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A Bruxa no Sótão

Antes de dormir, a pequena menina de cabelos preto azulado, olhava atenta para o teto com seus olhos arredondados como uma fubeca. Seus ouvidos captavam sons estranhos de passos e uma voz chorosa de uma mulher vinda do sótão, que ficava em cima do seu quarto. Franzindo o senho, tentava entender se esse choro era de tristeza, pois ouvia ela balbuciando algumas palavras; quando,  uma senhora, adentrou o quarto trajando uma camisola vermelha de cetim com seus cabelos platinados bem escovados, mostrando toda a sua elegância, era uma senhora tão estilosa que até para dormir se ajeitava o máximo que conseguia.
Ela entrou carregando em seus braços um livro roxo, com um título “A princesa e o sapo” em letras douradas, o que indiciava que iria ler uma história para a menina antes  de dormir. Mas assim que reparou nela hipnotizada encarando o teto, parou por alguns minutos observando sua netinha curiosa!
• O que houve, Heline? - perguntou ela sentando ao seu lado.
Heline manteve os olhos vidrados no teto, como se estivesse ouvindo alguém falando, o que de fato estava acontecendo, realmente ouvia uma voz de uma mulher chorando. Se ajeitando um pouco para o lado, deixou sua avó se acomodar na cama.
• Ela voltou a chorar novamente vovó! - disse em tom baixo como se não quisesse ser ouvida. - Elisabete arqueou as sobrancelhas curiosa ao ouvir isso.
• Quem está chorando, Heline?
• A mulher que vive no nosso sótão, vovó. Eu sempre a ouço chorar; as vezes ela está brava e noutras está triste apenas.
Elizabete franziu o senho levantando levemente a cabeça a fim de olhar na mesma direção que a neta; seus olhos iam do teto para os olhos de Heline, que parecia ouvir mesmo essa mulher chorando, então pigarreando ela colocou o livro sobre a cômoda ao lado da cama, e puxou-a para mais perto.
• Desde quando você a escuta?
• A senhora acredita em mim?! - Heline volveu os olhos surpresa.
• Sim, porque não acreditaria? Somos uma família de bruxos; tudo pode acontecer, não é?
• A mamãe disse que isso era coisa da minha cabeça, mas... eu a ouço todas as noites antes de dormir, eu juro.
• Sim, e eu acredito em você; sua mãe que é muito cética para essas coisas.
• O que é cético?
• Bem, alguém que não acredita muito. – disse rápido enquanto ajeitava mais Heline em seu colo. - hoje a vovó vai contar uma história diferente está bem?
• Qual história? - ela encarou debaixo sua avó toda curiosa.
• É uma lenda da nossa família, um conto bem antigo passado de geração em geração. Uma história de uma bruxa presa em nosso sótão. - Heline arqueou as sobrancelhas ainda mais!
• Quer dizer que essa mulher é uma bruxa?!
• Hum... talvez, quem sabe? Quer saber a história dela?
Heline balançou a cabeça freneticamente se ajeitando no colo de sua charmosa avó, enquanto ela se empertigava apoiando seu rosto na cabeça da neta olhando para o espelho bem em frente da cama.
A muito tempo, após o descobrimento do Brasil e o estabelecimento das tropas e da população, a corte portuguesa recebeu um chamado de alerta, onde foram comunicados de uma solicitação de mais naus para o envio da costa leste do novo continente, por ser realmente grande. Pedro fez a solicitação para mais desbravadores descobrirem a fundo sobre o novo continente, já que seus olhos estavam voltados neste momento para o litoral baiano em Porto Seguro. A armada de Pedro Álvares, não era o suficiente para proteger as entradas desse imenso continente, o que explicava a necessidade de solicitar o envio de mais naus repletos de soldados, e ele temia um possível ataque supresa.
 A corte, ao avaliar o pedido, não relutou muito em concordar, embora ficassem com um leve receio de mandar mais homens a pedido de Pedro e deixar o país de Portugal desprotegido. Eles avaliaram todas as questões, e concluíram que a produção da tinta vermelha, tirada do pau Brasil, era interessante para eles; não tanto quanto as iguarias da Índia, que por sinal era o que lhes traziam mais riquezas. Por hora foi decidido o envio de homens, mas não todos, pois uma grande parte ainda ficou em proteção ao país.
 Entre os soldados enviados a corte mandou dois fidalgos a frente para o novo continente, um deles,  Martim Franco, fez um pedido para que deixassem os seus homens levarem suas esposas e filhos. E partiram dali: dois naus, liderados cada um por um fidalgo e quatro caravelas, com os mantimentos e familiares.
 Martim Franco era um fidalgo com grandes feitos e um conquistador de muitas batalhas! Trouxe para a coroa portuguesa grandes vitórias, o que o deixou ainda mais conhecido. Sendo de família nobre, com um nome a zelar, se aventurou com Pedro Álvares em algumas empreitadas quando mais jovem, trazendo uma certa admiração por parte dele, que claro, não perdeu tempo em nomea-lo como chefe de embarcações.
Embora seu histórico de família seja de bruxos; ele nunca usou da sua magia para conquistar seus objetivos, sempre seguiu o lema da família Franco de colocar a mão na massa sem depender de magia alguma. Fora que para alguns portugueses na época, bruxaria era uma prática um tanto errada, o que os levariam a forca ou a fogueira, mais um motivo para se manterem escondidos.
 Na companhia de seus soldados, os fidalgos mantinham os olhos a todo momento no horizonte, enquanto suas mãos mal soltavam o timão; as esposas, sem muito o que fazer, tomavam conta de suas crianças que brincavam algumas pelo convés do nau e outras nas caravelas, os olhares ansiosos de todos voltavam-se para o capitão, e logo se desviavam para o horizonte seguindo os dele em busca de uma única visão aliviadora de terra firme. A viagem era exaustiva demais, e muitas crianças se estressavam em ter que ficar naquela sensação de enjoo provocado pelas ondas que balançavam o grande nau para frente a para trás. Suas mães, já impacientes, se cansavam em ter que ouvirem as reclamações de enjoos dos filhos; aquela era realmente uma viagem estressante, mas por ser uma ordem direta da corte, não poderiam reclamar com os maridos pela repentina mudança, e o medo da solidão as impulsionaram a não ficarem.
 A Grande nau de Martim, que se chamava, Vitória da Conquista, deslizava pelo mar quebrando as ondas no meio, impulsionado pela força do vento que o empurrava depressa rumo ao seu destino, Porto Seguro. Assim que os primeiros picos de montanhas foram avistados, houve festa por parte da tripulação; os olhares abatidos pela exaustão das esposas e os agonizantes gemidos das crianças, deu lugar a um rubor de alívio ao avistarem uma cor diferente do azul. Martim deu o alarido de “Terra a vista”, enquanto todos se agitavam ansiosos para atracarem logo. Martim, aportou juntos as outras embarcações, e com o outro fidalgo foram de bote ao encontro de Pedro; deixando que as esposas e filhos se aliviassem da sensação de enjoo pela viagem. A pausa foi curta, pois a intenção não era para que ficassem por ali e após o encontro, Martim recebeu seu novo destino junto ao outro fidalgo e assim ambos se dividiram.
 Por ser facilmente reconhecido pelos portugueses, o povo que Pedro havia trazido antes, agora já estabelecido no novo continente, não haviam se agitado ao verem as novas embarcações aproximando-se, sabiam que se trava do envio da corte.
 A Vitória da Conquista, partiu rumo ao seu destino deslizando com uma caravela seguindo para o leste da costa e a outra na direção oposta; a intenção era montar uma guarda pelas entradas do continente; enquanto isso, Pedro, acompanhava a distância com um telescópio de um olho só, observando as quatro embarcações seguindo os planos, cada qual para o seu devido destino. Martim, velejou  por mais alguns dias, onde avistaram o pico de uma montanha, que formavam quase uma bacia protegendo a vegetação no meio. Era repleta de colinas de tamanhos alternados; e foi ali que ele decidiu atracar, achou um excelente lugar para começar uma vila. Assim que colocou os pés deu o nome de, Vila Alta; o que mais tarde veio a se tornar Cidade Alta.
E na parte mais alta de uma colina consideravelmente grande, estabeleceu sua base construindo um casarão extenso, que possibilitava ter uma visão de todo a imensidão azul, e das possíveis entradas da Vila alta. Seu povo, depois de algum tempo, terminaram suas casas, que haviam erguido abaixo do casarão dando início à vila, e tudo ficou calmo por ali; Martim descobriu que por trás das montanhas haviam excelentes campos para plantações, o que o levou a começar o seu plantio de café; nesta época o plantio de café já estava em alta, pois Pedro havia avisado a corte  que o país era rico desses grãos; a corte por sua vez, havia desconsiderado, porém, mais tarde, deram o aval pedindo para que fossem colhidos e levados a Portugal. Toda a terra era boa para as plantações, e muitas famílias tiraram proveito disso; as colheitas eram abundantes, não somente a colheita crescia, mas também o seus gados se multiplicavam rapidamente por ser um ambiente favorável com um clima tropical. Havia muita prosperidade nesse novo continente.
 Com o passar dos anos, tudo ainda permanecia calmo. Não havia um sinal de ataque ou qualquer navegação suspeita pelas regiões, e a cada fim de mês, os fidalgos se reuniam para relatar como estavam as colheitas e a situação ao redor; fora que algumas embarcações atracavam em alguns portos, mas era apenas para um abastecimento de mantimentos e envio de mercadorias valiosas para Portugal, nada que viesse a preocupa-los.
 Meses depois, Vila Alta havia aumentado muito em tamanho, pois alguns restantes dos familiares que decidiram não sair de Portugal repentinamente, ficaram sabendo da tamanha prosperidade desse novo continente, que agora se chamava Ilha de Vera Cruz e marcharam para conseguir um pedaço de chão.
 Martim e sua esposa Leonor acompanhavam todas as atividades da vila, embora ele fosse um homem muito ocupado com seus assuntos militares; arranjava um tempo com a esposa para verificarem a vida por ali. Tudo estava aparentemente calmo, a corte todo mês mandava cartas para Pedro e os dois, onde anunciavam que o país prosperava bastante, não havendo nenhum sinal de guerra e rumores de guerra. Como tudo andava bem, os dois acharam que já estava na hora de aumentar a família e tiveram uma linda filha chamada Carolina Franco, uma menina de cabelos preto em um tom azulado que havia herdado de sua mãe, uma vez que seu pai possuía cabelos platinados, uma marca da família Franco.
 Como a corte portuguesa era composta por homens comuns, Martim e sua família viviam uma vida dupla em segredo; pois o sangue dos francos eram de bruxos e sua esposa também era uma bruxa poderosíssima! Martim, tomou todo o cuidado na seleção de moradores para a sua nova vila, e manteve o equilíbrio de tudo ao dividir por igual bruxos e humanos, e,  por estarem longe da corte, suas atividades mágicas eram mais acessíveis a ele e ao restante da sua família que decidiram por hora, fecharem as portas de suas casas e comércio, somente para se protegeram da fogueira. Porque estavam em uma época de caça às bruxas em Portugal; a corte contratou os serviços de caçadores, e esses tinham uma estranha facilidade para localizarem os bruxos. Algo que fizeram os próprios se questionarem se não havia algum outro bruxo envolvido nesses rastreios.
  Assim como os pais, Carolina, nasceu com uma disposição para a magia também; e seu pai sendo um homem muito ocupado devido seu ofício, não tinha muito tempo de educa-lá com histórias e contos; e até mesmo ensinamentos sobre a magia. Nem sua mãe tinha esse tempo, pois sempre estava ao lado de seu marido por exigência do mesmo. E os bruxos que vieram junto com a nau de Martim, quando se reuniam secretamente, a princípio, atrás das montanhas; indagavam que precisavam de uma espécie de coven, para que pudessem educar suas crianças longe dos olhares mortais. O que levou Martim e sua esposa, junto do conselho superior das bruxas a uma convenção.
  Carolina e os bruxos de sua idade começavam a manifestar seus elementos, o que por sinal indicava a necessidade de um ensino porque estavam crescendo ignorantes quanto a magia, o único conhecimento que tinham era provido pelos pais; mas ainda assim era pouco, precisavam de um ensino integral sobre a magia. Porém, esses planos pareciam cada vez mais distantes de ser alcançado, tudo dependia de uma avaliação do conselho; e enquanto não aprovavam avançavam em idade com pouco conhecimento de sua magia. Martim passava noites em claro com os pensamentos explodindo em sua cabeça! Observando a filha e seus sobrinhos crescendo leigos quanto a história de seu povo; sentia uma grande necessidade de construir um coven para os jovens, principalmente para sua filha. Sua tradição falava mais alto, era como ouvir os fantasmas do passado voltando aos seus ouvidos, cobrando-o da pela falta de ensino a sua descendente. E não era somente os fantasmas, pois seus familiares começaram a indagar os motivos pelas quais ainda não tinha aberto um coven? Exigiam que tomasse uma providência, afinal, ele era um fidalgo que prestava serviços direto para a corte. Mas infelizmente não dava para fazer nada sem o aval do conselho; eles eram tão ocupados, que recebiam as solicitações se uma reunião, ouviam, e depois partiam para as outras. Eram tantas questões com relação aos outros coven que precisavam anotar todas as petições e averiguar com cautela. Porém, mais tarde, eles aprovaram a abertura desse novo coven, pontuando que deveriam abrir imediatamente.
 Sentando com alguns bruxos que vieram com ele de Portugal, Martim e eles, vasculharam a vila alta em busca de um lugar decente para a fundação do grupo. Cada canto foi explorado, até que encontraram uma colina bem embaixo de uma montanha cercada por árvores, tão alta, que era possível avista-la de longe. Os bruxos mais experientes, limparam o terreno e juntos lançaram um encanto ao redor, para que nenhum mortal visse o coven; após isso encantaram a única passagem de acesso ao alto daquela colina; qualquer um que quisesse subir essa colina, seria confundindo com o feitiço da confusão se esquecendo os motivos de estar ali. Assim, futuramente, nenhum mortal encontraria esse lugar. E assim com a agilidade de cem trabalhadores, os bruxos ergueram um prédio, feito de uma madeira rústica e negra, a primeira vista parecia uma casa mal assombrada, mas o encanto ao redor, deixava o lugar mágico! Eles batizaram o coven de Orion, por ser a única constelação vista no mundo todo, e também por conta dos Doze.
Ao finalizarem o coven, formaram uma única turma com doze jovens, dentre eles, estava Carolina que finalmente passou a receber a educação necessária dos  bruxos. Os bruxos da vila, tomaram o cuidado na escolha da conselheira, pois essa deveria se encarregar de ensinar tudo o que se sabia do mundo da magia; isso incluía aulas de voos em vassouras. Depois de muito avaliarem, Maria Catarina foi a que mais se enquadrou para o cargo de conselheira da nova turma. Com o tempo o número de turmas foi crescendo com a chegada de novos bruxos de outros continentes, que vieram fugindo das guerras em busca de paz.
 Os anos de estudo voaram para Carolina que se desenvolvia com aptidão para muitas áreas na vida; ela demonstrou uma grande habilidade para poções e conjurações rápidas. Tudo isso graças a sua mãe, que a ajudava sempre que estava disponível em sua casa. Os anos vieram para ela tão rápido quanto um sopro, e Carolina se tornou uma formosa jovem conhecedora da magia.
 Ao completar dezessete anos, ela manifestou um poder desconhecido por,  porém, para os seus pais nem tanto; esse era um poder não muito bem visto pelos bruxos, tanto que usar esse tipo de poder era um desrespeito contra as leis das bruxas. Leis essas que estavam em vigor desde a fundação do mundo para a proteção de toda a raça humana; essas leis eram tão sagradas, que com o passar dos séculos as bruxas superiores do conselho, escreveram em seis livros e enviaram para os seis continentes do mundo e seus representantes, para ser de conhecimento de todas as irmãs e irmãos que o sigilo pelo mundo da magia era de extrema importância para os Doze, segundo elas. Essa manifestação nova que Carolina havia enfrentado, era tão poderosa que seus cabelos tornaram-se platinados iguais os de seu pai e do restante da sua família Franco. Claro que isso assustou demais sua mãe, mas nada que não viessem a entender depois. Martim, ao notar que sua filha carregava a marca de sua família, sentou e explicou sobre uma suposta maldição que ronda a família Franco, era algo muito antigo, que vinha da primeira ancestral da família, passada de geração em geração. Ninguém escapava. O que explicavam os cabelos que serviam como sinal da suposta maldição dos Francos.
 Durante o período de coven, Carolina havia ficado próxima de uma bruxa chamada Lilian, uma menina de cabelos ruivos escorridos até as costas com algumas sardas no rosto. As duas se conheceram durante as aulas, quando tiveram que compartilhar um Livro de história no primeiro ano. A amizade delas foi se tornando tão forte a partir desse dia, que viviam juntas como carne e unha, mesmo depois das aulas. De braços entrelaçados andavam a vila para cima e para baixo. Sentavam na praça central para conversas e na varanda na casa de ambas para o chá; eram tão apegadas quanto irmãs. De tanto que andavam juntas, as pessoas começaram até a achar que ela era uma parente da família, pois a menina vivia no casarão dos Francos.
 Lilian era uma jovem bruxa de grande coração, tão boa que não havia maldade nela; o que conquistou a simpatia de Carolina; ela confiava tanto em sua amiga que contava todos os seus segredos, com excessão da maldição, pois se caísse nos ouvidos errados toda a sua família poderia ser morta pelo conselho. Um segredo que é tão absurdamente protegido pela família, que qualquer um que vier a saber, se não tiver disposto a fazer um juramento mágico de confidência com a família Franco, deveria ser morto; neste caso a própria família se encarregava de matar qualquer um que descobrisse sobre isso. Mas Lilian, era uma bruxa esperta e atenta a tudo o que acontecia ao redor, de tanto frequentar a casa de sua melhor amiga, desconfiou que eles carregavam um segredo; sutilmente tentou por muito tempo arrancar essas verdades da amiga, até mesmo pensou em apelar para uma poção da verdade, mas por amor a amiga não o fez. O que a levou a “chantagem” emocional e,  Carolina, cega pela amizade; confiou isso a amiga. O impacto dessa revelação chocou ela por alguns minutos, Lilian permaneceu parada em frente a amiga sem saber o que dizer?! Durante o período de coven, aprenderam juntas as leis das bruxas naturais, e esse tipo de poder, que a família Franco carregava, era realmente uma transgressão as leis mais absolutas delas. Carolina, implorou a ela para que guardasse esse segredo pela sua vida, pois isso colocaria em risco toda a geração da família Franco; porém, Lilian tinha realmente um grande coração e uma percepção digna de uma bruxa; havia entendido que não era culpa da família dela possuir tal maldição; sabia que maldições muitas vezes são inquebráveis, que são adquiridas por bruxos que não pensam nas consequências futuras. E decidiu manter esse segredo bem guardado com ela, com um abraço apertado de uma cobra, disse a ela que a amava demais e que poderia ficar em paz, pois seus segredos estariam bem guardado.
 Os anos se passaram e a amizade entre elas tornava-se cada dia mais profunda; cada dia mais os laços de sua amizade era fortalecido, a um ponto de confiarem cegamente uma na outra. As duas se completavam demais, pareciam ser uma a metade da outra com uma conexão admirável! Não eram nada parecidas em temperamentos, pois Carolina era muito agitada e explosiva, detestava abaixar a cabeça, não guardava ou media suas palavras e muito menos levava desaforo para casa. Ninguém ousava mexer com ela ou com Lilian, primeiro que tanto os alunos do coven, quanto o pessoal sabiam de quem ela era filha, e segundo que por ser muito inteligente, possuía um conhecimento em feitiços avançados o que causava pânico nos bruxos da sua idade.
 Por outro lado, Lilian, era totalmente diferente da amiga, seu coração era muito compreensivo, sempre seguiu pelo caminho da razão, mantendo a calma para tudo; todas as vezes que Carolina se alterava pronta para explodir alguém apontando sua varinha, ela vinha com sua voz mansa e calma, segurando as mãos da amiga; o que por sinal a acalmava demais. Uma amizade assim, era tão forte que nada nesta vida parecia abalar; só tinham a agregar uma na vida da outra. Mas como tudo não é para sempre, e até mesmo as amizades mais verdadeiras podem desaparecer por completo; não foi muito diferente com as duas, pois no último ano do coven Lilian chamou sua amiga para uma conversa séria. Em um certo dia, enquanto Carolina estava a se despedir de seus colegas de estudo, Lilian se aproximou acanhada com passos incertos, e tomando a amiga pela mão, disse em seu ouvido para irem ao sótão da casa dela, um lugar onde as duas se encontravam com frequência no casarão desde criança. Carolina como sempre acompanhou a amiga que estava com um semblante diferente de todos os outros dias, a forma de andar dela parecia incerta, e ela veio o caminho todo em silêncio, algo realmente não estava certo. Quando entraram no sótão, Caroline estava com o coração acelerado pela ansiedade em poder voltar ali na intimidade com ela; deu uma checada no corredor, verificando se sua mãe não estava por perto e encostou a porta tomando o cuidado para não bater. Porém ao se virar, toda a sua ansiedade e desejo havia sumido. Lilian estava com uma aparência horrível, uma amargura mesclada com uma tristeza era vista em seu olhar! A todo momento seus olhos se desviam para o chão enquanto alisava seu dedo indicador, como se procurasse a forma certa de falar aquilo que estava entalado em sua garganta. Sem coragem de olhar em seus olhos, deu as costas para Carolina, encarando a estrada de terra pela janela, alisava os cotovelos visivelmente perturbada, a respiração ofegante, como se o ar entrasse e saísse com dificuldade de seus pulmões. Quando Carolina se aproximou pronta para tocar em seus ombros, ela finalmente cuspiu angustiada o que estava instalado em sua garganta:
• Meus pais, me arranjaram um casamento! - disse Lilian suspirando como se aquilo fosse difícil de falar.
• O que, como assim?! O que você disse? - Carolina quase engasgou, enquanto andava até ela com o senho franzido. Virou-a pela cintura olhando bem fundo em seus olhos mareados que tentava a todo custo desvia-los dela.
• Bem, o que queria que eu dissesse? Desculpem, mas não posso me casar.
• Era o mínimo não é? Você não pode se casar!
Lilian a olhou nos olhos novamente demonstrando ainda mais sua frustração!
• Por que não posso, Carol?... - Carolina engoliu em seco encontrando dificuldades para falar. - isso é loucura! Não podemos viver assim. Minha família diz que já estou passando da hora de me casar, que uma dama feito eu, não deveria estar a tanto tempo desacompanhada. Sabe como são as pessoas, elas já comentam.
• Não importam as pessoas, deixem que falem! Você não se importa comigo? O que vai ser daqui para frente? Você vai viver para o seu esposo, enquanto estarei aqui sozinha.
• Não fale bobagens, olhe para o status de sua família! Qualquer homem vai desposa-la rapidamente.
• Com a ausência dos meus pais? Eu duvido bastante que consiga algum marido.
Lilian se desvencilhou de seus braços e andou novamente até a pequena janela do sótão, onde ela conseguia avistar toda a vila; descendo os olhos pelo caminho de terra descansando-os no mar. Carolina se aproximou dela pegando em sua mão.
• Minha... minha mãe quer que eu pare de te ver por um tempo. - Carolina arregalou os olhos incrédula! - não me olhe assim Carol, ela quer que eu de mais atenção ao meu futuro esposo. Preciso passar mais tempo com ele agora.
Carolina não conseguia falar uma palavra, seus olhos mareados refletiam a luz que invadia o sótão pela pequena janela; engolia tudo em seco a cada segundo; apenas sua garganta se movimentava na tentativa frustrante de engolir sua angústia! As palavras tremiam em seus lábios, mas não era capaz de esboçar um único som.
• Fale alguma coisa! - disse Lilian franzindo o senho segurando as lágrimas.
Carolina com toda dificuldade, tremia os lábios; com um esforço tremendo soltou uma única frase:
• O que quer que eu diga? Não vá. Se você realmente se importasse comigo, não faria isso.
• Carol, por favor não dificulte as coisas; porque não está nada fácil para mim também.
• Meu pais mal param em casa, o que será de mim quando se for? - Lilian arqueou as sobrancelhas indignando-se ao ouvir isso.
• Só pensa em si mesma, não é? - os olhos de Carolina dançavam nas órbitas de um lado para outro, captando cada traço de seu rosto.
• Se desejas... - disse ela virando o rosto ignorando-a.
• Hã o que? É assim mesmo que vai ser?
• SE DESEJAS! - gritou ela enquanto a porta do sótão se abria sozinha dando a deixa dela.
Lilian olhou para a porta aberta voltando a encarar a amiga que estava de olhos fechados, como se engolisse suas lágrimas forçadamente. Ela ainda tentara falar mais uma última coisa, porém, Carolina virou o rosto rumo a janela ignorando-a. Saindo do sótão apressada, nem se deu ao trabalho de olhar para trás; Carolina ficou observado-a cruzar o portão às pressas, descendo a rua ereta sem se importar em dar uma última olhada, decidida e com passos firmes desceu ignorando a existência de sua amiga como se nunca a tivesse conhecido; o orgulho das duas era algo que não conseguiam esconder e pode se dizer que era o que tinham em comum também, mas Carolina não negou que ficou parada esperançosa por pelo menos uma olhada, Lilian por sua vez, adentrou sua casa, apressada fechando a porta, mesmo de dentro do sótão, ela parecia ouvir o baque no batente. Pesarosa, ela serrava os pulsos enquanto se apoiava no batente da janela, um ódio começou a crescer como um vulcão subindo de seu coração para sua mente! Com toda a indignação, de olhos semicerrados, ficou observando pela janela como se imagem da amiga desfilasse pela rua centenas vezes, não conseguia acreditar que ela tinha feito isso?! Como imagens de um filme antigo, as lembranças dançavam em sua mente trazendo ainda mais indignação e frustração, sem muito o que fazer, juntou sua dignidade e deu as costas para janela saindo do sótão pisando forte.
                                                                 *
 Haviam se passado alguns dias, os pais de Carolina estavam fora a uma semana, e sua única companhia nestes dias foram os criados da casa, que por sinal mal falavam com ela, apenas respondiam suas perguntas por educação. E como não tinha muita gente para visitar, passava a maior parte do tempo na varanda lendo.
 Martim e Leonor saíram em viagem pelas costas de Ilha de Vera Cruz, atendendo a um chamado de uma outra vila, onde o outro fidalgo anunciou ter avistado uma nau a distância, que não pertencia a eles; seu pai ficou perturbado com a notícia! Um rumor de uma suposta guerra o fazia tremer. Junto do outro fidalgo, ambos subiram em suas caravelas a fim de investigarem se não aportaram pela região. Por sorte era apenas um único nau, ou seja, se tentassem algo, sua esquadra era suficiente para o contra-ataque, o que não seria necessário envolver a esquadra de Pedro. Eles procuraram por dias, até que retornaram ao porto; porém, como ainda estavam com receio de aparecerem novamente, Martim decidiu permanecer por mais alguns dias na casa do outro fidalgo, por precaução caso precisassem de reforços. O que os obrigaram a ir de vila em vila alertando-os dessa suposta aparição até chegarem a vila de Pedro, para que ficassem de sobreaviso sobre uma suposta guerra que poderia acontecer. E como a coroa portuguesa havia deixado esse novo continente de lado, para se dedicar as iguarias da Índia. Pois Estavam lucrando tanto com isso, que esse novo continente, no caso ilha de vera Cruz, ficou ali protegido como uma segunda opção; eles não tinham tanto interesse em explora-ló ainda. Entretanto isso só alimentou o desejo dos espanhóis por território, fora os rumores de que a França estava de olho também, deixando a coroa portuguesa em alerta, e repassando essa mensagem aos seus fiéis fidalgos que estavam a guardar o continente.
 Quando finalmente retornaram para a casa, suas vidas retomaram os rumos normalmente; mas a suposta aparição dessa embarcação desconhecida perturbou muito seu pai! Através de uma ordem direta, mandou que seus homens construíssem um posto de observação, onde começou a passar a maior parte do seu tempo com os olhos vidrados no oceano em busca de algum sinal de velas ao vento. Carolina sem muito o que fazer, pois sua melhor amiga havia desaparecido por completo, aproveitava sua mãe ao máximo, aprendendo com ela todos os afazeres e atividades de mulheres, que ela aprendeu a gostar, somente para acompanhar seu marido. Sentava  na varanda com sua mãe, as vezes com uma linha e agulha para o crochê, outras vezes com livros; atividades que ela passou a apreciar, inclusive começou a admirar-se com a sabedoria de sua mãe! As atividades corriqueiras de seus pais, impossibilitava-a de as vezes sentar e ter uma conversa franca com eles. E como Martim, vivia em cima do posto de observação o dia todo; sua mãe sentava na varanda, exatamente em um ponto que dava uma perfeita visão de seu pai, e tricotava, costurava, lia e tomava chá.
 Carolina estava aos poucos se tornando como sua mae, silenciosa e observadora; de vez em quando pegava sua mãe olhando para cima, com um olhar mareado, como de alguém que está admirando algo; ela então entendeu os motivos dos olhares. Sempre que seu pai, puxava seu binóculo do bolso da farda, ele se empertigava mexendo o maxilar atento; Carolina nunca tinha o visto assim antes, era realmente um lorde esbelto e lindo! O que explicava os olhares admirados de sua mãe. Dado a deixa, Leonor finalmente encontrou tempo para lhe contar sobre as histórias de conquista de seu pai; aproveitava os momentos juntas, para finalmente poder contar com mais vontade sobre as histórias do passado das bruxas, e da sua família. Enquanto balançava na cadeira ansiosa por mais histórias, seus olhos de vez em quando desciam até o portão entreaberto; seu coração acelerando toda vez que alguém passava em frente! Mesmo já fazendo semanas que não via Lilian, mantinha a esperança de ver sua amiga  adentra-lo a qualquer momento; mas o dia estava calmo como todos os outros, e somente  as pessoas desfilavam com mercadorias ou a colheita do dia, para vender em suas lojas. As crianças corriam, com madeiras na mão, simbolizando espadas, enquanto fingiam estarem em uma luta; o que chamava a atenção de Martim lá do alto. Porém, seus pensamentos estavam um pouco mais abaixo da rua, exatamente no lugar onde estava localizado a loja da família, o que por sinal era vizinha da casa de Lilian. Sua mãe levantou os olhos por cima da agulha olhando-a de soslaio um tanto curiosa.
• Por onde anda sua amiga, Carolina? - sua mãe finalmente abriu a boca depois de um tempo em silêncio, por estar concentrada em um ponto na costura. Pegou-a de surpresa! Ela encarou a mãe de repente tentando encontrar alguma resposta.
• Hã? A Lilian?!... bem... ela... ela deve estar em casa.
• Vocês tiveram algum desentendimento, não é? - ela frisou sua mãe, franzindo o senho atenta. - ora, você acha que porque estou de cabeça baixa, realizando minhas tarefas, que não notei você olhando para o portão a todo momento? Com essa carinha de frustração toda vez que passa algum estranho.
Ela parou de virar as páginas de seu livro e focou os olhos em sua mãe, que continuava a costurar um símbolo em um tecido de cetim preto; o que por sinal era um trabalho e tanto. Reconheceu que se tratava de um brasão, mas não sabia qual exatamente.
• Que brasão é esse?! - mudou ela de assunto; sua mae suspirou não querendo sondá-la.
• É da família Franco. Seu pai me pediu para costura-ló no cetim e colocar em um quadro na sala de jantar. - ela parou e encarou sua filha pelo canto dos olhos. - sabe como é o seu pai, gosta de exibir esse brasão para todos; por isso ele usa aquele alfinete em sua farda. – ela arqueou as sobrancelhas se lembrando de já ter visto esse alfinete várias vezes.
Ela observou-o la debaixo. Seus olhos atento ao mar, a todo momento levantando o binóculo até os olhos e verificando se não havia alguma embarcação se aproximando; a forma como ele mal piscava e mantinha uma postura de homem de ordens, de alguém que cuida de algo com tanto zelo, despertava-lhe a admiração. Martim respirava lentamente, Carolina podia ver seu peito se estufando a cada minuto enquanto ele puxava o ar com força aliviando a tensão em seu rosto, enquanto mexia o maxilar, sutilmente acariciando o alfinete na farda.
• Por que não mandou os criados fazerem isso?
• Seu pai. Ele disse que esse brasão só pode ser manuseado pela família Franco, então...
• Papai valoriza demais esse brasão, não é?
• Por que não valorizaria? É o brasão da família Franco, um sobrenome muito admirado entre os humanos e os bruxos. Lembro-me de quando minha mãe e meu pai me disseram que iria me casar com o seu pai; Martim Franco. - Carolina a observou arqueando as sobrancelhas, essa era realmente uma boa história a ser contada, como os dois se conheceram; algo que nunca tinha ouvido. Leonor percebeu seu interesse, e se ajeitou na cadeira um pouco empolgada em contar a ela; sua filha empertigou-se a fim de saber como foi.
• Ah! Lembro-me como se fosse ontem. Eu estava toda arrumada para ir a um jantar com os meus pais, bem, na verdade eles me disseram que era apenas um jantar de negócios com a família Franco. E embora eu sendo uma dama, sabia que raramente a família Franco fechava algum negócio com alguém. Quando cheguei lá, tudo estava formidável! E foi aí que soube que era um jantar a pedido de Martim, para me conhecer. E seu pai... - ela o observou lá debaixo enquanto ele encarava o mar. - sempre foi um homem bonito, e tão cobiçado entre as moças, me senti lisonjeada em ser notada por ele!
• Imagino... - Carolina sorriu pomposa!
• Mas eu soube mais tarde, naquela mesma noite que seu pai havia me notado em uma convenção com os bruxos; porém, eu não tinha reparado muito nele, embora soubesse que estava lá também. Sua avó me empurrou várias vezes a fim de que conversasse com ele, mas eu estava evitando; porque uma antiga amiga estava muito apaixonada por ele. E eu detesto competições, então resolvi me conter e ficar na minha. Por anos eu achei que seu pai, tinha apenas gostado de mim por causa da noite que meus pais me levaram até sua casa; mas ele me disse algo que me fez amá-lo ainda mais. Ele disse que havia me amado no primeiro momento em que me viu, e que não perderia essa grande paixão!
• Nossa, que intenso!
• Sim, embora seu pai tenha essa aparência rude, ele é um cavalheiro.
• Espero encontrar alguém assim como o papai um dia.
• Pois é minha filha, talvez você já tenha encontrado... - Leonor disse entredentes.
• O que disse?! - Carolina se virou atenta a mãe.
• Disse que uma hora você encontrará o amor da sua vida, filha.
 Carolina segurou a respiração por alguns minutos, podia jurar que sua mãe estava lendo sua alma, mesmo que não olhasse diretamente em seus olhos. Não duvidava da capacidade dela, era uma bruxa intuitiva demais, e desde criança ela não deixava passar nada, sabia exatamente o que ela sentia ou queria. Porém, desta vez foi diferente; talvez seja pela idade avançada dela ou por não querer se intrometer mais na vida da filha, mas Leonor não tentou descobrir mais nada, apenas voltou os olhos para a costura e a ignorou em seus devaneios. Carolina franziu o senho enfiando a cara no livro novamente, apenas um disfarce fracassado, manteve o livro um pouco erguido na esperança de esconder o rosto dela, somente para olhar em direção ao portão sem ser importunada pela mãe.
 No dia seguinte, estando ela sentada em seus aposentos, ajeitando seus cabelos platinados; Leonor bateu a porta convidando-a para um passeio pela vila. Relutante disse que não estava muito disposta a caminhar e preferia ficar em casa realizando qualquer outra atividade. Mas sua mãe insistiu tanto para acompanhá-la, apelando para o seu emocional, geralmente esses passeios matinais era realizado com seu pai; mas Martim não saia daquele bendito posto por nada a não ser para comer ou atender as suas necessidades naturais, e como não quis deixa-la sozinha; Leonor havia avisado sobre suas paradas, e uma delas era sua loja, porque precisava verificar como estava o andamento das vendas de café, um assunto um tanto inapropriado para uma dama tratar, mas como seu marido estava indisponível. Carolina cogitou então a possibilidade de ir e claro, não se demorou muito em tomar a decisão, passar em frente a casa de Lilian, era realmente algo tentador.
A família Franco sempre foi bem nos negócios em Portugal, seu nome ganhava força e espaço com as especiarias que eles mesmo desenvolviam como, tônicos para vários tipos de problemas de saúde, temperos e condimentos; o negócio deles demonstravam tanto sucesso que tinham pelo menos oito lojas espalhadas pelo país. E aqui no novo continente não seria diferente, começaram a erguer seu império aos poucos, porém, Martim decidiu trabalhar em cima dos grãos que mais tinham por aqui, o café. Aproveitando a terra boa para plantações logo atrás das montanhas que cercavam a cidade, ele começou seu plantio pequeno, e com o tempo se tornou grande! Até exportação para Portugal houve. A loja dos francos, começou pequena, mas com o tempo cresceu bastante, atendendo não somente a sua vila, mas também as outras que estavam em desenvolvimento. Essa loja era tão requisitada, que muitos moradores passavam por ela primeiro em busca de suas porções diárias de café.
  Ao adentrarem o recinto, haviam dois rapazes trabalhando distraídos, um deles, quase soterrado pela pilha de sacos a sua frente, usava um avental branco na cintura, enquanto mexia dentro de um saco de pano aberto sobre o balcão; já o outro, apenas passava um pano em uma prateleira vazia, preparando-as para os novos sacos que haviam chegado. Leonor entrou em silêncio apenas verificando se estava tudo em seu devido lugar; ela parou em frente ao rapaz distraído com o conteúdo do saco. Seus olhos atentos verificavam a textura do pó recém moído, de vez em quando franzindo o senho como se algo estivesse errado, mal reparando em sua patroa parada o observando.
• Algo de errado, Luciano?
• Oh, senhora! - ele empertigou-se limpando as mãos no avental. - me assustou!
Leonor sorriu gentilmente:
• Tem algum problema com essa leva?
• Não senhora, só estava verificando se o pó estava devidamente moído. Apenas uma análise de qualidade; mas o que te traz a loja?
• Vim a fim de ver como está a produção desse mês, meu marido recebeu algumas observações de clientes, dizendo que o pó não estava muito bom.
• A sim senhora, os sacos estão todos ali no fundo, eu deixei alguns aqui na frente para o reabastecimento das vendas por quilo...- ele parou de falar espantado ao ver Carolina! - pelos doze, essa é a Carolina?
Carolina que estava observando o rapaz limpar as prateleiras, encarou Luciano franzindo o senho sem se lembrar dele. Gentilmente ele fez uma leve reverência a ela, e ela retribui o gesto educada.
• Não se lembra de mim, mas você vinha aqui quando criança com seu pai e ficava revirando o pó no saco aberto. Era uma bagunça!
• Me desculpa, mas não consigo lembrar. - disse Carolina sorrindo tímida.
• Luciano, me acompanhe até o fundo? Preciso ver como estão esses outros sacos.
• Ah sim, claro senhora; por favor. - falou ele dando passagem a Leonor educadamente.
 Carolina, que não quis acompanhá-los, ficou ali parada próxima ao balcão com os dedos entrelaçados reparando na loja, a luz do sol entrava radiante pela vitrine e janela, deixando-a bem iluminada; como tudo era em madeira rústica, a iluminação deixava tudo com um ar de antiquado; o cheiro forte de café moído enchia o ar deixando-a um pouco zonza; fazia muito tempo que não entrava nela, mal reconhecia o lugar; ouviu sua mãe e seu pai conversando uma vez sobre reforma, mas como não voltou aqui para verificar, tudo parecia novo. O rapaz que havia ficado para trás continuava seu trabalho de limpeza sem nem ao menos ousar olhar para ela, estava atento ao seu trabalho.
 Caminhando até a outra prateleira do outro lado do corredor, observava os produtos em sacos de pano tudo empilhado. Ao redor do balcão haviam outros sacos abertos e uma balança sobre a bancada, para compras por quilo, da qual Luciano mencionara. Ela foi até a balança reparando em sua cor prata, com dois pêndulos para igualar o peso, haviam alguns grãos remanescentes sobre a forma da balança, provavelmente de uma última venda; curiosa tocou em um lado forçando o dedo para baixo, um rangido pelo movimento chamou a atenção do rapaz da limpeza, mas ele apenas relevou voltando a encarar a prateleira. Enquanto brincava com a balança, alguém familiar passou pela vitrine da loja como um vulto chamando sua atenção! Era um casal, o rapaz estava bloqueado sua visão da moça, que estava usando um vestido amarelo leve que esvoaçava ao andar; ela franziu o senho, esse vestido não era estranho?! Porém, quando o vento agitou os cabelos da moça, os fios se levantaram como um aceno para ela; era Lilian. Volvendo os olhos para sua mãe no fim do corredor, reparou que ela estava bem distraída observando a textura do pó, conseguiu até ouvir uma conversa deles sobre o horário que havia chegado o malote; conhecendo sua mãe essa conversa iria se estender tempo suficiente para uma escapada rápida.
 Carolina andou até mais perto da vitrine, para ter certeza de que seus olhos não a enganava novamente; de fato era ela. Reconheceu aquela bendita sombrinha em sua mão, que tantas vezes seus joelho bateram nas caminhadas com ela. Ao seu lado um rapaz alto, cabelos negros bem escovado para o lado como um verdadeiro fidalgo, de vez em quando olhava na direção de Lilian com seu sorriso branquinho como as nuvens, e Carolina pode reparar na cor azul de seus olhos que lembravam o oceano.
 Ela saiu da loja tomando o cuidado de não bater à porta; abrindo sua sombrinha cor de salmão, andou devagar escondendo o rosto sempre que eles paravam para olharem alguma loja. Lilian jogava a cabeça para trás com um sorriso largo, sempre que ele falava algo, as vezes passando a mão em seu braço, um gesto amigável de alguém que estava interessada no assunto. Carolina serrava os olhos, toda vez que a via rir, eram os mesmos gestos que fazia quando estavam juntas. Enquanto serrava os olhos, sentiu suas bochechas corando, e um incômodo em seu peito como um desconforto! Pensou que tivesse superado isso, mas sempre esteve lá. Eles foram até a praça central, que ficava bem no meio da avenida; o que hoje em dia não existe mais. E sentando em um banco retomaram a sua conversa interessante.
Carolina, parou próxima a uma bancada de flores, bem ao lado esquerdo, observando os dois; as vezes quando levantavam a cabeça com algum assunto, ela fingia cheirar uma flor para disfarçar enquanto tentava ouvir a conversa deles, mas a balbúrdia das pessoas, as carruagens e cavalaria passando, os mercadores berrando ao oferecerem suas mercadorias, dificultavam sua audição! Mordiscando os lábios se lembrou de um feitiço capaz de aumentar as vozes e dizendo em tom médio, que somente ela podia ouvir recitou:“voces enim veni”, de repente as vozes de todos haviam aumentado o volume ainda mais alto: “Droga!”, pensou ela na besteira que havia feito. As pessoas já estavam falando alto ao redor, e aumentar sua capacidade de audição foi uma besteira, pois agora pareciam que todos gritavam próximo a sua orelha! Era um feitiço de aumento de voz, mas somente quem conjurava podia ouvir. O que não era recomendado fazer em lugares com muito barulho, mas não havia pensado. Colocando as mãos tentando abafar o som, se concentrou a fim de rastrear a voz de sua amiga.
Com muita dificuldade, Carolina conseguiu captá-las de todas as pessoas ao redor; eram tantos assuntos frívolos ao redor que dificultava focar em um só: “Olha a cor do vestido dela!”, “Você viu quem está ali na floricultura? Carolina, a filha dos francos, faz tempo que ela não sai de casa não é?”, ela conteve a vontade de olhar na direção das duas mexeriqueiras, se não elas iriam se assustar. Ignorou as vozes delas é focou na única que conhecia muito bem.
• Hahaha, você é muito divertido, Marcos! Me lembra uma amiga minha, Carolina Franco.
Carolina sentiu seu coração acelerar ao ouvir seu nome saindo pelos lábios dela! Depois de dias, pode ouvi-la falando novamente, o que a deixou um pouco chateada.
• Você é amiga dela?! - perguntou Marcos surpreso.
• Sim, bem... na verdade éramos amigas - Carolina olhou de soslaio com os olhos semicerrado. - mas me afastei dela; era meio bitolada.
• Eu fiquei sabendo que o pai dela anda assim também. Não sai da torre de observação dele; deve ser de família isso.
• Sim, eles são esquisitos mesmo.
• O que?! Como assim? - Marcos encarou-a desejoso em querer descobrir os segredos da família Franco. - sabe de alguma coisa estranha?
Lilian o encarou pensativa, sentia que não deveria ter tocado no assunto, e na tentativa frustrada tentou desviar seus pensamentos.
• A todos nós temos nossos segredos. Quem não tem não é? - sorria forçadamente.
• A vamos lá, não seja modesta; todos sabemos que você vivia dentro daquele casarão, era a única que tinha a permissão de entrar e sair. Vamos, que segredos tão horríveis assim eles guardam, que você não pode contar?
Carolina ficou atenta, queria ter certeza de que a amiga não seria tão traidora assim, poderia ter interrompido a conversa, para evitar que o maior segredo de sua família vazasse, mas a curiosidade em testar a fidelidade da amiga era grande demais!
• VAI LEVAR A FLOR MOÇA? - ela levou um susto, quando ouviu a voz do mercador quase explodindo seus tímpanos.
• Não, só... estou sentindo o cheiro delas. - ele balançou a cabeça assentindo, pois como conhecia bem ela e sabendo quem era seu pai, não a confrontou deixando à vontade enquanto ela tentava se concentrar na conversa novamente.
• Bem... eles... aí, eu não devia fazer isso. Não é assunto meu.
• O que há? Seremos casados daqui a alguns meses, você tem que compartilhar seus segredos comigo. Se não pode confiar em mim, como seremos casados então?
 Lilian o encarou mordendo os lábios indecisa?! Seus pensamentos oscilavam no juramente que fez diante da amiga, sobre não contar nada a ninguém e não esconder nada de seu futuro marido bem ali na sua frente. Queria muito passar uma imagem boa para ele, de uma esposa que o ajuda e não tem segredos para o seu marido; fora que aqueles olhos azuis diante dela abertos esperando ela se decidir entre ele e sua amiga a deixou muito confusa?! Suspirando incrédula do que iria fazer acabou olhou de um lado para o outro verificando senão havia ninguém por perto; Carolina escondeu o rosto dentro da sombrinha.
• A família dela esconde um segredo terrível! - ele arqueou as sobrancelhas; Carolina arqueou as delas também, mas queria ter certeza que ela trairia sua família. - a família dela prática magia que vão contra as nossas leis. Magia negra aos olhos do conselho, parece que é uma maldição que eles carregam a gerações.
Marcos estava espantado! Um risinho de “eu sabia” surgiu sutilmente como se chegando a uma conclusão de alguma suposição sobre a família Franco. Mas esse risinho satisfatório deu lugar a sua vaidade; sorria, desta vez, como se pudesse tirar uma vantagem disso.
• Isso... isso é terrível mesmo! Então, quer dizer a família Franco não é tão heróica assim. Haha, eu sabia que tinham algum segredo sujo! - ele dizia sorrindo maliciosamente olhando em direção ao casarão.
• Mas você tem que jurar que não vai contar a ninguém! Só contei para você porque será meu futuro marido. - ele a encarou por alguns segundos com admiração por ela e acariciando suas mãos sorriu amavelmente.
• Fique em paz, esse segredo estará seguro comigo.
Carolina se enfureceu ao ouvir aquilo dela e de sua família! Não podia acreditar no que ouviu! Ela teve mesmo a coragem de colocar a vida da sua família em risco. Em meio a sua frustração, ao virar para ir, derrubou um vaso de flores feito de barro que quebrou com um som alto; o que chamou a atenção de Lilian e Marcos. Os dois apenas viram o dono da bancada nervoso agitando os braços chamando pela moça que andava a passos pesados de costas, seus cabelos longos passavam a marca da sombra da sombrinha chamando a atenção de Lilian.
• Carol?! - disse Lilian franzindo o senho reconhecendo a amiga marchando apressada.
Carolina entrou em seu quarto batendo a porta com toda a força possível, estava muito furiosa com o que acabara de ouvir! Seu coração estava tão apertado que havia se esquecido até da sua mãe, que mais tarde, brava da vida deu uma bronca nela tão grande que ela teve que fazer vários favores, afim de quitar seu saldo. Irritada, indignada, frustrada e com uma sensação de ser traída, ela andava de um lado para o outro em seu quarto, de vez em quando olhava pela janela rumo a praça central que dava para ser vista de seu quarto; conseguiu ver Lilian em seu vestido amarelo a distância, enquanto se engraçava para o lado de Marcos. Uma raiva descomunal começou a crescer de forma descontrolada, em seguida um sentimento de frustração, por ter confiado a ela esse segredo!
• Aquela rata, desnaturada! Como pode?! - resmungava ela andando de um lado para o outro no quarto.
O que sua família iria dizer? E se o conselho descobrisse, o que aconteceria com todos eles? Muitas perguntas passavam pela sua mente naquele momento, já podia ver o conselho invadindo sua casa, e lavando sua família a prisão subterrânea para sempre.
 Olhou para o seu pai no posto de observação, enquanto ainda encarava o mar com seu binóculo pensando se deveria contar isso a ele? O que ele diria? Eram muitos pensamentos, e fora que eles nunca mais confiariam nela, mas não poderia manter isso escondido deles, toda a sua família corria um risco de vida; isso não envolvia somente sua casa, mas também os seus parentes de sangue. Uma raiva descontrolada tomava conta de seu espírito, Carolina estava fervendo em ódio de sua antiga amiga! Irritada agarrou-se ao batente da janela, olhando diretamente para os dois sentados no banco da praça. Uma única lágrima escorreu por seu olho esquerdo, mas antes que pudesse tocar o chão, ela a pegou com a ponta do dedo, lançando-a pela janela rumo a uma jabuticabeira abaixo da sua janela. Assim que a lágrima caiu nas raizes da árvore, a mesma perdeu suas folhas instantaneamente, seu tronco rangeu como se sentisse uma dor causticante! E em seguida... ela se petrificou tornando-se semelhante ao metal. Estava tão inconformada e frustrada, que enquanto seus olhos desciam pela rua principal até a praça, seus pensamentos sofriam vários devaneios e divagações; estranhamente, o dia, que estava todo ensolarado, deu lugar a nuvens sutis que surgiam por trás das montanhas. Um vento agitou seus cabelos platinados, e sem que percebesse; o céu estava agora completamente tomado por nuvens escuras, ela havia influenciado o tempo, um poder que não sabia possuir.
 As pesadas nuvens começaram a envolver a vila trazendo uma ventania muito forte sobre os moradores que estranharam a mudança repentina?! Como naquela época não havia asfalto, uma poeira se levantou envolvendo a todos; as pessoas começaram a correr de um lado para o outro tentando se proteger da poeira cegante que enchiam suas bocas de grãos; o dia havia se tornado noite de tão escuro. Lilian e Marcos tiveram que encurtarem seu passeio, voltando às pressas para casa, com muita dificuldade Lilian segurava sua sombrinha para não voar, porém, o vento foi tão forte que arrancou de sua mão rodopiando pelo céu sem rumo. Em seguida pesadas gotas de água começaram a cair seguidas de mais e mais, até uma torrencial começar jogando água para todos os lados! Martim, abandonou seu posto entrando correndo em casa um pouco molhado com essa chuva repentina, porém não desconfiou de nada; mas achou estranho essa mudança drástica do tempo.
• Pelos Doze! Que tempo é esse?! - disse Leonor olhando pela vitrine o pandemônio do lado de fora. Ela olhou ao redor em busca de Carolina. - minha filha? Onde está Carolina?
• Com licença senhora. - o rapaz da limpeza abordou Leonor. - mas a dama que lhe acompanhava passou apressada rumo ao casarão de vocês tem uns quinze minutos.
 Leonor empertigou-se com uma serenidade no olhar! Dava para sentir sua raiva flexionando seu maxilar, uma dama como ela andando desacompanhada pelas ruas; isso era inadmissível, mas tarde pegaria sua filha de jeito.
 No dia seguinte após a tempestade passar, os moradores da Vila alta recolhiam seus pertences pelas ruas junto a sua dignidade; enquanto isso no casarão, sentados à mesa para o café da manhã, a empregada da casa havia colocado um pão quentinho a frente de todos; o vapor subia lentamente até as narinas de Carolina que olhava para o copo cheio de leite com os pensamentos distantes; o cheiro do pão amenizou até mesmo a cara amarrada de Leonor; ainda estava irritada por ontem! Assim que chegou em casa, obrigou Carolina a costurar umas dez cortinas e remendar pelo menos dois vestidos.
 Não era bem um castigo pesado, mas costurar era um trabalho estressante. Martim, sentou para tomar o café da manhã, mas parecia mais perturbado que o normal, a preocupação com navios atracando pela costa o deixava inquieto, com receio de uma batalha; depois de receber uma carta direto da corte sobre os franceses, seus extintos estavam ainda mais aflorados. A única que parecia se manter sã naquela casa era Leonor, a única coisa que a deixou levemente irritada foi o fato de ser esquecida na loja, apenas isso. Por outro lado continuava em silêncio realizando seu desjejum como se nada tivesse acontecido. Enquanto sorvia um gole de seu chá quente, olhou para seu marido com os olhos cansados de uma noite mal dormida; se lembrou da noite enquanto ele levantava a todo momento indo até a janela para verificar se estava tudo bem no mar: “Pobre Martim, estava começando a enlouquecer!”, pensava enquanto o líquido refrescante de hortelã deslizava por sua garganta. Volvendo os olhos para Carolina, percebeu ela ainda mais distante, porém, não queria conversa com ela no momento.
Martim mal conseguia comer, de vez em quando bebericava um gole do café em sua xícara e era só o que conseguia engolir. A cada som novo do lado de fora, era um motivo para se levantar e correr rumo a janela. Enquanto voltava ao seu lugar, um som de algo estourando o fez pular da cadeira! Carolina arqueou as sobrancelhas assustada voltando a realidade; Leonor segurou sua mão enquanto alisava a parte de cima dela.
• Querido, querido, querido. Calma! Foi apenas um dos empregados que estou um saco de farinha; não tem com o que se preocupar.
Realmente Martim estava horrível! Seu olhar alucinado demostrava o quanto estava severamente perturbado. Ele sentou em seguida lentamente, enquanto sua mente voltava ao normal; Carolina ainda supresa pela reação espontânea de seu pai, ficou a observá-lo preocupada!
• Me perdoe senhores! - disse um empregado adentrando o recinto. - acabei esbarrando no saco de farinha. - Leonor serrou os olhos reprovando seu descuido.
• Tome mais cuidado da próxima vez. - ele abaixou a cabeça em um aceno e saiu da presença deles apressado quando Leonor se voltou ao marido novamente. - Não vai comer o pão querido? - Leonor alisou sua mão tentando aliviar sua tensão. Martim piscou voltando a realidade.
Ele encarou-a mudando seu semblante para um sorriso amistoso e amoroso para sua adorável esposa!
• Sim, só estou um pouco perturbado. Essa tempestade que caiu sobre nós... não foi natural. - ele franziu o senho preocupado.
• O que você acha que pode ser?
• Eu não sei exatamente, mas eu não sou o único bruxo no mundo capitão de uma esquadra; os franceses também tem um bruxo na linha de frente, assim como os espanhóis. - ele encarou a filha por um momento. - Carolina, o que te perturba menina?
 Ela deu uma leve piscada voltando a realidade; a semelhança entre os dois era gritante! A vontade de Carolina era contar a eles que o segredo da família havia vazado, mas ao notar a preocupação de seu pai, Carolina repensou duas vezes antes de falar qualquer coisa; não queria que seu pai se alterasse ainda mais. E sua mãe, que já estava nervosa com ela, iria ter um surto extremo! Por alguns minutos encarou seu pai no fundo dos olhos procurando o que responder, nem ousou olhar nos olhos de sua mãe, com a capacidade que tinha de notar algo errado não queria arriscar; se sua mãe soubesse, sabe-se lá o que faria com Lilian, poderia apostar que sua vida estava em risco. Ela estava perdida de qualquer forma, se sua mãe não a matasse, sua família provavelmente a mataria. Carolina pensava que se a pegassem não iria fazer diferença mesmo, as duas já não eram mais amigas; porém, ainda tinha sentimentos por ela, não iria suportar ver sua ex amiga ser morta na sua frente. Droga de dilema infernal que estava vivendo! Sua mente estava uma bagunça por causa de tudo o que houve, mas não podia demostrar isso para os seus pais. Com todo cuidado vestiu uma máscara de tranquilidade tentou ao máximo evitar mostra qualquer desconforto:
• Nada meu pai, não tem nada me incomodando. E o senhor como está?
 Martim mexeu o maxilar serrando as sobrancelhas, sabia que tinha algo que estava errado; olhou para Leonor em busca de auxílio, mas sua esposa estava distraída mexendo a xícara a fim de fortalecer o chá. Leonor sabia que ele iria recorrer a ela em busca de ajuda, porém, estava chateada com Carolina ainda, não queria se envolver em nada com relação a ela no momento. Como não sabia aprofundar o assunto ou sondar sua filha, pois essa era uma tarefa para Leonor, não entendia muito bem a cabeça das mulheres, pigarreando disse:
• Preocupado minha filha, preocupado!
• O senhor deveria colocar alguém no seu lugar para vigiar; isso está te cansando muito.
• Não gostaria de me arriscar colocando alguém com menos experiência. Daí realmente aparece uma embarcação inimiga e o abobado pode se desesperar e agir errado.
• E aquele Marcos? Ele não é filho de um dos seus homens? - Carolina sugestionou enquanto apoiava o braço esquerdo sobre a mesa, chamando a atenção de Leonor.
• Isso é jeito de uma Dama se sentar Carolina?! - Leonor empertigou-se irritada, enquanto ela se ajeitava revirando os olhos.
• O filho dos Silvas, aquele mimado? Não, ele só sabe ficar cavalgando por aí como se fosse um aventureiro. Eu recusei ele na minha cavalaria, não sabe empunhar uma espada. Se bem que... tem o Frederico, ele é um ótimo menino, de boa família, e demonstrou um grande conhecimento no mar na minha última viagem. Vou colocá-lo no meu posto, preciso olhar ao redor da região.
  Martim levantou da mesa dando um beijo na testa de sua esposa, deixando as duas na mesa ainda com um silencioso incômodo. Leonor mal encarava a filha tomava seu chá lentamente de olhos fechados. Carolina, mal olhava na direção da mãe, a todo momento observava a janela e o seu copo de leite. Um som do portão de ferro se abrindo lá embaixo ecoou pela manhã silenciosa; a princípio elas pensaram ser Martim cruzando os portão, mas então, uma batida na porta tão alta ecoou pelos corredores da casa, chamando a atenção das duas; Leonor encarou sua filha como se perguntasse “quem seria a uma hora dessas?”, ela tinha um palpite, mas não arriscou abrir a boca para falar, a única pessoa que madrugava em sua casa não queria mais falar com ela. Um
Vulto passou apressado pelo corredor, indo em direção a porta; a empregada da casa abriu educadamente, como mandava a etiqueta, mas no fundo da sua mente pensava, quem seria o indelicado para chegar a casa de alguém esse horário?! Então sua expressão relaxou assim que abriu:
• Bom dia! - a voz melodiosa e doce de Lilian ecoou pela casa como um raio de sol, fazendo o coração de Carolina disparar! - a Carol está?
• Quanto tempo, Lilian. Está realizando o desjejum dela, mas entre e espere ali na sala.
 Ela entrou com passos leves, aproveitando para observar a casa como se verificasse se nada tivesse mudado. Enquanto caminhava o sol brilhava em suas costas iluminando seus cabelos ruivos tornando-os semelhante ao fogo, até o últimos raios alisarem seu cabelo após a empregada encostar a porta. A criada deixou-a confortável na sala, oferecendo um chá educadamente, mas Lilian recusou com uma mão levantada toda delicada, enquanto se virava admirando os móveis em mogno. Minutos depois, Carolina apareceu no batente da porta sem fazer som algum, ficou ali parada como uma entidade quando visita alguém na surdina apenas encarando a amiga distraída enquanto observava os quadros da família espalhados pelo cômodo.
Lentamente a cabeça de Lilian foi se virando de quadro em quadro, até a silhueta de Carolina parecer de soslaio no seu campo de visão; em segundos virou um pouco assustada com a manifestação dela. Lilian se colocou em pé  apressada, porém, não poderia imaginar que a primeira visão de sua amiga iria mexer tanto com ela, seu coração deu umas leves palpitações que ameaçavam aumentar gradativamente; com toda a serenidade, tentava ao máximo controlar sua respiração para não acelerar. O silêncio permaneceu por alguns minutos, porque geralmente, como manda a etiqueta, a primeira a falar é a anfitriã da casa; mas Carolina permanecia em silêncio observando-a. Seu coração lutando com o seu peito com batidas aceleradas; não sabia dizer ao certo se era a raiva pela traição ou a emoção em vê-la, talvez fosse as duas coisas. Rezando para os doze não a deixarem nesse momento, torcia para que Lilian não reparasse com medo de seu coração estar pulando alto, mantinha uma posa ereta e serena exatamente como sua mãe fazia. Se Leonor a visse nesse momento, sentiria orgulho em saber que seus ensinos surtiu efeito. Lilian deu uma pigarreada tomando o controle da situação:
• Podemos conversar? - perguntou ela entrelaçando os dedos, enquanto olhava na direção dos cabelos platinados da amiga, incapaz de olhar em seus olhos. Como se a vergonha a impossibilitasse.
Carolina depois de tempo parecendo que não respirava, tragou o ar lentamente; erguendo um pouco a cabeça com um olhar bem penetrante.
• Pensei que não tínhamos nada o que conversar. Seu marido que sabe que esta aqui?
• Por favor, Carol! Só vamos para o nosso canto. - disse ela franzindo o senho.
Carolina deu passagem  para amiga inclinando-se a esquerda. Ambas subiram os degraus lentamente; Lilian não era mais a mesma, a sensação de remorso era evidente em seu semblante a cada degrau alcançado, ela dava uma olhada sútil para trás, enquanto Carolina a observava séria. Caminharam em silêncio até o sótão, onde se encontravam desde criança. Carolina passou por ela que segurava a maçaneta da porta, caminhando até a janela; assim que passou tomou o cuidado para não fazer barulho ao encostar. Ao se virar, deu de cara com sua amiga, séria ainda enquanto serrava os olhos tentando ser a mais indiferente possível.
• O que você quer, que teve que me arrastar para o sótão, Lilian?
Ela respirou com um pouco de dificuldade, observava o lugar um pouco extasiada! Dava para notar que sentia falta dali.
• Esse era o nosso canto, nosso confidente. - Carolina arqueou uma sobrancelha em desdém. - quantos segredos essas paredes guardam não é? - disse ela alisando a parede. - ah! se elas falassem... eu vi você me espionando ontem à tarde.
Lilian disse enquanto estava de costas para ela observando uma marcação na parede que as duas deixaram; Carolina apenas observava onde ela iria com isso.
• Você deve achar que sou idiota não é? Você acha que não te vi me espionando ontem enquanto estava com o Marcos? - Carolina ainda mantinha a pose serena sem um pingo de vontade de rebater. - não vai dizer nada?
• Quer que eu fale o que?
• Eu não sei, tipo o que foi fazer lá? Isso seria muito bem vindo agora.
• Se te serve de consolo, eu não estava te espionando. Fui apenas com a minha mãe verificar o andamento da nossa loja.- Lilian cruzou os braços indignada, o que deixou Carolina um pouco irritada.
• A não minta na minha cara Carol. O que você quer em? Me prender, me deixar infeliz? É isso é? Você é uma pessoa possessiva demais! - Carolina arqueou as sobrancelhas visivelmente irritada!
• Possessiva?! Quem que passou esses anos todos te ouvindo e te ajudando com a sua problemática família? Foi o Marcos? Ah, não me esqueci, foi a minha família -terrível- que te ajudou. - Lilian arqueou as sobrancelhas espantada!
• Como você sabe o nome do meu futuro marido?! Não lembro de ter contado.
• Não faça essa cara de espanto. Ainda bem que pelos deuses eu ouvi sua conversa de ontem. Eu segui vocês dois sim, parecia que os doze me alertavam para que eu fizesse isso.
• Não meta os doze nesse meio, eles não tem nada a ver com as nossas escolhas.
• Realmente, mas nos ajudam quando tem alguém que age da pior forma conosco, como uma quebra de sigilo. - Lilian a encarou atenta, sentindo borboletas rodopiarem seu estômago nervosa!
• Não sei do que esta falando.
• Eu confiei em você e olha o que você fez; correu como uma meretriz saltitante para contar o segredo da minha família, colocando em risco todos nós. Você não tem vergonha na cara mesmo!
Lilian desta vez não escondeu sua surpresa! Arregalou os olhos ao ouvir que fora descoberta, havia visto ela correndo de volta para casa ontem, porém como imaginar que tinha ouvido tudo? Seus olhos permaneciam grudados em Carolina, enquanto sua mente maquinava uma desculpa esfarrapada somente para tentar escapar dessa situação. Sentia suas mãos suando frio enquanto esfregava os dedos sem saber o que dizer, a fim de se justificar.
• Eu posso explicar...
• Que explicar o que! Você traiu minha confiança e a de minha família que te recebeu com tanto carinho. - Carolina andava de um lado para outro, quando parou repentinamente encarando-a. - ele contou a alguém mais?
Lilian corou e freneticamente balançava a cabeça com o remorso entalado em sua garganta!
• N-não, ele não contou a mais ninguém, eu juro! Ele me prometeu que somente ele saberia.
 Carolina assentiu, porém, sua expressão havia mudado completamente. Ela viu pela janela seu pai entrando com o Frederico, o rapaz que iria ficar de vigia para ele hoje; ambos pararam no portão e pode ver seu pai gesticulando como se passeasse algumas instruções para o atento rapaz. Porém não estava interessada na conversa de seu pai, pensava mais sobre o que ele iria dizer, caso descobrisse? A mente dela explodia em pensamentos, com relação a sua família quando teve uma lembrança:
 Certa vez sua tia reuniu toda a família para uma reunião urgente; todos os Francos apareceram em questão de minutos, ocupando todo o espaço da sala, que por sinal era consideravelmente grande. Assim que chegaram perceberam que a anfitriã estava apreensiva aguardando todos, apoiada em uma poltrona de couro. Ela havia explicado o motivo da reunião o que deixou todos aflitos! Em seguida guiou a todos até o porão de sua casa, onde um rapaz, com um capuz na cabeça, estava amarrado em uma cadeira de madeira. Essa era a primeira vez que Carolina testemunharia um julgamento realizado pela sua família, e embora estivesse assustada, seu pai julgou ser necessário sua presença. Apenas os francos de sangue estavam presentes, vários cabelos platinados enchiam o ambiente. O julgamento entrou em andamento, esse rapaz estava sendo acusado de vazar o segredo da família para sua amante; ele era namorado da tia de Carolina, e havia traído ela com uma outra moça assim que descobriu o segredo. Como não faria parte da família, era estritamente proibido que alguém vivesse após saber desse segredo.
 O rapaz ouvia toda a conversa ao redor, porém, permanecia com o capuz para a segurança de todos; que estavam decidindo se ele deveria morrer ou não. Enquanto o rapaz ouvia apenas a balbúrdia deles sugestionando, sua tia deu o aval para a execução; ela acabou contando a todos que a bisavó de Carolina, uma senhora com um dom negro de ler as intenções do coração; fez uma leitura dele quando descobriu que esse rapaz pertencia a uma família rival a deles, e que buscava por algum segredo a fim de que a família Franco fosse presa. Um silêncio horrendo caiu sobre todos, as tias, tios, avós e primos olharam em direção ao homem quando ouviram seu sobrenome. Carolina segurou nos braços de seu pai assustada com os olhares pensativos de sua família.
  Com isso todos ali chegaram a um consenso de que deveriam colocar um fim nele, e depois dizer a sua família que ele morreu em uma batalha convocado por Martim; o que mais tarde foi o que aconteceu. Mas a punição não parou somente nele, após a execução do homem, sem deixar vestígios algum, sua tia foi severamente reprovada por seus familiares, a punição dela na época foi ser excluída por anos das festas e reuniões da família, mas depois tudo se ajeitou. E esse era o medo de Carolina, uma rejeição por parte de sua família.
 Agora essa situação se repetia anos depois, o correto seria ela convocar sua família para a reunião de emergência, porém, a falta de coragem em ver sua amiga sendo morta por eles era maior. Precisava tomar uma iniciativa sem que seus pais e seus familiares soubessem, teria que por um fim nisso. Sua mente maquinava todos as coisas que teria que fazer, todos os planos passavam em sua cabeça como um raio. Lilian percebeu o silêncio dela, seus olhos distantes de alguém que raciocinava, percebendo a besteira que havia feito, tomou a iniciativa:
• Carol, vamos faça isso pelos bons momentos que passamos juntas aqui. - disse ela abraçando a amiga e dando-lhe um beijo em seu rosto.
Carol se assustou com o abraço dela,  sentindo seu rosto corando e aquecendo ao mesmo tempo, por pouco não caiu na sua lábia; apesar de Lilian não possuir nenhum dom negro, tinha uma capacidade absurda de manipular as pessoas pelo seu charme encantador, era como uma sereia. Encantava qualquer pessoa com sua beleza arrebatadora! Mas Carol foi ágil e empurrou ela um pouco para o lado balançando o dedo indicador:
• Não, não desta vez -amiga, você realmente colocou toda a minha família em risco. Não posso deixar que fiquem por aí com o nosso segredo.
Foi como um balde de água fria, Lilian instantaneamente perdeu seu charme, murchando como flor depois de um dia todo sendo beijada pelas abelhas e borboletas; seu semblante de conquistadora foi dando lugar ao medo! Sem saber exatamente o que Carolina faria, sua mão desceu até sua perna, onde na aba do vestido havia um pequeno bolso ligeiramente costurado, descansando ali dentro uma varinha marrom. Os olhos de Carolina rapidamente captaram seu movimento.
• Não se atreva a me lançar um feitiço! - disse ela segurando a respiração. - Sabe que sou muito mais ágil do que você.
Lilian oscilou um pouco confusa! Olhou rumo a janela e a porta, não tinha para onde correr; sua única chance era atacar e correr. Sabia dos riscos que corria, com relação a família dela; contar o segredo de sua família, era pedir para morrer; não tinha ouvido a história do rapaz julgado por eles, mas Carolina comentou com ela, que sua família não aprovava que contassem. Sem pensar duas vezes em um ímpeto de medo mesclado com a loucura apontou sua varinha para ela, e antes que começasse a recitar um encanto, Carolina foi mais rápida no gatilho, possuía a habilidade de conjurar feitiços sem a varinha para direcionar, uma habilidade exclusiva dela. Com um estalo de dedos, a varinha de Lilian voou pelo ar caindo do outro lado do sótão. Ela olhou para varinha e para Carolina que estava com um olhar serrado. E antes que pudesse correr, Carolina a alcançou segurando seu pulso com força!
• Me... larga! Sua... sua bruxa maldita! - Carolina não falava nada, a adrenalina estava a todo vapor, enquanto sua respiração estava mais acelerada que o normal. - Carol, por favor, não faça isso comigo! Eu te imploro, eu amo você.
A raiva que havia movido ela a pegar sua amiga pelo pulso estava cada vez maior, desta vez seu dom negro começara a se manifestar; uma
vez que isso acontecia a empatia ia se esvaindo de seu corpo como o sangue se esvai do corpo por uma ferida aberta. Carolina sorriu debochadamente, enquanto revirava os olhos segurando o pulso dela com mais força que o normal.
• Você tentou me atacar!
• Não, eu juro que não iria fazer nada! Eu amo muito você a esse ponto, por favor não me machuque.
• Não deveria usar palavras que não conhece. Colocarei um fim nisso tudo, em seguida, irei caçar seu futuro marido, e assim unirei os dois no mesmo plano.
• Fique longe dele sua louca!
Carolina deu um sorriso maléfico, quando de repente seus olhos ficaram negros como a noite com alguns brilhos brancos como estrelas; ela estava drenando sua energia da noite, estava invocando sua maldição e seu dom negro. Lilian nunca tinha visto a amiga dessa forma, arregalando os olhos tentava se desvencilhar de sua mão que parecia ainda mais forte que o normal! ela olhou para sua varinha desesperada, esticava as mãos na esperança de agarra-lá, mas estava tão longe que não conseguiria; então voltou os olhos para sua amiga quando a ouviu recitar alguma especia de encanto em uma língua que ela jamais ouvira antes.
• suus 'clausit tibi!
Uma dor causticante foi crescendo gradativamente tomando conta de seu corpo! Seus gritos estavam abafados devido a maldição envolver o cômodo, era como se estivessem em uma espécie de bolha a prova de som! Ninguém conseguia ouvir nada. Ela olhava para amiga com lágrimas nos olhos, e não via nada além de maldade naquele olhar profundo e escuro! Sentia sua vida começando a se esvair de seu corpo.
 O dom de Carolina foi começando a reagir, então o corpo de Lilian começou a se desmaterializar lentamente, sua carne foi ficando cada vez mais transparente até ao ponto de virar um espírito errante; Carolina permaneceu com os olhos negros até o momento em que não podia mais senti-la em em seus dedos; a negritude começou a sumir sutilmente dando lugar aos seus olhos normais. Ela se recompôs por um momento vendo Lilian flutuando em sua frente.
• O QUE VOCÊ FEZ COMIGO?! - gritava ela desesperada.
Carolina ofegava como se estivesse cansada, percebendo sua amiga desesperada, sorriu vingativa e satisfeita em ter prendido ela ali.
• Prendi o teu espírito aqui, nunca mais você irá encontrar o seu querido Marcos.
• Sua... sua... MALDITAAAAAAA!
  Lilian voou para cima dela, porém, como era um espectro passou direto pelo peito indo em direção a porta, quando um sinal brilhou em cima da parede do lado de fora e de dentro, um sinal de prisão que somente Carolina reconhecia, por se tratar do seu dom. A passagem tornou-se como uma barreira de proteção impedindo que o fantasma saísse dali. Ele segurou Lilian empurrando a alguns centímetros do batente. Parada olhando para fora, volveu os olhos em direção a janela, e o mesmo sinal brilhou como um alerta. Percebeu que estaria fadada a ficar ali para sempre. Carolina não demostrava nenhum expressão, apenas a observava com um ar de triunfo nos olhos, sem um pingo de remorso pelo o que acabara de fazer.
• Bom se tem algo a me dizer, é bom que o faça agora. Após eu prender um espírito ele se torna invisível aos olhos de qualquer um; estará condenada a solidão para sempre.
Lilian, a encarou sem acreditar no que sua amiga fora capaz de fazer?! Seu semblante era de frustração e amargura demais que não era capaz de dizer muita coisa. Os únicos pensamentos que passavam pela sua mente era exatamente o porque ela fez isso?
• Por quê?!
• Era isso ou deixar o conselho acabar com a minha família. Eu poderia ter tomado um rumo diferente Lilian, eu juro que não era a minha intenção te prender aqui, mas não me deixou escolha. Olha o que você me fez fazer. Por causa de você e sua... língua grande, minha família está correndo risco, agora preciso prender o seu amado Marcos antes que ele de com a língua nos dentes também.
• Você é uma bruxa cruel e ruim, e eu abomino você e sua família estranha para todo sempre! Eu juro, que qualquer um que entrar aqui da família Franco, vou faze-los em pedaços. - Carolina riu debochada ao ouvir isso, caminhando rumo a porta.
• Aproveite a solidão. - disse encostando a porta e deixando-a sozinha para sempre.
Essas foram as últimas palavras de Lilian, antes de desaparecer completamente dos olhos de todas as pessoas e bruxos; a maldição de Carolina e o seu dom negro, prendeu ela para sempre nesse sótão. Nem mesmo a própria Carolina tinha mais acesso a ela; anos depois, após se casar e ter seus filhos, Carolina resolveu subir para tentar contato com ela, embora não conseguisse também; Lilian a viu. Porém, nem ao menos teve coragem de soprar uma brisa para anunciar que estava por ali, a distância, observou-a entrar em seu vestido luxuoso e seus cabelos escovados como um
Bolo de casamento; as marcas das rugas anunciavam sua idade avançada. A única vez que Carolina a viu, foi em seu leito de morte, quando teve um único vislumbre dela de costas assim que fechou os olhos pela última vez enquanto sua alma voava para o campo da justiça.
Séculos depois o único som que se ouvem hoje em dia, são passos a noite e objetos caindo, os descendentes de Carolina, juram já ter ouvido o choro de uma mulher, outros diziam já ter ouvido gritos de raiva e juras de vingança! Desde sua morte, Lilian vem treinando suas habilidades de fantasma na esperança de poder se vingar dos Francos que tanto odeia; pois infelizmente está fadada a ficar aprisionada para todo sempre, até que a maldição seja quebrada por alguém capaz de vê-la.
Welinho
Enviado por Welinho em 21/11/2020
Código do texto: T7117478
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Sobre o autor
Welinho
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