Cabelo de Fogo - Cap 04: Contato com a Realidade

À medida que se deslocavam, Justiniana olhava a paisagem que se acostumara a ver desde a tenra idade, as imensas plantações que a família Arandes tinha, os rebanhos nos currais. Tudo aquilo sendo abandonado tão de repente, como de repente também fora a partida do seu pai, deixando ela e a mãe sozinhas.

Esses sentimentos ficaram mais fortes a medida que observava a paisagem mudar, das verdes plantações da propriedade da família para a mata feia e seca da caatinga. Apesar de ter nascido nessa região, só agora Justiniana conhecia de fato o lado mais duro e desafiador de Terra Brava, lar de muitas pessoas que, à margem das grandes propriedades, vivem suas vidas um dia de cada vez.

Não demorou muito para que Justiniana e o grupo de jagunços encontrassem os primeiros povoados, pequenas aglomerações de casinhas simples, onde os moradores trabalhavam duro em suas pequenas plantações e criavam seus minúsculos rebanhos de carneiros e vacas magras. Nas estradas locais era comum ver pessoas, em sua maioria mulheres, caminhando debaixo de sol forte com grandes jarros de barro equilibrados na cabeça, sendo acompanhadas de perto pelos filhos.

Jairo explicou que aquelas mulheres costumavam caminhar alguns quilômetros até encontrar os açudes da região e levar água para suas casas, numa marcha diária na luta por cuidar de suas famílias. Enquanto o jagunço falava, Justiniana não tirava os olhos daquelas mulheres, admirada com a força e a coragem estampada em seus olhos.

Por um momento a garota pensou se passaria a ter uma vida como aquela, agora que ela e sua mãe estavam sem um lar, se aguentariam fazer caminhadas tão longas ou se morreriam de cansaço e sede, vítimas do calor, dos bichos da mata ou de homens violentos como os que invadiram sua casa.

- Não se preocupe, pequena. Enquanto eu e meus companheiros estiverem aqui, não deixaremos que nada aconteça de mal a você nem a sua mãe – o jagunço Jairo já vinha percebendo a muito tempo a tensão da criança.

A cada caminho por entre a mata que o grupo pegava, Justiniana ficava apreensiva olhando para a paisagem como se a qualquer momento alguma coisa pudesse surgir do nada e assustá-la. Por outro lado, embora mais calma, Dona Carmesina tinha a expressão de desolação, com olhar triste e fixo no chão enquanto balançava frouxamente o corpo com o galopar do cavalo.

- Para onde estamos indo? - perguntou a garota.

- Vou levá-las para Casa Grande, pedir ao coronel Gonçales que aceite vocês como protegidas, em virtude da situação.

- E ele vai querer a gente lá?

- O coronel tem todo o direito de não aceitar. O que aconteceu à sua família não diz respeito a ele, já que não aconteceu em suas terras – ao ouvir essas palavras, Justiniana marejou os olhos e começou a chorar.

O velho jagunço já tinha visto de tudo na vida, mas sempre quando a senhorinha ficava triste, aquilo machucava seu coração. Tinha forte sentimento pela criança por tê-la visto crescer, protegendo-a desde seus primeiros passos na fazenda.

- Desculpe, senhorinha, mas essa é a verdade da vida. Os coronéis só se importam com seus interesses e não ligam para as desgraças uns dos outros. Até onde sei, o coronel Gonçalves teve uma dívida antiga perdoada pelo seu finado pai. Espero que leve isso em consideração quando ver a senhorinha e sua mãe nessa situação de desamparo.

MiloSantos
Enviado por MiloSantos em 01/07/2020
Reeditado em 01/07/2020
Código do texto: T6992790
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