue sendo o bravo homem, que sempre fora".

Era tudo que precisava. Seguiu ao pé da letra o aconselhado; agradeceu a quem de direito, desligou os botões das desilusões mundanas e dormiu feito pedra. 7 horas que pareciam a eternidade.

Despertou no dia seguinte. Agradeceu a quem de direito, lembrou por lembrar do dia anterior, pois já era passado e sorriu francamente, afinal, o novo dia prenunciava novos eventos. Caminhou para sua rotina de vida.

P.S.: da série "A silente humildade é dom de uns catados a dedo; e a ingratidão é ato praticado pelos falsos que, dando uma de bondosos Santos, rodopiam ao redor do restante da humanidade.

Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 15/09/2019
Reeditado em 15/09/2019
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