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Corpus Androidicus

— Vejo — disse o Supervisor do Departamento de Mutação Genética. — que estavam escoltados por Helena no primeiro andar. E sabem por que sei disso?
Ninguém respondeu.
— Exato! — o Supervisor mostrou um longo sorriso branco que contrastava com sua pele alaranjada, proveniente de horas em sessões de bronzeamento artificial. — Não é porque me contaram que vocês viriam e começariam pelo primeiro andar, não. Seria até ilógico, começar pelo primeiro andar! — seu bigode se contorceu um pouco mais conforme pronunciava essas últimas palavras. — Eu sei que estavam aprendendo sobre partenogênese pelas expressões maravilhadas, extasiadas, sem palavras em suas caras.
Os alunos, aliviados com o humor do Supervisor, sorriram, chegando a soltarem gritinhos de risos reprimidos.
— Que bom, que bom! Mas eu não entendo o porquê das risadas. — mais gargalhadas foram reprimidas. O Supervisor passou o braço por cima do ombro de um dos estudantes que estavam na frente do grupo. — Agora venham, venham! Vocês estão prestes a conhecer a história da criação, de como a humanidade se recriou e se aperfeiçoou no transcorrer dos tempos.
A turma, ainda sorrindo, o humor permeando o ar e atenuando a tensão, seguiu o Supervisor do Departamento de Mutação Genética, ou, como ele pediu para ser chamado pelos alunos, Dionísio.
Diferente do andar anterior, a sensação que os alunos tiveram foi a de estar de volta à modernidade. Sem expositores de vidro com apetrechos primitivos, textos em stream views com fotos antigas e paredes de tons pastéis, o novo andar tinha o bom e comum tom azulado das luzes de led e holocomputs.
Por todos os lados pedaços de corpus androidicus, como Dionísio havia chamado — coisa que provocou mais um daqueles risos abafados da turma —, estavam espalhados em cima de muitas mesas estreitas e longas, brancas e com uma superfície única que estendia do chão até voltar novamente ao mesmo, formando um arco quadrangular.
Todas estas mesas estavam concentradas no meio da sala, enfileiradas como carteiras nos Institutos Federais. Os alunos, desconfiados, pararam junto ao Supervisor.
— E aqui — o rosto de Dionísio era de sincero contentamento. — vocês irão aprender sobre a História da Criação dos Androides e Andróginos, e, — sua expressão adquiriu um sorriso sádico. — ao final, participarão de uma oficina, com o sr. Olimpo, onde deverão montar seus próprios protótipos de um programa de desenvolvimento físico.
Um burburinho em crescendo se espalhou pelos rostos juvenis, pegos de surpresa pelo Supervisor. Eles tinham à excursão justamente para escapar dos trabalhos da Sra. Arquimedes na sala de aula, e agora iriam ter que fazer um, com certeza, muito mais complicado do que os dela.
— Eu sei, eu sei! — falou Dionísio, gesticulando com as mãos no ar para diminuírem o volume. — Mas vocês não precisam ficar espantados. Esta oficina será apenas para terem um conhecimento prático. Vocês não estarão sendo avaliados.
As expressões dos alunos abrandaram. O Supervisor, alto em suas pernas longas, vestidas com uma calça preta que, em conjunto com a camisa branca abotoada até o penúltimo botão, formava o conjunto de suas roupas, caminhou para uma figura holográfica que representava um cabeça andróidica. Os alunos fizeram uma volta diante da estranha imagem.
— Como podem ver, — iniciou Dionísio. — esta é uma cabeça andróidica pré-aquariana. Alguém sabe me dizer o porquê?
A turma permaneceu silenciosa.
— Ora, eu sei que vocês foram condicionados a somente — fez uma concha com as mãos, fingindo contar um segredo, mas a voz saiu em seu tom habitual. — ouvir, no andar inferior. Hein? — suas sobrancelhas se arquearam e seu indicador direito apontou para o piso.
O riso não foi controlado dessa vez.
— E aí, o que me dizem? — Dionísio voltou a perguntar depois que a comoção cessou.
— Primeiro, — falou Satsuba. — podemos notar que tem uma aparência robótica, quer dizer... metálica, não é um androide ainda. Está mais para um autômato.
— De fato. — falou o Supervisor, para encorajar a menina. — Prossiga.
— Bem... — E mais uma vez Satsuba corou diante do rosto irônico de Dionísio. — O outro fator é que podemos ver que ele ainda não possui o trikey.
— Certeiro! — as mãos de Dionísio bateram palmas no ar, provocando um estrondo que causou certo sobressalto entre os alunos. — Qual é o seu nome, mesmo?
— Satsuba. — ela sorriu, contente por ter acertado.
— Satsuba está corretíssima. — continuou o supervisor. — Antes da Era Aquariana, isto é, antes da difusão mundial do Kira, androides — ele fez sinal de aspas. — não possuíam inteligência emocional ou social. Suas funções eram limitadas pela mente dos incompletos, e funcionavam apenas como máquinas que poderiam ser programadas para realizar tarefas para os seus donos.
Toda a turma lançou um murmurinho de desaprovação. Era um absurdo, androides como escravos.
— De fato, de fato. — pela primeira vez o supervisor parecia sério. — Algo lamentável, mas não podemos esquecer que, como os androides — novamente as aspas. — não tinham inteligência emocional e social, sua programação para servir aos incompletos era algo aceitável na sociedade da época, pois, na verdade, estavam mais para máquinas.
— Desta maneira, — continuou. — foi graças à programação dos androides —aspas. — que, através de um deles, programado para ajudar em um laboratório de pesquisa em neurociência, o Kira foi descoberto.
Ao ouvirem as palavras, os alunos se aproximaram do supervisor, interessados; e pela estranheza da imagem no holocomput, pela sua forma repulsiva, não conseguiram parar de olhá-la enquanto o ouviam.
— Sim. — disse Dionísio, sussurrando misteriosamente e abrindo os braços e a mão como se fosse um mágico. — Alguns defendem que o Kira não foi criado, mas descoberto; que à priori ele já existia antes mesmo de o homem, quer dizer, o androide descobrir.
O ar rebentou em risadas, os alunos não podiam suportar a jocosidade do supervisor. Este, que junto à turma, dobrava-se sobre sua barriga sem fôlego.
— Oh! — Dionísio conseguiu dizer por fim. — Eu ainda rio sempre que conto esta piada... Mas, voltando aos assuntos sérios... Por favor, por favor, se continuarem rindo não conseguirei parar. — falou, contendo o riso que queria emergir novamente na classe. — Ufa. Vamos continuar. Onde foi que eu parei?
— Na criação do Kira.
— Isso mesmo. — disse. — O androide, — aspas. — hoje chamado de Androide 1 pela comunidade novocientífica, foi o criador, em colaboração com um cientista humano e incompleto, do Kira. Contudo, como já devem ter ouvido falar, muitos novocientistas defendem que o Kira foi, na realidade, um acidente.
Mas os estudantes pareciam não terem ouvido falar, sua sede de conhecimento sobre o Kira era insaciável, e, ouvindo o supervisor, tentavam extrair o máximo que conseguiam de informações.
— Assim, o que estes cientistas defendem — continuava Dionísio, que começou a caminhar para um novo holocomput estático. — é que o androide, ao criar a realidade virtual, à ela conectando, através de um protótipo do trikey, o cérebro do seu assistente humano incompleto, produziu, sem querer, uma realidade permeada pela herança psíquica dos humanos.
— Com tal, argumentam que esta não era a intenção inicial do projeto. — falou o supervisor, apontando para a nova gravura holográfica onde algarismos de um protótipo de programa caiam em cascata. — Eles dizem que a intenção era dar origem, apenas, a um programa capaz de controlar a sinalização celular do corpo humano, como forma de erradicar as doenças do mesmo, o que, de qualquer forma, ocorreu com a criação do Kira, mas originou, acidentalmente, a realidade virtual.
Os alunos, sedentos pela fascinante história já ouvida diversas vezes, escutavam toda a explicação do supervisor calados, a na sala inteira fazia-se um silêncio corrompido apenas pela voz vibrante de satisfação de Dionísio. Deste modo, ele passou a mão em um gesto rápido para o lado pelo holocomput e a imagem dos algarismos mudou para uma cabeça humana aquariana.
— Contemplem a evolução! — exclamou o supervisor; os braços abertos em boas-vindas para o nada. — O trikey. Vão em frente, e se quiserem — baixou a voz, levantando o dedo indicador para levá-lo até a cabeça holográfica. — podem experimentar pôr os seus dedos.
A classe, assistindo à bizarrice, suspendera os músculos que mantêm a boca fechada, e observou o dedo do supervisor entrando incisivo no trikey holográfico. Mas a onda de choque durou poucos segundos, só até um dos alunos mais zombeteiros e espirituosos da turma esticar o braço e enfiar metade do dedo médio na concavidade.
Toda a turma caiu na gargalhada, a piada era tosca demais para não rir. Dionísio enxugava as lágrimas dos seus olhos antes que pudessem cair e riscar o seu rosto; e só uma pessoa, dentre todas, não ria.
Zane não tinha achado que conseguiria sentir o buraco. Sua cara, momentaneamente de triunfo piadista, convertera-se em confusão. A impressão do tecido rodeando a ponta do seu dedo era intrigante; parecia cheio de nervuras e, ao contrário do que pensava, era extremamente fino.
A sensação era nova pois nunca tinha experimentado pôr o dedo em seu trikey. Fora daquele âmbito, a simples insinuação de fazer tal coisa era um ato obsceno, sórdido. O trikey representava aquilo que as pessoas possuíam de mais íntimo e importante, a integridade mental.
Os medos, os sonhos, as angústias, os desejos... Tudo era a mente, e o trikey era a conexão direta com ela. Quando conectada ao Kira, todas essas coisas se tornavam realidades dentro da estrutura virtual. A mente era aquilo que desejava ser, tinha aquilo que sonhava, lidava com os medos que não combatia no mundo físico e sofria as angústias que queria sofrer.
De certa maneira, aquele orifício entre as sobrancelhas simbolizava tudo isso, e Zane sentia-se mal por ter violado tal santuário. Disfarçando, tentando rir da própria piada solta que ricocheteou para a sua cabeça, tirou o dedo num gesto heroico e mostrou-lhe para a turma.
Novas risadas foram ouvidas, desta vez menos afetadas. Depois, aluno por aluno, toda a turma foi compelida a desbravar o território que Zane acabara de entrar e arrependia-se de tê-lo feito. A maioria experimentou o mesmo estranhamento do colega de classe, e, um por um, voltava com o rosto congestionado.
O sorriso de Dionísio poderia ser medido em metros; tinha o trejeito triunfante de palhaço mestre, e seu olhar brilhante revelava que ele era quem tinha feito a grande piada. Desta forma, os alunos, mais introspectivos, agruparam-se novamente em um único grupo.
— E então? — disse o supervisor. — O que vocês sentiram?
Ninguém falou. Parecia indecente falar sobre as coisas que sentiram.
— Eu sei, eu sei. — Dionísio continuou. — É realmente esquisito tocar um trikey por dentro. De fato, a única pessoa que conheço e parece gostar de fazê-lo é este fascinante jovem. — o dedo acusador apontou na direção de Zane; um riso tímido, mas crescente, espalhou-se novamente pela classe. — Isso mesmo, isso mesmo. Mas não vou me delongar neste assunto, passemos para o próximo.
— Até agora, tudo o que falei eram coisas que vocês já deveriam ter um conhecimento prévio, se — Dionísio gracejou. — não tivessem dado de cara com Cérbero no primeiro andar.
— Agora — prosseguiu. — partiremos definitivamente para a história da criação dos Androides. Ah, ai está o Sr. — o supervisor se interrompeu quando a porta do elevador abriu e comunicou para a sala a presença do Sr. Olimpo. — Turma, quero que conheçam o Sr. Olimpo. Ele está aqui para monitorá-los na oficina.
O androide, mais jovem que Dionísio, acenou com a cabeça para a turma, e ela, quieta, observou-o trocar um aperto de mão com o supervisor.
— Prazer em revê-lo, Olimpo. — falou Dionísio para o ele, antes de voltar-se para a classe. — O Sr. Olimpo é o Diretor da D.I.P., alguém sabe o que isto significa?
— Departamento de Implante da Psiquê. — disse um dos alunos.
— Exato. E alguém sabe o que isto quer dizer? Não? Bem... Isto quer dizer que darei a fala ao Sr. Olimpo.
— Obrigado, Dionísio. — sorriu o Diretor, habituado aos motes do amigo. — Bem, como deveriam saber, o D.I.P. faz parte do Centro de Mutação Genética de Androides e Andróginos, e pelo que é responsável o Centro?
Várias mãos levantaram ao mesmo tempo.
— O Centro é responsável pela criação de androides e implante do trikey em andróginos a partir. — a aluna passou na frente de seus colegas, sem esperar que o Diretor escolhesse um deles.
— Correto. Entretanto, não é só isso. — o diretor passou sua mão pelo holocomput e a imagem, mais uma vez, mudou. Mostrava uma tabela com números e pesquisas que nenhum dos alunos se esforçaram para compreender enquanto ele continuava a explicação. — De fato, o Centro, hoje, é basicamente responsável pelas coisas que a senhorita respondeu. Contudo, sua principal função é o estudo da genética, da herança orgânica, e não só orgânica — levantou o dedo. — como psicológica, mental.
— Isto posto, — continuou. — deve-se lembrar que o Centro foi o progenitor do novo mundo, da ordem una e natural das coisas, da evolução! Não devemos esquecer que foi a partir dele que se deu origem ao primeiro androide verdadeiro em Neo Brasilis, e, também, ao primeiro ser humano perfeito. Ao lembrarmos disso, da nossa história, de como viemos da imperfeição, podemos entender quem somos e o que devemos fazer para continuar sendo. E o que devemos fazer é avançar, progredir com a novociência.
— Assim sendo, hoje o Centro não só origina androides e realiza o implante do trikey, como pesquisa, continuamente, novas formas de aperfeiçoamento genético. Temos mais de quatrocentos estagiários por semestre de toda a Neo Brasilis, e cerca de setecentos cientistas já formados, tudo isso só no Centro da região central de San Paolo.
Os alunos ouviam-no com cobiça, suas atenções implorando por um estágio, por um emprego e, quiçá, um cargo vitalício no futuro.
— No D.I.P. — prosseguiu o diretor. — possuo mais de quarenta estagiários sob a minha tutela. A função do departamento, como seu nome entrega, é o implante da psiquê em androides. Alguém entende ao que me refiro?
— À inteligência? – foi a resposta.
— Não exatamente. — disse o Sr. Olimpo. — Talvez em palavras reduzidas poderia ser definida desta forma, mas não acredito que seja. — arrematou. — Mais alguém? Ok, então ao que me refiro quando falo em psiquê? — pontificava com a entonação de sua voz. — Devo dizer que é a plenitude da mente. É o eu, a consciência, o sentido de identidade e existência, as coisas sentidas e não observadas pelo consciente. — concluiu, triunfante. — A psiquê é, então, a forma de individualizar um androide, torná-lo humano. E como fazemos isso?
— Exato! — falou o diretor para a resposta imaginária. — Através do Kira. Creio que o Sr. Dionísio já lhes tenha falado sobre a teoria acidental? — a turma balançou a cabeça positivamente. — Ótimo! Então, como sabem, o Kira é constituído por materiais herdados de geração para geração de toda a humanidade, e esses materiais são ideias primitivas, inatas a todos os seres humanos, que servem de base para o desenvolvimento da psiquê.
— Desta forma — continuou. — o que é plantado, realmente, é a potência da psiquê. Nós implantamos estas ideias primitivas e inatas aos seres humanos nos androides, tudo isso através da conexão com o Kira, e assim as suas psiquês começam a se desenvolverem per si, como uma semente que se transforma em árvore. — concluiu. — Alguma dúvida?
Os alunos fizeram que não com a cabeça. Era muito lógico o que o diretor tinha acabado de explicar.
— Ótimo! — entremeou Dionísio. — Pois prosseguiremos para a criação do primeiro andrógino em Neo Brasilis e, logo após, para a oficina ministrada pelo Sr. Olimpo.
A turma, contenciosa, seguiu os dois homens que caminhavam lado a lado para a porta que os levariam à próxima parte. Já tinham estudado essa parte da história tantas vezes quanto um professor repete a palavra “entretanto”, e prefeririam pular direto para a oficina do Sr. Olimpo.
Todavia, não puderam escapar da maçante aula de história pré e pós-aquariana; e mais uma vez tiveram que ouvir sobre a Guerra dos Extremos, de como os unos foram criados e rejeitados pela sociedade da época e de como se ergueram, junto aos androides, para trazer nova ordem ao mundo. Uma ordem capaz de se recriar a partir de um só ser humano perfeito, caso necessário.
E eles escutaram toda a palestra como se escuta a um zumbido permanente: depois de um tempo não se percebe mais a sua existência.
Joseph Orasse
Enviado por Joseph Orasse em 11/07/2018
Código do texto: T6387475
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