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O Espaço De Um Instante.

Este conto apresenta a música de Umberto Tozzi "Eva", mas não é inteiramente baseado na composição. Algumas expressões da música foram usadas na narrativa, somente. No Brasil, há uma versão em português gravada pela banda Radio Táxi em 1983.
As inspirações para "O Espaço De Um Instante" são filmes, músicas e livros de ficção científica, entre eles 2001 Uma Odisseia No Espaço, Contatos Imediatos de 3 Grau, o álbum de Pink Floyd "The Dark Side Of The Moon", teorias acerca do Lado Oculto da Lua, entre outros. Também baseio-me em lendas urbanas sobre contatos imediatos na descrição da aparição da nave. Não tenho muito conhecimento sobre a geografia da Dinamarca, embora a ilha de Boríngia exista. Esse conto é uma obra de ficção e não tem compromisso algum com a realidade.



“Prima o poi di follia scoppiera' mezza umanita'
Su di noi stormi di nucleari avvoltoi
Ma l'amore e' un dio
E saremo io e te l'arca di noe'
Questo amore crea e alla fine
Di questa odissea
Saro' adamo e tu sarai
Una piccola Eva, Eva
Il nostro amore e' l'ultima astronave Eva
Staremo stretti ma ci salvera'
Come un uovo di eternita'
Che si torna ad aprire eva
Abbracciami di mare dolce piovra Eva
E ci respireremo finche' vuoi con
Le ali di arcangeloa
Nello spazio di un attimo.”

-- Eva por Umberto Tozzi.

“Cedo ou tarde a loucura surgirá na metade da humanidade, sobre nós rebanhos de exploradores nucleares. Mas o amor é um Deus, e estaremos eu e você na arca de Noé. Isto cria o amor e no final dessa odisséia. Serei Adão e você será uma pequena Eva, o nosso amor é a última astronave, Eva. Estaremos apertados mas nos salvaremos como um ovo na eternidade que vai se abrir, Eva. Abraça-me como um doce polvo do mar, Eva, e respiraremos nas asas de um arcanjo no espaço de um instante.”


Ele pensava nessa música italiana enquanto olhava para a menina do outro lado da sala, parada e calma fitando a grande mesa em que o conselho dos Estados Unidos, junto ao corpo principal da NASA, estava sentado. O astrofísico não era bom em italiano, mas quando escutou a canção de Umberto Tozzi em um LP, viu a tradução em inglês no encarte. Deveria dizer nos seus discursos em cada promoção que tinha dentro da NASA que seu principal ponto de entrada na faculdade se principiou com filmes de ficção científica e músicas psicodélicas enfeitadas de teclados, entretanto, aquilo já estava muito corriqueiro. A NASA era lotada de nerds, fãs de Pink Floyd, Alan Parsons Project, etc, etc. O astrofísico costumava dizer que o reconhecimento de sua paixão veio pelos cálculos, fotos de Planetas, pensamentos filosóficos acerca do Universo. Não deixava de ser uma verdade, entretanto, esta verdade só veio a se tornar frequente nos seus pensamentos ao som de Umberto Tozzi, na vitrola, na romântica língua italiana falando do apocalipse, astronave, uma garota por quem se apaixonou e que estava consigo lá dentro, os dois responsáveis pelo repovoamento da espécie humana. No espaço de um instante. Ele não achou que iria pensar na música do italiano aos sessenta de idade dentro de uma sala grande na sede da NASA em Washington. Mas estava, olhando a estranha menina dos olhos cor lilás refletindo todos aqueles homens e mulheres - na quantidade exata de trinta - sem emitir uma palavra.

Sua pele era branca. Não um caucasiano encontrado em qualquer canto da Terra, pois não parecia simplesmente vir da Terra. Os cabelos castanhos tomaram uma coloração estranha mesclada ao preto e cobre não necessariamente algo feio, mas exótico, convertendo-se em pequenas ondas sob os ombros. Sua postura era altiva, a coluna não indicava relaxamento, e as mãos posicionadas no colo indicavam, de vez em quando, o roçar do indicador na ponta da unha do polegar.

No espaço de um instante. O astrofísico continuava pensando naquela mesma frase no fim do refrão da música, cantada com tanta beleza que se perguntou, olhando para a garota branca do outro lado da sala sentada em uma cadeira com rodas na base, porque não aprendeu italiano. Bebericou um copo d´água, nervoso. Estava pensando em uma música quando a resposta da humanidade estava bem ali, naquela sala, respirando do mesmo oxigênio. A pergunta crucial que se fazia desde quando um ser humano começava a se identificar como um ser pensante era “De onde viemos?” e “Estamos sozinhos?” . O astrofísico se lembrou da sua juventude, nos momentos em que olhava pelo telescópio no seu quarto observando as Estrelas, perguntando-se a mesma coisa várias e várias vezes. Faziam-se satélites, naves, ônibus-espaciais. Construíam sondas, enviavam discos com a própria cultura para o vácuo, queriam uma resposta. Indivíduos na Internet acreditam veemente que a NASA esconde provas sobre Vida fora da Terra, que tem amostras alienígenas na área 51, que ninguém de fato visitou a Lua, até mesmo o absurdo da Terra Plana, quando na verdade o grupo de astrofísicos, astronautas, cosmologistas, engenheiros espaciais, todos eles de nada sabem porque fazem a mesma pergunta todos os dias, e tem, no âmago, lá escondido, medo da resposta. Um medo que inspirou diretores de cinema a almejar filmes como Alien, O Segredo Do Abismo, Star Wars, Star Trek, ET - O Extraterrestre, 2001 Uma Odisséia No Espaço, e muitos outros. Músicos cantaram sobre homens esperando nas estrelas, sobre astronaves atravessando o espaço de um instante. O astrofísico pensou em muita coisa olhando para aquela menina sem idade concreta do outro lado da sala, mesmo sabendo que ela tinha 13 anos quando foi abduzida. Desapareceu, as teorias era de um pedófilo assassino. Reapareceu, e a NASA não permitiu que sequer fosse divulgado. Dali em diante ela teria todas as respostas, inclusive para onde iriam. Era uma guru de olhos roxos e pele branca como uma porcelana.

Outro gole d’água. Aquilo não parecia real, quiçá palpável. O astrofísico pensou que, caso se beslicasse, iria acordar do lado da esposa cantarolando a música em italiano, perguntando à ela onde tinha deixado aquele LP antigo, mesmo sabendo que a tecnologia proporciona o download direto da internet. Nada supera o som do vinil.

---- Senhorita Jensen, você está confortável? Poderíamos lhe trazer algo para comer ou beber? ---- O Presidente dos Estados Unidos da América se propôs a trazer comida e bebida para a menina, uma veia de preocupação identificável na sua têmpora. Parecia fazer aquilo forçado, observou o astrofísico.

---- Estou bem, obrigada. ---- Ela respondeu, e o cientista percebeu que fora a primeira vez da qual a ouviu emitir uma palavra. Sua voz era suave, tilintava no tom feminino, mas não parecia refletir a mudança hormonal de uma adolescente na sua faixa etária. Era um tom maduro demais, quase exasperado.

Como se não quisesse estar ali.

---- Ótimo, ótimo. ---- O presidente olhou para a equipe da NASA, no final da longa mesa. Um cosmólogo pigarreou, tomou um pouco da própria água. Tremia. Pegou uma papelada, a organizou.

---- Senhorita Jensen, eu sou ….---- Suspirou, esfregando o nariz. Seu rombo de emoção foi compreensível pelo astrofísico, que naquele momento quis sentir o mesmo e não aquela sensação de letargia --- Eu sou Hugh Paulson, cosmólogo da NASA. Nós gostaríamos de fazer algumas perguntas antes de ...A senhorita já fez os exames necessários, aqui diz. Seu metabolismo está normal, até mesmo acima da média. Há muito acima da média aqui.

---- Senhor Paulson. ---- O Presidente suspirou mais alto que o cosmólogo momentos atrás, mas não sentia emoção. Estava impaciente ---- Vá direto ao ponto, a senhorita Jensen deve estar cansada.

---- É claro. ---- Paulson fungou ---- A senhorita pode me confirmar, então, as informações?

Não houve resposta pela menina Jensen. Ela parecia apática, mas ciente da sua presença na grande sala branca. O Cosmólogo começou:

---- A senhorita nasceu em 1999, conforme consta na sua data de nascimento, e desapareceu em 2012. Correto?

---- Sim, senhor Paulson. ---- Respondeu a menina.

---- Tinha 13 anos na época.

---- Sim.

---- Os cálculos não possuem lógica nenhuma. Se houvesse nascido em 1999, teria, em nosso ano atual, 19.

---- Exatamente, mas não há lógica no que aconteceu comigo, senhor Paulson. Não a temporal. ---- Ela se moveu na cadeira ---- De onde eu vim, o Tempo é diferente.

O Cosmólogo quase grunhiu, tomando mais água. O astrofísico coçou a nuca. A tensão era identificável na sala como um grande animal no lugar de Jensen que eles fingiam não ver.

De onde eu vim. - Pensou o astrofísico. Ela nasceu na Terra, entretanto, não a identificava mais como seu Planeta de origem. Ele quis sacudir Paulson na sua lentidão para que, enfim, perguntasse para onde ela foi e onde esteve.

Mas Paulson não sabia por onde começar.

---- Então tens a mentalidade de 19 anos, senhorita Jensen --- Ele continuou. Os olhos de todos pairavam hora nele, hora na menina ---- Mas a estrutura corporal de uma moça de 13 anos.

---- Não. Eu tenho 19 anos no Tempo de seu Planeta, mas eu evolui tanto que sou mais velha que todos vocês nesta sala. ---- Jensen lambeu os lábios suavemente róseos, uma amostra que ainda tinha sangue nas veias ---- Meu corpo, é claro, não obedece as regras de envelhecimento da rotação deste Planeta, obviamente por ter ficado anos-luz distante. Eles não envelhecem mais.

---- Eles, senhorita Jensen?

Este era o ponto.

---- Continue com as perguntas. ---- A menina pediu, e o astrofísico quase riu. Pensou que ia enlouquecer, que já estava enlouquecendo. Paulson continuou:

---- Seu país de nascimento é a Dinamarca.

---- Sim. ---- Foi a resposta dela.

---- Em Boríngia, uma ilha dinamarquesa.

---- Sim, senhor.

---- O Governo da Dinamarca terá uma conversa com você em breve, senhorita Jensen. ---- O presidente interrompeu, tamborilando os dedos na mesa ---- Estão orgulhosos de sua coragem.

A menina o fitou, mas não se demorou muito. Seu foco era Paulson.

---- Você pode nos contar como teve um contato imediato de quinto grau? ---- O cosmólogo pediu e o astrofísico, que estava prestes a sacudi-lo, sentiu algo se embolar no estômago. Ele não estava pronto, duvidava que um dia estaria, mesmo procurando todos os dias por essas respostas.

Assim como cada indivíduo naquela sala.

---- Boríngia, conforme o senhor disse, é uma ilha dinamarquesa. Há muita água em volta e os terrenos fora da praia são campestres. Meu pai, Hans, é pescador, nossa família trabalha com pescaria a muitos anos e é conhecida na região. ---- A garota Jensen começou seu relato, sem vestígio de um sotaque pesado proveniente da sua nacionalidade. Não existia sotaque algum. O inglês perfeito falado por ela era perfeitamente articulado. ---- A casa em que moramos é localizada perto da praia, mas onde há grama, afinal, minha mãe conta que a hesitação do meu pai em construir a casa na areia era em relação as tempestades de maré alta. Mas é possível ver a praia de nossas janelas, principalmente quando chove, a água sobe muito. ---- Pausou ---- Enfim, era Verão de 2012, meu pai disse que a previsão do tempo indicava ausência de pancadas de chuva pelo resto do mês. Não nos preparamos, sequer estocamos comida. Foi aí que a chuva começou, inexplicavelmente.

O astrofísico se inclinou para frente, temendo desmaiar.

---- Quando as primeiras gotas de água começaram, meu pai rumou até a praia para pescar o máximo de peixes que conseguisse, e minha mãe sentiu um mal pressentimento. Ele ficou três horas fora, nunca demorou tanto. A chuva era forte, e eu sou a mais velha de dois irmãos. Minha mãe não conseguia parar de andar por nossa casa, os garotos estavam com fome, e eu não podia deixar isso acontecer. Saí correndo, e os senhores devem entender que eu era muito jovem e me sentia ansiosa, queria fazer alguma coisa. Eu não tive o amadurecimento de pensar que deveríamos ter ligado para a polícia da região e ter ficado com minha mãe. ---- O tom exasperado de Jensen se intensificou, ela parecia estar cansada de si mesma --- Eu o procurei pela praia inteira, gritando seu nome. A chuva caía forte, a areia molhada grudou nos meus sapatos como se fosse lama de pântano. Nenhum sinal de meu pai. Foi então que eu vi.

Jensen fez um gesto apontando para o teto, e todos olharam em direção. Não viram nada, exceto o teto vazio de concreto.

---- Era uma luz distante como a de um barco, mas era impossível um barco estar naquela tempestade sem virar. É um perigo óbvio o mar que rodeia boringia, ninguém sai para pescar nos barcos durante a chuva, até mesmo meu pai pescaria na beira da água. A pequena luz, entretanto, permanecia lá, parada, exceto por sua oscilação. Parecia que falava comigo de alguma maneira que eu não entendia, deixava-me fascinada para saber de onde veio mesmo que o racional - na época infantil - afirmasse: “é só um barco, Nielsine, volte para procurar seu pai.” Eu não sei por quanto tempo fiquei lá, parada, vendo aquela luz brilhar no horizonte.

---- Era na água, como um barco? ---- O astrofísico finalmente falou alguma coisa, detestando o tom vulnerável e ignorante da própria voz. ---- Este foi seu contato imediato de 1 grau?

---- Exatamente. ---- Nielsine Jensen afirmou, trazendo seus olhos roxos para o astrofísico. O furta-cor revelou um tom mais ameno, quase um lilás ---- Na água, como um barco de pequeno porte que não balançava, mesmo que a luz oscilasse. Como eu disse, sua oscilação era a comunicação deles, fui saber mais tarde. Eu não reparei que meu pai estava gritando por mim um pouco distante, lá na areia molhada. “Niel! Niel!” Ele dizia. Eu não conseguia responder. Quando veio até mim e pegou meu pulso, perguntei: “O senhor viu aquilo ali, pai? Aquela luz!” Mas já tinha desaparecido. No pequeno intervalo de entreolhar meu pai e buscar pela comunicação no horizonte, aquilo foi o suficiente para fazê-la desaparecer.

---- Seus pais disseram que durante dias você, senhorita Jensen, ficou completamente apática. Não comia. ---- Paulson retomou as rédeas, invejando o momento de intimidade entre a menina e o seu colega de trabalho ---- O que tem a dizer sobre isso?

---- Eu só pensava na luz. Não sentia fome, qualquer tipo de interação, até com meus próprios pais e irmãos, era limitada.

---- Como se descreveria antes do contato de primeiro grau?

---- Uma adolescente normal. Eu queria estudar em Copenhague.

---- E agora?

Jensen fitou Hugh sem saber como lhe responder, ou melhor, sabia. Mas não Hugh, nem ninguém na sala, entenderia caso contasse.

---- A luz voltou na madrugada do sétimo dia, e brilhava no mesmo lugar. Dessa vez não havia tempestade, mas ela brilhava na mesma intensidade da primeira vez, oscilando, chamando por mim. A minha janela ficava para a praia, senti aquele código na minha face quando acordei. Saí de casa sem fazer barulho algum, atravessei a praia correndo o mais rápido que consegui. Parei no meio da água, onde meu pé conseguia pisar na areia, mas aquelas águas envolviam meu quadril. Estava muito frio e eu não me importava.

---- O que a luz dizia? --- Perguntou um astronauta que foi ao espaço em 2010, tão ansioso que mal conseguia respirar.

---- Não sei, só dizia alguma coisa. Eu só fui saber quando eles me levaram. ---- Jensen estava finalmente chegando ao ponto, e dessa vez não haveria mais rodeios. Ela ficou calada, como se pensasse em uma maneira de explicar, sua feição comparava-se a de uma professora de jardim de infância pelejando para achar as palavras corretas para um grupo de crianças ---- A luz se aproximou de mim, saiu do horizonte, e vi que não era um barco. Não sabia, na época, como um disco daquele tamanho conseguia diminuir e aumentar tão rapidamente, assim como não soube como desapareceu na frente do meu pai. Mas aconteceu, e veio até mim. O disco era imenso, maior do que um avião, chegava a tapar parte da praia. As luzes eram diferentes, completamente opostas das que construímos, coloridas e brilhantes, quase me cegaram. Eu quis correr, senti muito medo, cheguei a dar passos para trás.

---- Então a sequestraram. ---- O presidente interrompeu a fabulosa descrição, apertando seu olhar em direção à Jensen.

---- Não, eles me convidaram para ir com eles quando piscaram suas luzes no horizonte. Eu quis saber de onde vinha aquela luz, não pensei em outra coisa nos últimos sete dias. ---- A menina suspirou ---- Nada se resume a sequestros porque não passou pela sua análise antes, senhor. Eles são muito maiores do que a autoridade da Terra, porque a Terra não nos pertence. Somos os seres orgânicos dominantes, sim, mas o Cosmos não pertence aos habitantes inteligentes que dominaram a forma de vida de seu Planeta, quiçá pertence à Eles. ---- Não permitiu que o ofendido presidente dos Estados Unidos emitisse uma palavra sequer, continuando seu relato ---- Não precisaram descer para me colocarem dentro de sua Nave. Em segundos eu simplesmente não estava mais na praia de boringia na Dinamarca. Eu não estava mais no Planeta Terra. Não cabe a mim descrever como é a estrutura do meio de transporte Deles, e também como Eles são em aparência. Foi me aconselhado que vocês ainda estão em processo de evolução, assim como eu estive antes de subir na Nave, e não entenderiam. Tudo o que viram em filmes, tudo que foi escrito em livros não se compara a imensidão real. Eles encontraram a minha aura ---- Jensen começou a fazer gestos lunáticos, vagarosos, desenhando o ar com seus dedos brancos ---- Falaram com ela. Ficaram fascinados comigo, me ensinaram muito, me levaram para atravessar Galáxias de Estrelas maiores do que o Sol da Via Láctea, e Planetas ainda mais imponentes que aquele do qual vocês chamam de Júpiter. O Planeta Terra é pequeno, e nunca será absoluto diante de tanta imensidão, é somente mais um que conseguiu produzir Vida Orgânica.

---- E de onde veio a Vida Orgânica? ---- o astrofísico perguntou, trêmulo.

---- Eles saem pelas Galáxias observando a Vida surgir em Planetas, ajudando-os a evoluir. Já foram como nós, não tinham conhecimento sobre nada, e aos poucos começaram a construir Naves. Essas Naves se tornaram muito maiores, o intelecto Deles não se limitou mais à carne antiga. Então descobriram de onde veio a Vida. Eles são lindos, não há nada de torpe nas suas palavras, não há feiúra ou ganância. São humildes, não querem guerras, não querem tomar nosso Planeta. Não são hostis. Até mesmo nos exames que fizeram para comigo, nas conversas telepáticas que tivemos foram bondosos. Eu não queria mais voltar.

---- E seus pais, senhorita Jensen? ---- O psicólogo do presidente, incrédulo, perguntou. ---- E seus irmãos?

---- Eu os amo, mas retornar à Terra significa me limitar. Não sinto que pertenço mais a minha própria espécie. Lá eu sabia que, com o tempo eles iriam entender, e confesso que pensava em meus familiares com frequência. Pedi para um Deles mandar um sinal, dizer que eu estava bem, mas…--- Jensen lacrimejou, o primeiro lapso de emoção. Aquela lágrima cristalina desceu do seu olho roxo, e o astrofísico sentiu uma vontade estranha de recolher a amostra ---- Ele me disse que eu voltaria. Voltaria para dizer à vocês sobre o que eu vi, anunciar que não são hostis e em breve farão uma nova visita.

Então o burburinho começou. O presidente dos Estados Unidos se levantou batendo na mesa, expressando seu descontentamento com tal contato, expressando que não haveria como os habitantes do Planeta Terra ser avisados de tal situação. O caos tomaria conta, a religião não teria mais poder, a humanidade entraria em um colapso.

O astrofísico permaneceu sentado enquanto todos se levantavam na discussão acalorada. Ele fitava a menina, perturbado, ainda insistindo naquela canção italiana, achando-se um tolo por tal feito.

Jensen disse em voz alta: ---- O Tempo Deles é diferente do nosso. ---- Irrompeu acima das vozes masculinas ---- Mas estão esperando.

“La mia vita e' un flash
Per chi liscia I bottoni antiatomici.”

“Minha vida é um flash para os suaves botões anti atômicos.”

---- Esperando! ---- O presidente exclamou, bebendo um generoso copo d'água ---- Pois nossa resposta é essa: Não queremos eles aqui. Seu desaparecimento causou grande falácia e estamos aliviados por estar de volta, senhorita Jensen, mas você não pode sair por aí falando que alienígenas estão nos observando! Sabe o caos que isso proporciona? Arquivem o caso dela imediatamente.

---- Você não tem poder de dizer isso. ---- Sem se levantar, Jensen disse calmamente ---- Não tem poder sob este Planeta. O senhor Reinauldi sabe disso. ---- Fitou o astronauta que a essa altura parou de falar --- Não é? O Lado Oculto da Lua, senhor Reinauldi. A Apollo 11. Neil Armstrong sabe.

Um grupo de seguranças, acionado pelo presidente do Conselho Científico, entrou na sala. John Reinauldi, o astronauta que sabia demais, ficou parado vendo um grupo de guardas algemar a menina. Ela ainda o fitava.

---- Vocês nunca tiveram poder sequer sob a Lua. ---- Ela disse, a esta altura levando a atenção ao astrofísico ---- Eles virão, não sei dizer quando. Mas virão, e levaram muitos de nós para se comunicar, estes muitos não voltarão, estão com Eles. Eu não queria voltar, mas aqui estou. Essa é a mensagem, vocês não estão sozinhos. Não estão sozinhos, e quando Eles vierem, estarão aqui no espaço de um instante.

A garota, que outrora foi filha de pescadores dinamarqueses, desviou o olhar do astrofísico sabendo muito bem o que estava falando. Atravessou a porta acompanhada dos guardas responsáveis pela ordem na sede da NASA mas as discussões não findaram.

O astrofísico se sentou, ouvindo o nome de Neil Armstrong e Apollo 11 entrarem no conjunto de vozes que disputavam para serem ouvidas. Era uma descrição beirando a uma estapafúrdia paródia dos governos, das leis, de tudo que fizeram ao redor de milênios: vozes querendo ser ouvidas, ignorantes nas sua ganância limitada, na sua concepção egocêntrica de poder. Ele tremia quando estendeu a mão e pegou a pasta que lhe foi entregue contendo a cópia dos documentos da menina, vendo sua foto 3X4 tirada quando ela era apenas a filha de um pescador em uma ilha que muitos não sabiam sequer da existência. A foto exibia um rosto corado e humano, olhos azuis, cabelos castanhos, um sorriso inocente. Tiraram a inocência dela, substituíram pelo conhecimento absoluto sobre o Cosmos no espaço de um instante.

Passou o polegar pela foto, perturbado pelo sorriso de Nielsine Jensen.
James Ravencliffe
Enviado por James Ravencliffe em 10/05/2018
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Sobre o autor
James Ravencliffe
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