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[Fantasia] Poeira

Ellen foi jogada no calabouço por dois guardas truculentos. Um deles olhou lascivo para suas pernas morenas, por entre o vão da saia surrada. Mesmo após ter sofrido três dias de torturas, seu corpo sinuoso ainda era um convite à luxúria.

O som das trancas de ferro ressoou pelas paredes de pedra, se misturando aos gemidos e gritos de outros moribundos e aos guinchos dos ratos que infestavam a prisão.

Enquanto os guardas voltavam pelo corredor, Ellen continuava a ouvir os insultos que a acompanharam desde o momento em que foi ali jogada: “Bruxa! Queimem! Filha do Demônio!”

Não. Ela não se considerava uma bruxa. Era uma contista; uma trovadora; enfim, uma artista. Mas os malditos daquela vila não compreendiam sua Arte. Acusada de bruxaria, foi julgada pelos aldeões e condenada à fogueira. Assim que o sol nascesse, teria seu corpo queimado.

Prostrou-se ao chão de terra batida e empoeirada. Passou as mãos no solo vermelho, alisando-o como se estendesse um pergaminho encardido. Seus olhos brilhavam na escuridão enquanto a unha enegrecida do indicador direito escrevia um conto na terra.

Apresentou seu herói: um guerreiro de armadura negra, montado num corcel prateado. Narrou cada detalhe do cavaleiro, descrevendo sua cavalgava por entre os imensos carvalhos da Floresta Proibida. Chamou-o de Heidan.

Em seu conto, Ellen narrava a entrada silenciosa de Heidan naquela maldita aldeia. O trote calmo do cavalo não despertou nenhum dos aldeões de seus nebulosos sonhos.

Parado na entrada da prisão, o guerreiro desembainhou a pesada espada, ferroando dois guardas que dormiram no turno.

A unha longa da contista se enchia com a vermelhidão da terra, enquanto ela contava o avanço de Heidan pela entrada principal e, num embate heróico, vencia outros três guardiões.

Entrando pelo corredor da masmorra, o cavaleiro duelou com os dois guardas que, há pouco, jogaram a contista em sua cela. Na unha de Ellen, não havia outro desfecho para o conto, senão a morte violenta daqueles carrascos. O primeiro teve a cabeça decepada e o segundo sofreu um corte profundo no abdome, assistindo as vísceras escorregarem para fora enquanto a alma lhe fugia do corpo.

Ellen respirou em cima da sua narrativa empoeirada.

- Malditos – murmurou ela. – Como podem confundir minha Arte como uma simples bruxaria?

Escreveu as últimas linhas: Heidan atravessava o vasto corredor e o silêncio de todos os presos parecia embalar a dança sinuosa das chamas nas tochas. Com um único chute, o guerreiro arrombava a porta do cárcere da contista, arrebentando até mesmo as travas de ferro.

O som de um trovão estrondeou a porta. Ellen levantou-se e, à sua frente, estava o guerreiro de armadura negra. De dentro do elmo, a escuridão lhe fitava.

Ela sorriu e novamente debruçou na terra. Soprou forte as letras de seu conto, empoeirando o ambiente e vendo seu herói esvair-se em um redemoinho de poeira vermelha.

Ellen, a contista, caminhou calmamente por toda a prisão, passando por sobre os corpos dilacerados dos guardas. Sumiu na neblina da noite e afundou-se na Floresta Proibida, onde, segundo a lenda, até hoje narra os suplícios para os condenados ao Inferno.
Kzar
Enviado por Kzar em 08/10/2007
Reeditado em 28/10/2008
Código do texto: T685494

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Sobre o autor
Kzar
Mundo Novo - Mato Grosso do Sul - Brasil, 40 anos
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