Além da Normalidade

Eram duas Alamedas: das Rosas e dos Espinhos.

Segui pela segunda, que além de pedregulhosa, também era sinuosa. Depois soube que era distante do destino proposto. Bem, tarde demais saber deste detalhe: já estava lá; aliás, para o bem da verdade, fui o último a chegar ao Paraíso Novo Anormal. O lugar é lindo, cheio de campinas verdejantes. Riachos e cachoeiras cobrem os lajedos. Pássaros pousam em meus ombros. Gorjeiam canções alquímicas.

Embora não haja a menor necessidade, falcões vigiam o recinto. Vez ou outra, guincham.

Luzes emergem do céu e da Terra. Nesse espaço transcendente, os ventos sopram mansos. As sombras das folhagens dançam sobre a superfície das águas. Cisnes, com seus voos acrobáticos adornam as nuvens no amanhacer. Vez para outros, também no arrebol vespertino.

Fora os ensurdecedores ruídos da Natureza, um deles é a algazarra das linguarudas maritacas no taquaral, ao baixar do sol, o Senhor Silêncio faz-se ouvir. Nada de máquinas, nada de superficialidades e artificialismos, nada de gente, nada de ambulâncias, nada de aviões enfumaçando a atmosfera. Nada! Nada de pandemias de quando em quando, nada; em contrapartida, muitas e variadas espécies de animais, cujo tratado escrito e assinado por mim, rege que "animal nenhum, será predado por outro animal", pois vida feliz, reside na eternidade. Termo assinado e testemunhado pelos interessados em ata, é acordo assumido e cumprido por todos; para todos. Ponto!

Aqui, neste lugar que não existe e quando existe, está além-olhos, todos animais gozam de liberdade, justiça e igualdade, principalmente os bovinos e galináceos. Conversando com Eles, choramingam dizendo que sofriam todo tipo de malvadeza em outro Habitat. Dentre as atrocidades, colocá-los pendurados de cabeça para baixo em um corredor, o qual passava uma guilhotina rosnando alto, decapitando cabeças. O sangue esguichado respondia pela frieza e crueldade. Diziam Eles que a voracidade era tamanha, que não havia tempo suficiente para chorar, muito menos para sentir dor. Um segundo, e o que era trevas, virava luz do nunca mais. E tudo se apagava.

Em homenagem aos que padeceram à tortura da Antiga Normalidade, colhi flores, muitas flores e ofertei-as, em nome da serena resignação. Ao fundo, um grandioso arco íris de cores vívidas sorriu-nos. Ajoelhemos e oramos, pois comemorávamos o Resplandecer jubiloso de Luzes e Cores. E nunca mais, as indesejadas dores.

Ainda que tenham criado e implantado o "Novo Normal"; de onde vim, provavelmente, Eu não volte mais. Todavia, não posso esquecer que lá um menestrel, daqueles cantadores sob luar-estrelas, cantou com voz firme e aprazível, a estrofe "viver é melhor que sonhar"; e se hoje Eu sonho, é por que vivo muito mais!

Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 04/08/2020
Reeditado em 04/08/2020
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