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Instruções para voar

Primeiro, lave as mãos. O legítimo vôo tradicional exige que você se desfaça do cheiro da caneta, da tinta, do sabonete, do carinho no gato, do mundo preso às linhas da palma das suas mãos. Lave as mãos, rápido, lave-as com água, e enxugue-as enquanto pensa numa cor que não existe mais.

Segundo, procure o céu mais próximo e abra os braços; crucifique-se numa lembrança boa, de preferência numa bem antiga, já com a cor do tempo. Tente reviver na cabeça a primeira braçada no mar num dia quente, o sangue de um dente que demorou para cair, o perfume daquele poema que enlouqueceu o seu coração. Abra demais os braços, deixe o prazer espreguiçar-se pelos seus músculos, opa, olhe uma pluma brotando nas suas costas.

Terceiro, imagine que o mundo é um balão cor-de-rosa com cheiro de jasmim. Então, é bom cuidar com os seus pés, o planeta está prestes a deslocar-se do seu eixo e você pode cair. Sim, é normal sentir o aroma da madrugada nesse estágio, afinal, as coisas mais fantásticas acontecem quando nossas pálpebras não agüentam mais o peso do dia, e o nariz perde-se pelos vales de fragrâncias do travesseiro. Cócegas? Frio? Estamos no caminho certo! Por Deus, comece agora a sorrir; o chão está se afastando da sua vida.

Quarto: mãe, obrigada por ter chorado aquele dia / eu gosto muito quando o vento pede pra eu fechar os olhos / liberdade torturante / sabe quando a gente não consegue se desgrudar do cobertor? / Isso é preguiça ou infância? / Eu quero todos os irmãos caçulas do mundo! / , assaltado imediatamente por esses obscuros presságios que assombram mesmo os pensamentos mais confiantes / Olha, tem uma estrela se findando / sendo imortal, o amor brinca de reinventar-se / janelas esquizofrênicas / EXPLODAM, DÁLIAS! / Qual o tamanho da sua natureza? / sementes / os gestos de amor são um doce museu / perdoe.

Quinto, abra os olhos devagar. Seus pés podem estar formigando, então sente-se. Respire fundo para acalmar o coração. Fique à vontade para que você possa saborear a sua aterrissagem.
Vanessa Bencz
Enviado por Vanessa Bencz em 23/11/2007
Código do texto: T749569
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Sobre a autora
Vanessa Bencz
Joinville - Santa Catarina - Brasil, 33 anos
35 textos (2302 leituras)
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Vanessa Bencz