Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Pastor de Estuos - parte I


No todo, a figura que chegava à vila era inumana, estava claro no número errado de membros, nas formas incompreensíveis de seu corpo, no modo estranho com que se movia e no rastro que deixava para trás. Como sempre naquela visão nada era claro, aquela coisa escura simplesmente aparecia das brumas e passava a cruzar os espaços entre as casas. Por fim, ao parar sua caminhada, a figura se voltava para o leste e para lá ia toda sua atenção, certamente havia algo catastrófico lá, mas...
— Hei, o que tem com você hoje?
Retornando dos pensamentos Andro sentiu a batida em seu ombro e virou-se para encarar de onde vinha. Ioto o jovem que havia lhe falado, se recolheu com expressão de espanto.
— Por que as pessoas reagem assim comigo? — pensou Andro. Era verdade, tantas vezes as pessoas se recolhiam após alguma expressão de Andro, como nele houvesse que as assustasse. Sem resposta para si nem para Ioto, que ficou para trás, Andro continuou correndo. Perturbado pelos resquícios da visão que ainda estavam no canto de sua mente, furioso consigo mesmo por ser incapaz de entender o que aquelas visões significavam, ele balançou sua cabeça e tentou mais uma vez se concentrar no momento presente, na corrida. Aquele terreno era traiçoeiro demais para ficar tão desatento e certamente não era a hora de se perder em lembranças.
— Fui grosseiro? Céus, devo mesmo estar mal, para Ioto ter chamado minha atenção, e o espanto dele depois...
Ioto não era tão alto quanto Andro, nem tinha cores tão claras, afinal Andro era quase todo branco, mas Ioto jovem de força bem conhecida não era de qualquer coisa lhe assustar, por isso Andro se preocupava.
— Sonhando acordado, reagindo assim a uma simples pergunta, preciso me concentrar...
Além de tudo era realmente inútil pensar naquilo, naquelas visões, pois, não havia mensagem a ser entendida. As imagens que hora ou outra lhe tomavam não passavam daquele ponto, quando ele tentava enxergar o que no horizonte tanto interessava à figura, tudo se desfazia em névoa. Mais uma vez frustrado, Andro se forçou concentrar na corrida, o fôlego quebrado e a necessidade de buscar ar pela boca, fizeram o trabalho de trazê-lo à realidade. Saltando rochas obstando a trilha ele encheu seu peito com o ar úmido das estepes, ao custo de recuperar forças, seu espírito retornou para como devia ser e se conectou à terra.
Andro podia entender todo o mundo, mesmo através de suas botas grossas conseguia sentir aquele chão, cada passo que dava e a energia emitida retornando em vibrações para o seu corpo. Aquela presença estava em tudo, no orvalho frio respingando em seu rosto, no cheiro doce dos capins altos, na luz fria que tomava os ares. Era mesmo uma manhã gelada aquela, mas correndo pela estepe Andro se sentia quente. A entidade da terra falava com ele, não com palavras explícitas, mas com tons profundos que penetravam sua alma tornando aquela mensagem de pura música em algo muito mais claro. Andro corria entre pedras e gramas, sobre raízes e morros, usando seu braço livre como contrapeso, pois o outro estava em constantes ajustes carregando sua lança. Ele não sentia cansaço, apenas desejo, entregue ao som das passadas fortes e o eco que vinha do centro da terra buscando seu peito e enchendo-o de vigor ele corria.
Relutante em deixar sua união com os elementos Andro tomou conhecimento dos outros corredores. O grupo juntado às pressas para aquela missão continha uma dezena, homens e mulheres acostumados a todo tipo de trabalho, do lavoro à guerra. Andro sentia orgulho de cada um deles, impetuosos como eram, indomáveis como eram, o povo de Márius. Vestidos com peles, armados com lanças e lâminas, eles eram fantasmas pálidos criados pela névoa. Clara era sua pele e claros eram longos cabelos que se agitavam nas trilhas. A brancura neles era vista como sinal de força e juventude. Os bravos gritavam e corriam, praguejavam e saltavam, desafiando todo o mundo a lhes fazer frente, assim eram os nascidos de Márius, fiéis à destemida natureza estuana.
Estuos era um país selvagem, brotado de plantas pálidas, e rochas escuras, inúmeras formas de vida, mesmo em seus prematuros anos, Andro já havia encontrado várias delas e poucas eram mais impressionantes do que o alvo daquela caçada. Aliás, o rebanho estava perto, ele podia sentir, alcançá-los era apenas questão de tempo. Calado, mas ansioso, Andro se colocou entre os primeiros corredores, a imagem que ele já antecipava obstruída por três vultos brancos. Correndo a frente dele estavam Gauro e Frago, irmãos exceto por sangue, ambos dados a algazarras eles corriam empurrando um ao outro numa estranha interação que, mais estranhamente ainda, parecia encorajá-los mesmo na trilha apertada demais para uma dupla. Na frente de todo o grupo ia DoroMárius, talvez o único tão sério quanto o próprio Andro. Aquele que antes era apenas Doro, era quem então carregava o título de maior dos Márius, líder do grupo, líder de toda a tribo. De certo, DoroMárius não tomava as todas as decisões, aquilo cabia essencialmente aos mais velhos, mas era ele quem executava as ações relevantes e Andro tinha de admitir que DoroMárius inspirava respeito, tanto que o líder levou apenas alguns minutos para juntar dez bravos e colocá-los ao emprego da missão. O grupo, aliás, já corria naquele ritmo desde o amanhecer horas atrás, sem parar nem diminuir. Eles seguiam tão selvagens quanto qualquer fera, incansáveis como rios, brancos como névoa, eles agitavam suas lanças e desviavam das rochas negras que definiam a trilha. Não demorou muito, Andro logo ouviu os sons de trovões, cascos batendo contra o solo, na elevação seguinte o terreno acidentado deu vista ao rebanho de volsões.
— Finalmente.
Pensou Andro, reservado, enquanto seus companheiros extravasavam em gritos animalescos. O magnífico rebanho se mostrava uma enorme mancha vermelha enquanto as criaturas que o compunham trotavam vale abaixo. O eco dos cascos contra aquela terra vibrava dentro de Andro fazendo de seu peito um tambor furioso, ele sorria. Saindo da trilha vale à dentro os guerreiros em fila iam proferindo suas provocações e obscenidades, logo não se podia discernir o conteúdo, pois, inda que se postassem como homens, eles gritavam como bestas. Em silêncio Andro deleitava seus olhos devorando a beleza daquele vale cercado por paredões de rochas negras.
Estuos era uma região de prados e estepes, de vales e montanhas, campos banhados por grandes lagos. Uma terra de seres únicos, moldados em fúria, pois apenas exemplares fortes podiam sobreviver nas condições extremas daquele mundo de tormentas. Uma criatura que ilustrava bem esse conceito era o volsão. Qualquer vagante sabia que, nos prados de Estuos, os volsões estavam entre os animais mais temidos e mais cobiçados. Quadrúpedes gigantescos, cada volsão estuano adulto chegava à altura de dois homens e tinha a força de uma dezena. Dotados de um couro duro, avermelhado no dorso e claro na barriga, os volsões eram criaturas de vigor potência.
Personagens de tantas histórias e canções, os volsões poderiam ser naturalmente agressivos em qualquer gênero ou idade, mas os machos da variedade estuana eram de longe os piores. Fáceis de identificar por exibirem uma juba clara, eles usavam como defesa suas mandíbulas potentes e dois pares de chifres na fronte, longo e retos como espadas, qualquer que fosse o inimigo, se atingido por aqueles chifres encontraria morte certamente. Se, contudo, os volsões eram individualmente problemáticos, não era tanto o caso quando aglomerados em rebanhos. Ao que parecia a identidade de grupo modificava grandemente sua forma de pensar fazendo-os tender para um comportamento mais recluso.
Andro pensava o mesmo de seu grupo enquanto seguia a liderança de DoroMárius conduzindo-os numa rota paralela ao rebanho, aquele era obviamente o caminho mais seguro, fácil se via, ainda que para os bravos de Márius, segurança não fosse prioridade. Identidade de grupo, realmente algo semelhante poderia ser dito de seu povo. Andro notava que quando em grupo suas próprias atitudes eram diferentes e os resultados também. Se feliz ou infelizmente ele não sabia, o que ele sabia era que se sentia mais forte sozinho, talvez porque sozinho precisasse demonstrar sua verdadeira força e encontrar seus limites. Inda assim Andro estava grato por ser parte daquele grupo descendo o vale em cerco ao rebanho que, estranhamente, estava reduzindo o ritmo do trote. Ali em terreno aberto que favorecia as feras numa fuga veloz, era realmente estranho que eles estivessem diminuindo sua velocidade e se permitindo alcançar. As feras pareciam mesmo desejar o combate por vir, isso se tornava mais e mais óbvio quando Andro focava sua atenção no alvo, o líder do rebanho que não apenas diminuía o trote, mas começava a circular pelo vale intencionalmente tomando um caminho que colidiria com o grupo de caçadores.
— Torvo o terror...
Volsões atingiam a maturidade sexual e imediatamente disputavam a liderança do rebanho, o macho líder não apenas guiava as fêmeas e os machos subordinados, mas também se propunha a destruir toda e qualquer ameaça no caminho. O exemplar mais recente era Torvo, um macho líder que vinha causando estragos por Estuos. Destruindo casas, construções, arrediando os rebanhos de lavoura em lavoura, os feitos de Torvo rapidamente lhe garantiram o apelido de terror. Por mais merecida que fosse sua fama, aquilo não podia continuar. Por essa razão, já muito o povo de Márius havia decidido que era hora de pôr um fim ao reinado de Torvo, fortuitamente a oportunidade surgiu naquela manhã.
— Lá! Para as pedras!
Gritou DoroMárius entre vazões de fôlego, usando sua lança ele apontou a direção em que o grupo deveria ir. Inda que não fosse exatamente uma ordem necessária, posto que os volsões já estavam circulando numa direção desejada, o grupo rapidamente se ajustou aos comandos. Em vez de correr em paralelo eles abriram sua formação numa linha de ataque, DoroMárius ofegante se colocou ao centro.
— O maior de nós, mas não na sua melhor forma — pensou Andro, DoroMárius, de meia díade, já apresentava com cor cinzenta em sua pele e cabelos. Para o povo de Márius o escurecer de seus corpos significava avanço da idade e fraqueza. Também sabedoria, mas sabedoria era para debates e não batalhas. Fosse como fosse Andro tentava não se ater a julgamentos, afinal não havia tempo. Ao ser direcionado para as pedras, num dos cantos do vale, o rebanho completou sua volta e parou encarando o grupo de caçadores. Andro se surpreendeu quando na tomada do vento recebeu o cheiro do rebanho. Aquelas feras enormes cheiravam bem, era um odor almiscarado que misturava o orvalho da relva com o suor do galope. Contendo quase uma dúzia de volsões, o rebanho não tinha filhotes aparentemente, afinal ainda não era a estação. Se em número eram quase iguais, em força o grupo de caçadores não seria páreo para um único volsão, ainda assim Andro notava a ansiedade em seus companheiros, especialmente Gauro e Frago, mas de todo, os bravos estavam impassíveis aguardando as ordens de DoroMárius. Assim era o povo de Márius, guerreiros irracionalmente desejosos por batalha, brigões bêbados em ímpeto, jovens entorpecidos pela ilusão de imortalidade, crentes que todo valoroso morto reviveria sua bravura na próxima encarnação. Andro tinha todas essas características, mas temperava-as com tenacidade e silêncio. Em uma das pontas da formação, ele olhava para o lado, o branco dos cabelos luminosos de Nirne encobriam e revelavam o sorriso dela debaixo de olhos maldosos.
— Que diz esse vento Andro? O terror morre hoje?
Nirne era uma das mais jovens, mas não menos capaz. De maneira que sua arrogância jovial além de não ser infundada era algo comum ao seu povo, mas Andro jamais conseguiu demostrar seus sentimentos de maneira tão aberta. Táticas em mente DoroMárius sinalizou em silêncio e o grupo se distanciou ainda mais, Andro espelhou o movimento da ala oposta para que formassem um semicírculo. Tudo naquela antecipação dizia que o início da contenda se daria com um retumbante grito de batalha instigando todos os caçadores para frente, mas o grito, ou melhor o urro animalesco, partiu primeiro de entre os volsões. Um único volsão que facilmente se destacava do rebanho e trotava na direção dos caçadores.
— Sim, ai está Torvo, realmente um monarca — pensou Andro — aceitando o desafio, confiante que vencerá.
 Bastava olhar seus chifres apontando para cima, longos e lustrosos, a juba clara maior que o normal, o pelo vermelho queimado das costas se movendo sobre a musculatura pronunciada. Torvo contraiu suas mandíbulas e rosnou movendo sua cabeça para um lado e outro. Apesar de preferirem ervas como fonte de alimento, um volsão facilmente mastigaria o crânio do oponente, ali não havia mais engano, apenas a morte de um dos lados terminaria o conflito. Torvo finalmente focou seus grandes olhos amarelos em DoroMárius propondo um desafio mudo, o maior dos Márius não avançou um passo sequer. Sem esperar pelas tentações do destino, DoroMárius ordenou o recuo e correu. Todo o grupo retornou em furiosa corrida por alguns instantes, quando Torvo estava longe o suficiente do resto do rebanho DoroMárius, astuto, mudou a direção para que e o grupo passasse a cercar o enorme volsão.
_Cedo demais — Andro teve tempo de pensar.
— Jeno!
Gritou um do grupo, mas a jovem mal conseguir virar seu rosto e Torvo já estava sobre ela. A agilidade de Jeno era acima da média, e ela provou isso esquivando no último instante, mas o volsão não era chamado de terror sem motivo. Torvo virou sua cabeça enquanto passava e rasgou as costas da jovem. Jeno gritou em dor genuína e Andro viu as duas marcas rasgando as costas dela, revelarem gordura, carne e sangue. Antes tão viva, tão vibrante a expressão no rosto de Jeno contava então a agonia que sentia, seu corpo escureceu por completo ao cair.
— Morta? — pensou Andro – ou praticamente.
 Após comandos apressados de DoroMárius o grupo imediatamente mudou sua direção. Eles agitaram suas lanças ao ar buscando chamar a atenção do volsão e novamente cercar a fera. Andro não esperava que funcionasse, mas obedeceu prontamente a estratégia. O grupo se manteve em movimento de cerco, Gauro e Frago, mais ousados, se aproximavam ameaçando perfurar a fera pelas costas a cada investida mal guiada de Torvo. Para eles não havia sofrimento pela companheira caída, pois a chama da bravura retornaria sua alma aos vivos. Sem temor de morte os guerreiros gritavam seus desafios, Torvo parecia responder a cada provocação.
— Realmente magnífico!
Andro estava encantado com a besta. O volsão não deixava nada em desejar, quando parecia que um deles havia encontrado uma brecha para aplicar um golpe mais potente, Torvo girava seu imenso corpo em rodopios, mesmo tão pesado como era, sua força muscular era incrível e a explosão em seus movimentos impedia que ataques fossem sincronizados. Até onde Andro podia ver nenhuma lança havia perfurado de maneira significante o couro da fera. A batalha era de beleza inigualável, mas não havia possibilidade de o grupo aguentar por muito tempo. Andro logo confirmou seus temores. Num giro súbito Torvo atingiu com suas patas traseiras uma das jovens que, pega desprevenida, não foi rápida o bastante para se afastar dos cascos. Gaie foi jogada ao chão, não houve mudança em suas cores.
— Descordada, mas ainda viva, mesmo assim...
Naquele instante de instintos despertos Andro viu, realmente viu o que estava para acontecer, Torvo iria pisotear Gaie ali mesmo sem que o grupo pudesse tomar qualquer atitude. A besta saltou sobre a jovem que milagrosamente evitou os cascos caindo sobre ela, em sua frágil resposta o grupo seguiu a formação em cerco para atingir a fera.
— Não o suficiente.
 Andro já tinha visto o bastante. Num grito ríspido ele atirou sua lança forte ao ponto de sentir seus tendões lesionarem. Sem lançador e pesada como era aquela lança não seria um ataque eficaz.
— Mas talvez...
No impacto a lâmina penetrou fundo o dorso de Torvo, o volsão urrou de dor se afastando em saltos com a arma presa em suas costas. O resultado foi tão ou melhor do que Andro esperava, a fera cambaleou uns passos mais e parecia que ia cair, numa atitude que Andro só poderia classificar como surpresa, Torvo parou por completo. Gaie estava sendo arrastada pelos braços quando o volsão se virou e exibiu olhos amarelos de puro ódio. Como todo predador Torvo tinha os olhos na frente da face, e sendo encarado por eles Andro começava a entender a verdadeira natureza maligna daquela criatura.
— Até aqui você estava brincando conosco, mas uma ferida assim atinge tanto a carne quanto o orgulho, não é?... Então agora, bem... agora tudo muda não é?...
Torvo mirou em Andro toda sua atenção, toda sua fúria, cada passo do volsão ecoava uma resposta dentro do peito dele. Andro não era um guerreiro de fato, ele era apenas um pastor, sua natureza estava ligada ao crescimento e não à matança. Por um instante, tudo ao redor desapareceu. Ele podia sentir a força daquele monstro ressoando com a entidade daquela terra, crescendo selvagem. Certezas se construíam naquele instante, nada iria mudar a direção da fera e Andro não seria rápido o bastante para desviar. Era um momento de terror e ao mesmo tempo de pura glória Andro sentiu que algo nele se transformou, o mundo se fez escuro, seus bravos companheiros de brancos vibrantes passaram a negro total. Então só havia duas grandes forças e Torvo era uma delas, enorme, a cada batida de seus cascos o volsão criava trovões na terra abaixo, mas acima havia outra. Nas nuvens estava a força que acompanhou Andro por toda sua vida, naquele momento era perfeitamente evidente, a força acima deles que habitava as nuvens, cavalgava os céus e transformava o dia em noite.
Andro viu apenas vermelho, a força dentro dele era feroz demais, ele abriu sua alma entregando-se a ela, no mesmo gesto abriu seus braços para agarrar os chifres que traziam sua morte. O impacto do abraço horrível atravessou seu corpo, era como tentar segurar uma avalanche, as patas de Torvo se moviam tão rápido que faziam sua visão desfocar, seus ouvidos vibravam, Andro tremia e sorria.
— Não esperava que fosse de encontro a você valentão?... Grandalhões não temem detalhes insignificantes, não é?
Noutro exato instante de clareza, antes de o volsão tocar o chão com sua pata dianteira Andro chutou com toda sua força e Torvo o terror caiu. Na inesperada virada, todo o mundo pareceu girar, Andro ainda em seu breve momento de lucidez e se encaixou entre os chifres para evitar ser esmagado ao atingir o chão. Por todo o bem que isso fez, suas pernas ainda pareceram ser arrancadas de seu tronco, foi mesmo um abraço mortal. Perdido num mar de vermelhos e pardos Andro lutava para se segura com apenas um de seus braços enquanto seu corpo e o próprio volsão iam se arrastando pelo vale. Os caçadores gritavam, ele não conseguia ouvir.
— Um pouco mais... um pouco mais...
Pendurado na cabeça da besta, Andro sentia o quanto o chifre era frio ao toque, não importava, ele segurava o mais firme que podia. Num contraste com os chifres, os sopros sucessivos que vinham da boca de Torvo eram quentes, os dentes da besta produziam horríveis estalos ao baterem uns contra os outros. Na garganta de Andro o sangue surgia.
— Mais... um pouco!
Antes que a fera reposicionasse as patas debaixo de si e pudesse tentar se levantar, Andro finalmente retirou a adaga de seu cinto, ergueu seu braço e cravou a lâmina o mais fundo que pode no olho de Torvo. Um grito rasgou seus ouvidos e suas costas encontraram o chão duro pela última vez.
— Agora!
Gritos soavam de todos os lados, mas preso como estava ele não conseguia discernir. O grande volsão urrava, se contorcia buscava o ar que lhe faltava e urrava de novo. Andro já não via a luta dos bravos, mas sentia quando cada uma das lanças penetrava o corpo de Torvo, porque cada espasmo produzido no volsão também corria pelo corpo dele ainda preso debaixo da besta. Andro estava em seus momentos finais, nisso não havia surpresa, a surpresa estava na força ainda dentro dele. Imensa, rugindo tanto quanto a enorme fera que esmagava seu peito e naquele momento, se por arrogância ou delírio Andro não sabia, mas enquanto seus companheiros perfuravam o couro de Torvo, Andro tinha a clara impressão de que era ele sozinho quem estava segurando a fera junto ao chão. No todo foi apenas um instante, um estalo, como um raio. DoroMárius veio do alto trazendo sua lança.
— Tarde demais!
Apenas um instante relevante, um clarão, antes de DoroMárius perfurar o peito de Torvo, mas as forças tão imensas já haviam desaparecido. Tão certo como se sabe que está vivo, se sabe da morte. Inequivocadamente, Andro sentiu quando o poder furioso que até então partia o firmamento desapareceu de repente. Num instante havia ira, ímpeto, desafio, noutro não havia nada além de peso e escuridão. O volsão e o pastor, ambos já mortos, receberam o golpe mesmo assim.



Obrigada, continua..

Córdia
Enviado por Córdia em 26/12/2020
Código do texto: T7144248
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2020. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Comentários

Sobre a autora
Córdia
Rolândia - Paraná - Brasil, 29 anos
29 textos (719 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/03/21 16:50)
Córdia