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O Vilarejo Superno - Geminae

"Um celeste e um terrestre, dois corpos por um, como gêmeos formando eternamente um único, pois separados impossível".

Desobediência e Castigo

Alba ficou transtornada ao notar a ligação dos filhos. Sempre foram muito unidos e jamais gostaram de se separar, porém, após o Processo Geminae muitas coisas mudaram. Aquele dia foi como um difusor na vida dos seus filhos. Ao acordarem estavam confusos com o ocorrido e com muita fome.

- Mamãe! Estamos com fome. – disse Adrián.

- Estão? – intrigada.

- Sim, mamãe. O Tino e eu queremos comer.

- Venham para a sala. Todos. Eu vou preparar a janta.

- Minha amiga! Foi indescritível o que presenciei e agora muitas coisas fazem sentido para mim. – disse Chiara já a porta para se retirar.

- Me perdoe...

- Não há o que perdoar. – interrompendo Alba. – Sua família é maravilhosa e abençoada por Coelum. Agradeço por fazer parte de tudo isso. – Chiara abraçou a amiga. – Amanhã conversamos?

- Sim, é claro.

Alba fechou a porta e foi de encontro aos filhos. Para cuidar-lhes.

Após aquele dia, os gêmeos jamais se trataram individualmente, sempre um falava pelos dois, usavam trajes parecidos, pediam coisas iguais, foram desenvolvendo costumes e comportamentos parecidos. E, a cada dia, Alba se impressionava com a relação que os gêmeos vinham construindo. Passou a perceber que para eles já não eram mais dois, eram um único ser habitado em dois corpos, que se completavam em todos os sentidos.

Titus e Alba jamais se mostraram contra a mudança dos gêmeos. Apoiavam os filhos em suas mudanças. Titus notou que os meninos estavam indo melhor nos treinos, passaram a aguentar mais pesos, mais carga horária e que sentiam prazer em estarem treinando tanto.

- Papai! – chamou Valentino.

- Fala filho.

- Nós queremos mudar as coisas do treino. Queremos começar a treinar equilíbrio e adagas.

- Não! – rispidamente. – Não têm idade para adagas ainda. É muito perigoso.

- Mas nós podemos. Sentimos que iremos bem e não vamos te decepcionar.

- Já falei que não. Podemos começar o equilíbrio, mas as adagas terão que esperar um pouco mais.

- Mas papai...

- Sem mais Valentino. Vão se lavar e comer. À noite vamos sair para o treinamento noturno.

Os meninos não disseram mais nada e obedeceram ao pai. Titus terminou de ajeitar as lenhas, tirou os materiais de treino e guardou-os, depois se sentou ao banco de madeira e olhando ao céu pensou novamente no que Valentino havia pedido. Suspirou fundo e sorriu ao lembrar-se de que os meninos estavam com a mesma gana que ele tinha sempre que o pai lhe trocava de treinamento ou de materiais. "Os homens desta casa são fortes, inteligentes e destemidos". A voz de seu falecido pai não saia de sua cabeça.

- Mal sabem disso e já estão honrando ao lema do avô. – sorrindo orgulhosamente.

Levantou-se e foi para dentro de casa. Após todos se alimentarem Titus foi ao quintal preparar os materiais que usaria no treino noturno com os gêmeos. Os meninos foram para o quarto descansar e Alba colocou Cicely no cesto e cuidou da casa.

Antes de saírem para o treino os gêmeos brincaram um pouco com Cicely e quando os meninos ouviram o pai chamá-los Adrián beijou a testa de sua irmã e saiu. Valentino repetiu o gesto de carinho e sussurrou em seu pequeno ouvido:

- Bruxinha – disse sorrindo. – Cuida de nós? Eu te amo. – e saiu confiante.

Cicely continuou balançando no cesto e seus olhos começaram a brilhar em tom rosa bebê neon. Sua boca formou um sorriso lindo e suas mãos estavam em volta do mesmo brilho. Alba notou o brilho de Cicely, mas acostumada com o jeito da filha deixou-a ininterrupta.

Titus e os gêmeos adentraram a mata, eles seguiam em direção norte e logo chegaram a uma clarabóia, onde Titus parou e notou os meninos com os olhos fixados nele, aguardando os comandos. Titus respirou fundo e começou as instruções:

- Hoje nós vamos treinar agilidade e equilíbrio. São duas modalidades importantes a todos os homens. Principalmente os da nossa família.

- Certo. – disseram em uníssono.

- Dois alertas: primeiro, para cá. – E apontou com o dedo. - Vocês estão proibidos de irem sentido sudoeste. E segundo, para lá. – apontou sentido contrário. - Jamais ultrapassem o limite da casa de Eloy. Compreenderam?

- Sim, papai. – disse Adrián. – Nós entendemos.

- Ótimo, vamos começar com agilidade. Quero que vocês corram até a casa do Eloy e voltem, sem sair da mata, irei cronometrar o tempo e falaremos depois. Prontos?

- Prontos! – disseram os gêmeos após entreolharem-se.

- Uma coisa. Lembre-se que vocês não estão competindo. Apenas treinando.

Os gêmeos balançaram a cabeça afirmativamente e assim que escutaram o sinal do pai saíram em disparada. As folhas e galhos pareciam estar voando por onde os meninos passavam. Eles se olhavam durante o percurso e riam para ambos. Logo voltavam os rostos para frente e concentravam-se na corrida. Não demorou avistaram a casa de Eloy e notaram uma marca limite, propositalmente, colocada por ele para o treinamento dos meninos.

Chegaram ao limite e deram a volta, correndo sempre no limite da mata. Adrián pensou no que o pai os alertou: "vocês não estão competindo" e outra vez, e outra, a voz do pai não saía de sua cabeça.

- Tino, duvida que eu chegue primeiro que você? – disse sorrindo maliciosamente.

- Duvido Dri, você é mais lento que eu. – sorriu faceiro.

Os meninos aceleraram e começaram a competição. Um querendo ultrapassar o outro e já não se mantinham atentos a mata, somente ao desafio de ganhar. Estavam quase chegando à clarabóia novamente quando Adrián olhou para o lado e notou que Valentino estava muito próximo, mas não percebeu que havia um galho sobressalente em sua frente. Tropeçou e rolou ao chão violentamente. Parando perto da clarabóia.

Os olhos de Cicely, naquele momento começaram a brilhar intensamente. Chegou a trocar o tom de rosa bebê neon para rosa pink. O brilho foi tão intenso que Alba incomodou-se e foi de encontro à filha, ao tentar pegar a menina não conseguiu, pois Cicely estava queimando. Alba surpreendeu-se ao ser tocada pela filha. Cicely pousou sua mão na mão de Alba e logo seu corpo foi tomado pelo de brilho de Cicely e seus olhos foram revirando.

Titus correu de encontro ao filho e o avistou todo cortado e sangrando. Com um machucado no canto direito da testa e um pequeno rasgo no canto da boca. Desesperou-se e começou a gritar por Valentino, que quase imediatamente chegou de encontro ao pai. Suando e gemendo. Titus estranhou o comportamento do filho, já que, aparentemente, estava saudável e sem machucados.

Alba estava na mata, sentia-se na mata, viu a clarabóia e Titus sobre Adrián desmaiado e Valentino em pé gemendo ao lado do pai. Desesperou-se, mas por mais que ela gritava, eles não puderam ouvir. E resolveu calar-se, observar e ouvir.

- O que foi? É o seu irmão que está machucado aqui. – disse Titus desesperado.

- Papai, ele sou eu e eu sou ele. Se eu sinto, ele sente e se ele sente, eu sinto. Está doendo!

- Não estou entendendo você Valentino. Precisamos levá-lo para casa. Aliás, vamos a Eloy que está mais perto.

Naquele instante Valentino caiu de joelhos e segurou a mão de Adrián. Sentiu o sangue borbulhar e ao tremer mirou o céu. Seu olho brilhou em luz dourada. A luz percorreu seu corpo e passou para o corpo desmaiado de Adrián. Titus se afastou, pois seus olhos não aguentavam o brilho dos filhos. Valentino gritou estridentemente e caiu sobre seu irmão. Uma grande explosão do brilho dourado e rosa pink fez Titus tontear e cair para proteger-se. E cancelar o poder de Cicely, Alba estava novamente em casa, caída no chão. Os olhos de Cicely estavam fechados.

Ao levantar, Titus notou que os gêmeos estavam despertando lentamente. Correu até eles e verificou se estavam bem. Logo quis saber o que houvera ali. Os gêmeos baixaram a cabeça e Adrián falou.

- Nós te desobedecemos. Apostamos corrida, competimos. Eu disse ao Tino que chegaria primeiro e ele disse que era mais rápido que eu e começamos, mas eu não prestei atenção e tropecei.

- Vocês foram desobedientes no primeiro treino fora de casa. Imaturos e fanfarrões. E ainda querem treinar com adagas? – suspirou em cólera. – Vamos já para casa. Estão de castigo por uma semana. Sem diversão nenhuma. Somente treino e irão ajudar a mãe de vocês nos serviços de casa.

- Tudo bem papai. Desculpa.

- Não quero saber de desculpas. Decepcionaram-me. Vão para casa.

Eles seguiram o caminho para casa em silêncio. Os gêmeos abraçados e cabeça baixa e Titus enfurecido atrás os acompanhando. Entraram em casa e correram para Alba que estava desmaiada.

- Mamãe!

- Alba! – disse Titus ao notar o que os meninos gritavam. – O que houve aqui?

Alba despertou um pouco zonza, mas ao avistar os gêmeos os abraçou fortemente.

- Meus filhos! Vocês estão bem? O que aconteceu? Como estão? – eufórica.

- Calma mamãe. Estamos bem.

- Eu vi você desmaiado meu filho, o que aconteceu?

- Nós estávamos correndo e... Mamãe, como a senhora viu se não estava lá?

Alba lhes contou tudo o que aconteceu em casa e eles narraram os fatos da mata. Valentino sorriu, pois sabia que Cicely os havia protegido. Ele tinha pedido. O gêmeo abaixou-se, chegou ao ouvido de Cicely e agradeceu, beijou a testa da irmã e levantou-se notando o sorriso encantador da menina.

Titus e Alba conversaram com os meninos a respeito de sempre obedecê-los, para que coisas daquele tipo não retornassem a acontecer. Os gêmeos ficaram o tempo todo de cabeça baixa e concordaram com os pais. Na hora de dormir, Adrián deu um beijo em Cicely e notou sua mão ser tocada pela irmã. Sentiu um forte refrigério no corpo e viu a luz branca emanar de sua mão, os machucados de seu rosto brilharam e sumiram. Cicely sorriu para ele e ganhou mais um beijo de agradecimento. E todos foram se deitar.

Batista Andrade
Enviado por Batista Andrade em 04/11/2019
Código do texto: T6787096
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Sobre o autor
Batista Andrade
Guarulhos - São Paulo - Brasil, 26 anos
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Batista Andrade