Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Sofres e chores porque queres

Sofres e choras porque queres, Dirceu, dizia corriqueiramente a Isabel sua irmã mais nova. Malandro de boa pinta e metido a machão, vivia dando ordens na cabrocha. Carioca da gema, dos anos cinqüenta, levava vida de quebra galhos. Poeta, e mulherengo engolia a madrugada e fumava a vida como um vício. Seu lema era viver intensamente. Já Isabel , coitada, sendo mocinha de uns quatorze anos, morria de amores pelo padeiro da esquina, Bentinho. Todas as manhãs, ia toda arrumada com seu vestido de algodão e avental na cintura a pegar os pães para o café da manhã na padaria da esquina. Pai e mãe falecidos e mais nenhum irmão além de Dirceu. Passava quase todas as noites sozinha em casa, a suspirar pelos cantos, ao se lembrar do moço. Bentinho, gozava lá seus dezesseis anos. Dirceu era um irmão muito ciumento e cuidadoso da honra da irmã. Moça virgem e prendada. Como andava com as figuras mais exóticas e largadas da vila, Vila Isabel, não ia deixar que qualquer malandro da sua laia, garfasse a mocinha. Sempre em momentos de lucidez, onde não estava embriagado de seus poemas e suas ilusões, observava a mocinha e a chamava pra um particular. Por diversas vezes, perguntou a Isabel como era o que sentia pelo rapazola. A moça muito tímida, avermelhava o rosto e desviava da conversa. Nunca dava certo o diálogo entre eles. Após abrir o seu coração, a moça era surpreendida por ataques de ciúmes e excesso de cuidados. Isso fazia com que a distancia de intimidade entre os irmãos se estreitassem. Mais o que era notável e constante era o brilho nos olhos da mocinha quando se ouvia algum verso fala do pelo irmão ao terminar alguma coisa no papel. Jamais, pegou se quer na mão de um moço, tão pouco roubaram-lhe um beijo. Assim corriam os dias da moça. Punha um disco na vitrola, e com seu jeitinho maroto, deslizava alguns passinhos de dança pela casa, enquanto fazia seus afazeres domésticos. Ainda imaginando o dia que iria a algum baile com Bento. Mais era uma utopia esse baile. Pois nos últimos tempos, Dirceu voltando da gandaia, já trazia debaixo do braço o pão, de um passo ao outro ia ganhando a rua ainda vazia até chegar em casa. Abria a porta, olhava tudo antes pra ver se estava como deixou, abria a porta do quarto da menina dando bom dia e seguia cambaleando ao encontro do sono. Isabel, mordida de raiva, via que o pão já estava em cima da mesa e se levantava pra pensar em como iria ver o Bento sem comprar o pão. Aquilo já estava ficando chato e complicado. Ela achando que o moço nem estava ai com ela, até que um dia se passou, dois e após uma semana ouviu batendo-lhe a porta da sala. Se dirigiu pra ver quem era e recebeu uma surpresa inesperada. E não era que ero o padeiro? Com um sorriso maroto, e olhos jogados no chão, lhe perguntou com jeitinho, porque havia desistido de comprar pães no estabelecimento de costume. A menina, feliz da vida disse-lhe que era porque o irmão já trazia de manhã e sendo assim deixou de ir até lá. Mais que nunca se importou de se dirigir até lá. Claro que ele sabia o motivo, e ficou ali enrolando e puxando papo reconquistando a cliente, que se desmanchava em sorrisos tímidos. Bentinho se despediu da moça, se oferecendo, por fim, de trazer qualquer encomenda que ela necessitasse. Ela toda apaixonada, disse que sim com a cabeça e fechou a porta quase desmaiando de emoção. Aquele dia foi iluminado pra moça. Após o meio dia, Dirceu, curado da ressaca, sentou –se pra almoçar e percebeu a felicidade da moça. Nem falou nada, pois como era um poeta além de um irmão ciumento deixou que os suspiros lhe saíssem com liberdade. Inquieto e curioso em saber o que se passava, Dirceu resolveu não sair naquela noite. E bebeu por ali mesmo. Escreveu alguns poemas e foi se deitar. Justamente naquela noite, Bentinho mais confiante por ter ganhado a confiança da moça, arriscou jogar uma pedrinha em sua janela. Ela com os pensamentos fixos na suas lembranças, se levantou e abriu a janela. Quase não se continha em ver a presença do moço. Disse boa noite e ficaram ali conversando um pouco. Trocaram informações de suas vidas, e ficaram ali de namorico. Logo ele foi embora e Isabel começava a entender e a gostar da estória do irmão de trazer o pão. Isabel passou a refletir sobre o ciúme que o irmão sentia por ela. Era um excesso de zelo, isso ela sabia bem, mais o que ela nem sonhava, era da vida noturna que o irmão levava. Das mulheres com quem se deitava, das amizades que possuía e tão pouco ao vício do jogo em que se entregava e vivia endividado. Dirceu, praticamente era uma coruja. Só punha a cara na rua quando a noite já se fazia presente. Vestia seu terno branco e seu chapéu palha e saia para a farra. Passava primeiro nos inferninhos de mulheres da vida, da qual tinha um bem querer por lá “Ana quebra galho”. Loiríssima e olhos de gata, uma bunda enorme e em pé generoso. Gostava de espartilhos e meias com liga, uma breguice só. A Ana quebra-lhe todos os galhos possíveis. Numa dessas noites, Dirceu foi a procura da rapariga, ela não pode lhe dar atenção, então saiu bêbado do lugar de tão acabado. Saiu com um amigo de copo e foram para outros lados. Naquele dia chegando em casa escutou um chorinho abafado, e por seu desespero era Isabel. Toda chorosa lhe contou que Bentinho havia arrumada uma namoradinha, pois viu o moço todo arrumado de mãos dadas com Esmeralda se dirigindo ao teatro. Estava passando uma peça popular muito comentada entre os vizinhos. Foi nesse dia, que Dirceu sentiu o tamanho do seu egoísmo. Como era um poeta de coração tão duro? Que significavam todas aquelas palavras de amor no papel ,se privava a pessoa que ele mais amava de ao menos encher os olhos da figura do rapaz? Abraçou a moça, e acarinhou-lhe a cabeça os cabelos e disse-lhe como um tema de Pixinguinha: “Sofres porque queres”, minha irmã. O amor quando é bom não lhe traz dor, só prazer...Se o mesmo que proporcionar a dor é por que já é hora de substituí-lo por outro. Ficou ali, por mais uns segundos e se levantou e foi curar sua ressaca. Isabel, engolindo o choro, refletiu um pouquinho e deixou seu nobre coraçãozinho de menina se libertar daquilo tudo. E com o tempo, ficou mais amiga do irmão... Ganhando mais liberdade...Percebeu o quanto Dirceu era amargurado em sua vida amorosa, Isabel decidiu que não queria aquilo pra si. Foi liberada a comprar o pão novamente e nesse vai e vem conheceu Miguel. Com ele se casou e juntos tomam conta de seu irmão Dirceu, alcoólatra, idoso , solteiro e apaixonado pela vida acima de tudo. Um sensível poeta moldado na fantasia de um machão dos anos cinqüenta. E que acabou se dando muito mal. Isabel o observa com carinho e a sua mente acusa a frase que sempre ouviu do poete ...” Sofres e chores porque queres...”

Débora Costa
Enviado por Débora Costa em 19/10/2007
Código do texto: T700701

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Costa
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil, 41 anos
24 textos (1257 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 11/12/17 21:36)
Débora Costa