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Estér e Sir. William – O Primeiro Encontro

A menina andava distraída, chutando vento vupt! vupt! pela ruazinha deserta que parecia sumir lá no fundo. A menina pequena e de perninhas finas como dois canudos de plástico. E por coincidência (ou ciência-sem-sentido), era exatamente isso que se passava pela cabecinha de alfinete da menina: será que, antes do plástico, os canudos eram de madeira? Ah, uma dúvida dessas era capaz de roubar horas do dia daquela avoada criatura. Avoada não só no sentido figurado: a menina, para quem não consegue imaginar essas coisas, tinha asas. Duas asinhas pequenas e de penas brancas como leite, aliás, mais brancas que leite. Duas asinhas quase inoperantes, que se encolhiam, não sem certo incomodo, dentro da blusa rosa de bolinhas brancas, debaixo dos cabelos longos e providencialmente grandes. Ela sempre quisera cabelos curtos feito de menino; a mãe, porém, explicara – como se explica a gente grande – que não podia porque e tal. Ela entendia e voava como sabia melhor (suas asinha, até, eram pequenas demais para voar de verdade, disso ela não sabia). Bem, mas eu contava que ela andava pela ruazinha, e voltemos para lá. Ao passar em frente da entrada de uma viela escura – mesmo que fosse dia e o sol estivesse amarelo pendurado no alto – um inseto do tamanho de uma vaca em pé pousou à sua frente. Era preto, preto e suas asas que depois se transformaram em capa deixando a menininha confusa, além de assustada que já estava, tinha bolas coloridas e brilhosas como globos de discoteca. Os olhos bem grandes eram de gente e a boca, ora essa, não sei de que era aquilo.  As suas antenas curvas mexiam como se tivessem vida própria, isso era bem típico dos insetos. Então o inseto gigante – meio agoniado, pareceu-me - olhou para ela e perguntou as horas. E a menininha, como qualquer criança de 5 anos (mesmo que com alguns pensamentos um pouco mais complexos que os desses vegetaiszinhos de pernas inquietas) começou a chorar todas as lágrimas que existiam nos olhos azul-piscina. Chorou e chorou e chorou mais um pouco. E por alguns minutos ficaram os dois, frente a frente, ela choro e ele interrogações. Até que ele disse, tentando acalmá-la: “tudo bem se você não tem relógio, eu também não”: mostrou a pata de 3 metros de comprimento e cheia de espetos, de fato, sem relógio. O choro, obviamente, só aumentou. Ainda mais confuso, o inseto tentou chegar mais perto, ao que as mãozinhas cobriram o rosto já mais vermelho que um suco de tomate. Daí, ele recuou sem nada entender e sua capa colorida sumiu no escuro da viela a pensar que mal havia em não ter um relógio. Compraria um, de qualquer modo, assim que pudesse. Afinal de contas, tudo para não passar mais uma vez por situação tão embaraçosa. Logo ele, um Sir.
Álvaro Andrade
Enviado por Álvaro Andrade em 20/11/2007
Código do texto: T745430

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Sobre o autor
Álvaro Andrade
Salvador - Bahia - Brasil, 31 anos
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