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Seis Anos Nas Terras Altas

“Velho Sen! Velho Sen, me conta uma história” Disse o menino, sentado ao lado do Velho, o fogo de chão brilhava nos seus olhos de criança.

“Primeiro, meu nome é Sene e não vou contar nada, vá dormir, já é tarde e sua mãe deve estar brava comigo.” Disse o Velho atiçando o fogo, mais pelo prazer de ver as fagulhas cortando o ar. Aquelas noites no início do levante eram quentes e o Velho achava difícil dormir tão cedo, a julgar pela energia no menino ele não era o único.

“Minha mãe sabe, ela disse que posso ficar o quanto quiser por que amanhã é dia de colheita e ela vai levantar cedo e vai me deixar dormindo e...” Colheita? Pensou o Velho, enquanto o menino narrava tudo que estaria por vir. O Velho se deixou levar, não era exatamente algo fora do comum, ele havia se distraído e o tempo havia passado. Aliás, como não se distrair com aquele povo? Com aquele jeito alegre e simples de conduzirem a vida. Aquele lugar tinha magia, tanto que o Velho já podia imaginar a manhã seguinte, as lavouras douradas estariam secas, pois o levante carregava consigo a umidade da terra, tornando o solo perfeito para a colheita dos grãos.

“E meu tempo aqui acabou...” Disse o Velho.

“Acabou? Como que o tempo acabou?” Perguntou o menino sem entender do que o Velho falava.

“Não importa, o que você estava dizendo antes?”

“Me conta uma história...” Disse o menino num tom alto, abrindo os braços e dando espaços entre as palavras como se estivesse tratando com outra criança.

“Que história? Não sei nenhuma história de criança...”

“Conta uma de adulto, não tem diferença” Disse o menino enquanto esticava a mão para testar a batata, o Velho deu um leve, mas rápido tapa na mão do menino que se recolheu num sorriso astuto.

“Uma história de adulto... Que tal... Sim, você gostaria de saber a história dos citrini?”

“Sim!” Disse o menino com empolgação nos olhos. Mesmo tendo certeza de que ele não fazia ideia do que se tratava, o Velho se propôs a contar, tanto por que ele amava aquelas histórias, quanto porque as pessoas já não contavam histórias como aquelas e elas estavam se perdendo com o tempo. O fato de que aquele menino ávido demonstrava tanto interesse sem nem saber dos detalhes enchia o velho de esperança e tristeza. Esperança pelo menino com sede de fantasias e tristeza por saber o destino do menino.

“Os citrini, hoje chamados de citrinos ou citrianos, um dia foram o povo mais lindo e invejado de todos. Eles ainda existem é claro e ainda guardam boa parte de sua beleza original, mas no passado, no início de todas as populações, os citrini eram como corpos estelares andando entre homens, mas estou me adiantando. Para entender bem a história dos citrini e de como eles vieram a ser, antes é preciso conhecer a história de Bertranda.”

“Quem é Betrana?”

“Não interrompa está bem. Era um dia como o de hoje, um dia quente de início do levante. Numa casa simples de madeira ela estava e seu marido, ou, o homem que costumava ser o seu marido, olhava para ela do outro lado da mesa com uma expressão confusa no rosto. A pergunta que ele fez antes de se sentar deveria ser bem simples de responder; quem era a menina que correu quando ele chegou e quem era o homem que ele acabou de matar?” O menino abriu os olhos em espanto, não por medo, afinal aquelas crianças cresciam ouvindo contos terríveis com mortes e desaparecimentos, todos narrados de maneira a construir nos pequenos o pavor necessário para se preservar. Não, o espanto do menino estava no fogo que aos movimentos do Velho tomava as formas do rosto de uma mulher.

“Mesmo sabendo que a demora e as lágrimas apenas pioravam as coisas ela não conseguia encontrar as palavras em seu peito para responder aquela pergunta tão simples. ‘Bete?’ Gritou o homem, como se forçando-a de volta à realidade. Bete era o apelido que haviam dado a ela tanto tempo atrás, tanto tempo que mais parecia outra vida. Bertranda era seu nome verdadeiro, mas o som que ela ouvia em sua mente dizendo aquele nome com tanto carinho não pertencia ao homem diante dela, certamente não. O homem diante dela se chamava Oufir, um homem que um dia foi um lindo e feroz rapaz. Lindo o bastante para chamar atenção dela e feroz o suficiente para tomar das garras do pai a ruiva e magrela Bertranda, na época pouco mais que uma menina que todos chamavam de Bete. Oufir teve uma única profissão em toda sua vida e ela repetiu o mesmo que disse na primeira vez que ele a levou para as terras altas do norte selvagem. ‘A esposa de um saqueador é a esposa de um fantasma...’ Disse ela olhando para pilha de batatas. ’Você ainda não me respondeu Bete’ Insistiu o homem do outro lado mesa, a versão envelhecida e mal vestida do homem com quem ela primeiro se casou. Com custo, como se tivesse que mastigar as palavras de tão duras, Bertranda começou a contar. ‘Ele chegou aqui seis anos atrás e isso foi um ano depois que você saiu por aquela porta...’ Ela contava a história toda, mas escondia um grave detalhe, por isso seus olhos não saiam da mesa e das batatas que ainda não tinha terminado de descascar. No fim da sua narração Bertranda não estava certa se foram os fatos ou a emoção rompendo o peito dela o que mais irritou Oufir. O que ela tinha certeza era que aquele homem enfurecido já não demonstrava nenhuma dúvida e o seu olhar estava fixado na menina atrás da cortina.

“E como se chamava a menina?”

“Você prometeu não interromper. Enfim, o olhar de Oufir era de puro ódio e ia na direção da menina escondida. Ainda que tudo tenha acontecido tão rápido, Bertranda teve tempo de agradecer ao deus da montanha quando a primeira atitude de Oufir foi erguer a mesa entre eles. No tempo que ele perdeu arremessando o móvel para o lado, ela o esfaqueou no pescoço.”

“Hã!” O menino com os olhos no fogo, suprimiu o suspiro temendo interromper a história e o Velho sorriu.

“Oufir é claro continuou avançando na direção dela, mas com uma mão estancando o sangramento foi incapaz de evitar que ela enterrasse a faca em seu olho.”

“Oh! Au...” O menino grunhiu de dor olhando a imagem de um homem com uma faca enterrada até o cabo em seu olho direito.

“Oufir sempre foi grande como um urso” O velho continuou “E Bertranda se lembrou bem disso quando ele caiu sobre ela esmagando-a”. Com um gesto de bater de mãos o fogo abaixou num segundo e as imagens dentro dele desaparecem em milhares de fagulhas pelo ar. O menino de olhos vidrados nas chamas demorou um instante para retomar seus sentidos.

“Magia, mas... não espera. Velho Sen o que aconteceu depois?” Perguntou o menino claramente frustrado. O Velho se manteve quieto por longo e o menino se acalmou um bom tanto ao receber um pedaço de batata assada, mas temendo que o silêncio duraria pouco o Velho continuou a contar enquanto a sua metade de batata esfriava.

“Como te falei, Bertranda escondeu um grave detalhe, e esse detalhe foi o que fez com que ela defendesse sua filha com tanta bravura.”

“Humm e...” O menino começou a resmungar com a boca cheia, mas o Velho, ainda sem tocar em seu pedaço, ergueu a mão silenciando-o.

“O homem que Oufir matou, ou seja, o pai da menina, não era um homem qualquer, ele era a figura passageira de um deus, seu nome era Proteu, o Viajante” Com a menção do nome o menino abriu os olhos, redondos como as bochechas mastigando.

“Pelo visto você já ouviu falar do deus viajante, isso mesmo. Pelo fato de Proteu ser o pai daquela criança, a menina nasceu com características muito especiais...”

“O que é carateristas?”

“Características, é como a pessoa é, e a menina, como disse era muito especial, se ela estivesse nas sombras ou de noite, seus cabelos eram escuros, assim como seus olhos, mas quando ela ficava exposta à luz do sol, ela brilhava, ela toda, seus cabelos viravam as cores do arco-íris seus olhos eram como estrelas, sua pele era como a pele luminosa da lua.

“Ohh!” O menino disse entre mordidas, ao notar que ele estava muito mais contente e menos curioso, o Velho também se dedicou a comer um pouco antes de continuar.

“E o nome dessa menina meu caro Rotieh” Disse o Velho erguendo um dedo “Era Citri, ela cresceu, se casou com um aldeão e eles iniciaram sua própria tribo. E os filhos dela todos nasceram com a aquela mesma beleza rara, mas ela jamais esqueceu sua mãe e contou tanto a história que o nome Bertranda se tornou o nome dado ao primeiro ciclo do levante, o ciclo de colheitas e alegrias que por sinal é o que estamos agora” O Velho terminou seu conto olhando ao redor para as cabanas de pedra e madeira, para os aldeões que iam e vinham apesar da hora tardia.

“Queria ver um desses citri? Citrin...”

“Citrinos, você ainda é jovem Rotieh, talvez...” Mas não, mesmo fortes, algumas luzes se apagam cedo demais, pensou o Velho e de repente seu peito se encheu de tristeza.

“Está com pena Velho? Sabe que se você realmente quiser pode salvá-lo...” Disse a voz na cabeça do Velho, ele lutou para não ouvir as falsas promessas ou as ameaças, lutou para conter as lágrimas dentro do seu peito cansado.

“Vem menino, vou te levar para a sua mãe” O Velho se levantou e não entendeu se foi pela dificuldade em se por de pé, ou um pagamento pela história contada, fosse como fosse quanto o menino segurou sua mão o Velho apertou forte e agradeceu da melhor maneira que ele sabia...

   

 
Córdia
Enviado por Córdia em 25/07/2020
Reeditado em 26/07/2020
Código do texto: T7016614
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Córdia
Rolândia - Paraná - Brasil, 29 anos
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